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Agenda diária sem Deus é um desastre


Entrevista de Lilian Mendes


Diretor da revista Ultimato, o pastor Elben M. Lenz César enfatiza a importância da vida devocional e fala sobre os caminhos – e descaminhos – da igreja evangélica no Brasil

Uma breve conversa ao telefone é suficiente para despertar o interesse de se conhecer pessoalmente o pastor Elben M. Lenz César: simples, afável e modesto. Aos 79 anos, casado, cinco filhas, ele é diretor-fundador da Ultimato, uma das mais importantes revistas evangélicas brasileiras, fundada há 41 anos, hoje com 35 mil leitores. Porém, números e excesso de títulos nem fazem parte da pequena biografia enviada pelo pastor Elben à nossa redação. Ele prefere ser identificado como pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa (MG) e presidente honorário do Centro Evangélico de Missões (CEM).

De sua caneta – literalmente, pois ele é avesso à tecnologia – já surgiram livros como Práticas Devocionais; História da Evangelização do Brasil; Refeições Diárias com o Sabor dos Salmos, entre outros. “É necessário que ele (Jesus) cresça, e que eu diminua” (Jo 3: 30) parece resumir a maneira como fala, escreve e vive este servo de Cristo.
Gosto muito da definição de John Stott: “Evangelização é a difusão por todo e qualquer meio das boas novas de Jesus crucificado, ressurreto e agora reinando”
Lilian Mendes - quanto o número de evangélicos no Brasil cresce, parece que a qualidade da igreja decresce. O senhor concorda com isso? Por quê?

Elben César – Tenho plena convicção de que, de alguns anos para cá, estamos sofrendo de uma febre que exalta muito mais o crescimento quantitativo do que o crescimento qualitativo. Há muitas adesões e poucas conversões, e uma coisa é bem diferente da outra.

Lilian Mendes - fato de existirem, hoje, tantas vertentes evangélicas no Brasil demonstra, em sua opinião, amadurecimento da igreja pelo pluralismo ou, pelo contrário, que a igreja evangélica está crescendo desordenadamente?

Elben César – Em alguns poucos casos, o surgimento de novas vertentes evangélicas pode ser reflexo de convicções doutrinárias e comportamentais das quais não é possível abrir mão, embora nem sempre se faça isso com amor e humildade. Mas a maior parte dos casos é reflexo do pecado, e pecado grosseiro (briga de poder, ciúme, inveja, concorrência, ressentimentos, soberba e até interesses econômicos).

Lilian Mendes - Há muitas formas para o evangelismo, em nossos dias. Mas qual deve ser o modelo, em sua opinião, para um evangelismo que produza frutos consistentes para o Reino de Deus?

Elben César – Gosto muito da definição de John Stott:
“Evangelização é a difusão por todo e qualquer meio das boas novas de Jesus crucificado, ressurreto e agora reinando”.
Gosto também do clamor que chama a atenção para o casamento da evangelização com a santificação, como o de A. G. Simonton, nos primórdios da evangelização do Brasil:
“A santidade da igreja deve ser ciosamente mantida no testemunho de cada crente”.
Lilian Mendes - Apesar do evangelho aparentemente fácil que se vê na mídia evangélica, é conveniente apresentá-lo dessa maneira? Não contrasta com o que o Cristo disse sobre o caminho estreito, sobre tomar cada um a sua cruz?

Elben César – A membresia evangélica está crescendo graças ao evangelho ralo e enganoso que muitos estão pregando. Além da porta estreita, do caminho apertado, do negar-se a si mesmo e da cruz para carregar, Jesus exige do pecador perdoado: “Agora vá e abandone sua vida de pecado” (Jo 8:11, NVI).

Lilian Mendes - Nos textos que escreve, percebe-se que o senhor é um entusiasta de Jesus Cristo. O que mais o cativa Nele? Qual a importância Dele para a igreja?

Elben César – Qualquer cristão que sabe que Jesus não é “Deus disfarçado de homem nem tampouco homem disfarçado de Deus” (John Stott), mas homem e Deus ao mesmo tempo, tem entusiasmo por Ele! Por causa de Sua plenitude, não sei o que mais me cativa nele. Talvez o autoesvaziamento de Jesus para descer até nós (Fp 2: 5-11).

Lilian Mendes - Na sociedade em que vivemos, encontra-se tempo para tudo: internet, TV, relacionamentos sociais, esportes, vida religiosa, mas vida devocional com Deus não é muito comum. Por que o homem pós-moderno tem tanta dificuldade para ler e entender a Bíblia?

Elben César – O relaxamento da vida devocional é algo verdadeiramente preocupante. Sem alimento, a alma definha. A arte de ouvir a voz de Deus por meio da leitura regular e proveitosa das Escrituras, associada com a arte de falar com Deus por meio da oração sincera e sistemática, redundam na comunhão com Deus, sem a qual não há nada de fato proveitoso. Fé, alegria, coragem, disposição, entusiasmo, piedade, pontos de apoio, segurança e outras bênçãos dependem dessa comunhão. A agenda diária que não inclui o sagrado compromisso de estar diante de Deus é um desastre. No critério de Paulo, “o exercício corporal é bom, porém o exercício espiritual é muito mais importante, é um revigorante para tudo o que você faz” (I Tm 4:8, BV).

Lilian Mendes - De que instrumentos a igreja dispõe para mudar este cenário?

Elben César – A igreja deve encorajar insistentemente as práticas devocionais e mostrar que o verdadeiro sucesso (folhas verdes e abundância de frutos no ano da sequidão) só é possível para quem está junto à fonte (Gn 49:22; Sl 1:3; Jr 17:7-8)

Lilian Mