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Existem demônios territoriais?


Nas duas últimas décadas, tem aumentado amplamente o número de escritores e de pregadores brasileiros defendendo, com veemência, a existência e a atividade de espíritos ou demônios territoriais, que seriam entidades malignas designadas por Satanás para governar e influenciar espiritualmente os habitantes de determinados territórios geográficos, com o objetivo de impedi-los de conhecerem e receberem a mensagem do evangelho.

“Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive vitória sobre os reis da Pérsia”. (Dn 10:13)

O que essas pessoas defendem?

Utilizam dois textos bíblicos para fundamentar o conceito dos demônios territoriais. O primeiro encontra-se em Daniel e o segundo, em Marcos.

No texto do livro de Daniel, capítulo 10, versículos 13 e 20. Ao lê-lo, notamos a alusão feita aos “príncipes” da Pérsia e da Grécia. De acordo com aqueles que defendem a existência e a atividade dos espíritos territoriais, esses “príncipes” são espíritos malignos designados por Satanás como “senhores” daquelas nações. Com base nisso, afirmam que todas as nações do mundo possuem um príncipe maligno para comandá-las.

Já o texto de Marcos, capítulo 5, versículo 10, a segunda passagem bíblica utilizada para defender a existência e a atividade dos demônios territoriais, descreve que os demônios que possuíam o homem gadareno pediram a Jesus para continuar em Gadara: E rogava-lhe muito que os não enviasse para fora daquela província.

Aqueles que acreditam na existência e atividade de demônios territoriais explicam que, se aqueles demônios saíssem daquela região, seriam punidos por invadirem território já ocupado.

Para essas pessoas qual seria a atividade desses demônios territoriais?

Teriam como principal atividade mergulhar as pessoas residentes nesses territórios em variadas práticas ocultistas (astrologia, satanismo, espiritismo, macumba, feitiçaria), com objetivo de impedi-las de receberem o evangelho salvador e libertador. Além disso, esses espíritos malignos atacariam as estruturas do território ocupado para corromper a sua religião, a sua cultura, o seu comércio, o seu governo.

Aqueles que defendem a existência e a atividade dos espíritos territoriais advertem que nenhuma cidade deverá ser evangelizada, antes de ser espiritualmente mapeada. Esse mapeamento espiritual – que é uma abrangente e minuciosa pesquisa da história, da religião, dos ancestrais, dos hábitos das pessoas da cidade – é fundamental, não somente para descobrir, mas, também, para desalojar o demônio que domina as pessoas e contamina a estrutura cidade.

O que dizer de tudo isso?

Com base no versículo 21, do capítulo 10 de Daniel, em que o anjo Miguel é chamado de príncipe de Israel, podemos afirmar que os dois príncipes, tanto o da Pérsia quanto o da Grécia, eram seres angelicais, e não seres humanos membros da realeza. E uma vez que exerciam oposição direta aos propósitos divinos, é correto declarar que se tratava de seres angelicais decaídos. A natureza da relação dessas entidades espirituais malignas com as nações citadas não é revelada pela narrativa bíblica.

Além de ser um homem de orações (Dn 6:10), Daniel era também um homem de jejuns (Dn 10:2). Se olharmos para o livro de Daniel, veremos que ele não precisava de momentos difíceis para orar. Ele orava sempre, todos os dias, três vezes por dia (6:10). Agora, vale frisar que as orações e os jejuns dele não eram “orações e jejuns de guerra”, ou seja, não eram para combater possíveis espíritos territoriais. É digno de nota que, na sua bela e rica oração a Deus em favor de Israel, que vem antes do capítulo 10 (9:4-19), não existe sequer uma menção aos príncipes da Pérsia e da Grécia.

A oração de Daniel não é, em nada, parecida com “as orações de guerra” ensinadas pelos que defendem o conceito de demônios territoriais. Em sua oração, não vemos Daniel pedindo para Deus derrubar determinadas fortalezas satânicas, amarrar as potestades dos territórios. Na oração de Daniel, o que vemos é reconhecimento de culpa (v.v. 5,6,8-15), confissão de pecado (v. 13), reconhecimento da justiça divina (v.v. 7,14,16), zelo pelo nome de Deus (v.v.15,19), confiança na misericórdia de Deus (v.v. 4,9,18).

O foco da oração de Daniel não é demônios, mas, sim, pecados.

Agora, vamos analisar Marcos 5:10, a outra suposta base bíblica utilizada para comprovar a existência e as atividades dos demônios territoriais. Como entender a expressão: "rogava-lhe muito que os não enviasse para fora daquela província?" Não podemos entendê-la, sem considerar o seu contexto. Tanto o evangelho de Marcos, quanto o de Lucas e o de Mateus, registram que, já na chegada de Jesus e dos doze ao litoral de Gadara, um homem possesso de demônios saiu-lhe ao encontro.

Note que não foi Jesus quem saiu ao encontro dos demônios, mas foram estes que saíram ao encontro de Jesus. Nesse encontro, entenderam que estavam diante de um ser de natureza divina, pois chamaram Jesus de Filho de Deus (Mt 8:29; Mc 5:7, 8:28). Para eles, Jesus não era filho de José, marido de Maria, mas Filho do Deus Altíssimo. Além de declararem a divindade de Jesus, aqueles demônios também reconheceram, reverentemente, a sua autoridade e a sua supremacia. Ao longo do texto, temos alguns verbos que mostram isso: adorou-o (Mc 5:6), prostrou-se (Lc 8:26), Peço-te (Lc 8:28b), rogaram-lhe (Mt 8:31a), permite-nos (Mt 8:31b).

Diante do Filho do Deus Altíssimo, aquele espírito imundo, com medo do juízo que Cristo poderia pronunciar contra ele, implorou: “Conjuro-te por Deus que não me atormentes” (Mc 5:7b). O que causou espanto a este espírito imundo em particular foi que o tempo de sua derrota e de seu tormento pareceu-lhe chegar cedo demais: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?” (Mt 8:29). É notável que os espíritos malignos admitam que o futuro castigo os espera. Os demônios sabiam e sabem que seriam destruídos, mas não sabiam e não sabem, com exatidão, nem o tempo, nem a forma.

Diante disso, ao rogarem para Jesus não enviá-los para fora da província dos gadarenos (Mc 5:10), aqueles demônios estavam, na verdade, pedindo para não serem encaminhados para o tormento destrutivo. A esse respeito, o evangelho de Lucas nos oferece maiores esclarecimentos contando que eles lhe pediram que não os mandasse para o abismo (Lc 8:31). Abismo, na linguagem do Apocalipse, está sempre associada a lugar de confinamento ou aprisionamento de espíritos, e não a lugar de destruição. Abismo será o lugar onde a besta ou Anticristo estará, antes de aparecer na terra (Ap 11:7), e será a prisão temporária de Satanás, durante o reino milenar de Cristo (Ap 20:3). O local definitivo do castigo dos seres humanos e angelicais perversos é comparado não a um abismo, mas a um lago de fogo: “E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre”. (Ap 20:10)

Jesus atendeu ao pedido dos demônios, permitindo-lhes que entrassem na manada de porcos: "E, saindo aqueles espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada se precipitou por um despenhadeiro no mar (eram quase dois mil) e afogou-se no mar". Não houve qualquer “quebra” do suposto poder dos demônios sobre aquela região, quando Jesus os expulsou (Mc 5:13). A população gadarena continuou descrente. Com exceção do gadareno liberto por Jesus (Mc 5:18), toda a população daquela região rejeitou a Jesus, pedindo que ele fosse embora: “e começaram a rogar-lhe que saísse do seu território” (Mc 5:17).

Os vinte e sete livros do Novo Testamento não reconhecem a existência de demônios territoriais, nem determinam a sua identificação e a sua localização. O Novo Testamento revela Satanás e seus demônios habitando, controlando, influenciando indivíduos e não territórios geográficos ou estruturas sociopolíticas (Mt 12:43-45; Lc 11:24-26). Em Mateus 10 e Lucas 10, vemos Jesus orientando aqueles que seriam enviados para uma atividade missionária. Dentre as inúmeras e minuciosas instruções, não encontramos nenhuma relacionada a demônios territoriais.

Em suas três viagens missionárias, o apóstolo Paulo passou por várias cidades e lugares de territórios infestados pelo ocultismo e tomados pela idolatria: Em tempo algum e em lugar algum, porém, o vemos fazendo mapeamento espiritual para descobrir a identidade e a localização dos possíveis demônios territoriais. E em suas treze cartas, não existe sequer uma instrução às igrejas a esse respeito. As cartas de Pedro, Tiago, João e Judas seguem na mesma linha das cartas de Paulo, ou seja, também não dizem nada sobre demônios territoriais. Esse silêncio somente confirma a inexistência dos demônios territoriais.

Aplicando a Palavra de Deus em nossa vida

1. Demônios territoriais não existem, não precisamos mapeá-los.

Não vemos Paulo fazendo um estudo da história, do costume, da cultura de Corinto, para identificar e localizar as supostas entidades malignas que a controlam (At 18:1-11). E olha que, em Corinto, os demônios estavam presentes e atuantes na idolatria! (I Co 10:10,21). Qual era a estratégia do apóstolo para evangelizar aquele território? Ele a explica em sua epístola: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, (...) decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (I Co 2:1a-2).

Ele apenas anunciou a Cristo, aquele que esmagou a serpente (Gn 3:15; Rm 16:20) e desarmou as potestades (Lc 11:22, Cl 3:15). Cristo nos basta!

2. Demônios territoriais não existem, não precisamos ouvi-los.

Ao ser importunado, na cidade de Filipos, por uma jovem que tinha espírito de adivinhação, Paulo não entrevistou o espírito para identificar quem era, de onde vinha, o local do seu trono em Filipos. Somente o expulsou (At 16:18).

É assim que temos de fazer, quando lidarmos com possessões demoníacas! É bom que se diga que expulsão não é uma oração propriamente dita, mas, sim, uma ordem expressa e incisiva (Mc 1:25). Agora, “não nos alegremos porque os espíritos se nos sujeitam: alegremo-nos, antes, por estar o nosso nome escrito nos céus” (Lc 10:20).

3. Demônios territoriais não existem, não precisamos ter medo deles.

Aqueles que mapeiam o território a ser evangelizado fazem-no, também, porque receiam sofrer retaliação espiritual de Satanás. É isso que a defesa e a prática dos conceitos sobre demônios territoriais têm produzido: inúmeros evangélicos espiritualmente agitados, inseguros, ansiosos, receosos de serem atacados ou invadidos por espíritos malignos. Se não queremos ser afetados pela “síndrome da retaliação satânica”, tragamos à memória aquela poderosa e grandiosa promessa de Cristo: “Eis aí vos dei autoridade (...) sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano” (Lc 10:19).

Concluindo

A igreja não precisa adotar estratégias embasadas em testemunhos de ex-satanistas, nem precisa seguir orientações alicerçadas em experiências de ex-macumbeiros para evangelizar territórios habitados por pessoas de corações incrédulos. Não, a igreja não precisa depender dessas técnicas, desses conceitos, desses métodos! Ela precisa depender somente do evangelho daquele que, atualmente, “se assenta nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1:20a-21).

Basta-nos o evangelho!


Fonte:
Departamento de Educação Cristã
Pr Genilson Soares da Silva

3 comentários:

  1. A noção de demônios territoriais é especulativa, é claro. No entanto, não quer dizer que eles não existam. As passagens utilizadas pelos defensores dessa noção são poucas, sim; porém, embora não provem, há alguma chance de que tais textos indiquem, sim, uma territorialidade no mundo demoníaco.

    É fato que muitos defensores (e não são todos) da noção de "espíritos territoriais" pregam, junto a isso, ingenuidades como o mapeamento dos tais territórios, orações "de guerra", ideias como a de punição a demônios que sem de seus territórios para invadir outros ocupados, etc. E que focam demais nos demônios, perdendo o foco na vida cristã e no Senhor Jesus.

    Contudo, nada disso invailda, por si, a possibilidade - apenas possibilidade - de o mundo invisível terreno ser distribuído em territórios. E a passagem de Daniel 10 aponta, sim, p...ara essa possibilidade, que se harmoniza com o que Paulo diz em Efésios 6:10-12, quando fala em "principados e potestades".

    Jesus nos deixa claro que este mundo está entregue, temporariamente, a Satanás e demais anjos caídos, a ponto de o inimigo oferecer "os reinos do mundo" ao próprio Jesus, que é o Criador de todas as coisas... Não seria absurdo, pois, que o mundo esteja dividido em territórios dominados por castas de demônios, obdecendo até a hierarquias. Por que não?

    O fato de não termos inúmeras passagens bíblicas explicando ser assim não impede que assim seja - se não, teremos que invalidar uma série de outras suposições teológicas que carecem de abudantes textos esclarecedores nas Escrituras. Tampouco o fato de muitos defensores da territorialidade demoníaca extrapolarem sua criatividade e conclusões invalida a tese.

    Prefiro manter a mente aberta, até porque alguma evidência há. No entanto, não nos deixemos tomar pelos excessos que costumam vir junto com tais ideias, acabando por contaminá-las, confundindo as pessoas.

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  2. Muito bom seu comentário Ricardo.

    O texto do artigo vem de encontro a afirmações de certos estudiosos que alegam ser uma verdade este tipo de manifestação quando a Bíblia nada fala a respeito segundo este ponto de vista. Que o mundo jaz no maligno é certo e que seus demonios estão espalhados pelo mundo também, mas o propósito deles é unico: "matar, roubar e destruir" e isso o fazem, se aproveitando do contexto e das fragilidades de cada região.

    O fato é: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca." 1 João 5:18 - Sendo assim devemos continuar firmes alicerçados na palavra e continuar pregando o evangelho. E, contra as potestades e principados, Deus nos guardará e dará sempre a vitória.

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  3. Demônios existem e não tem nada haver com o guerreiro de asas e espada que você publicou aqui.Eles não são assim.Afirmo mais que Allan Kardec está errado ao afirmar que Demônios não existem.

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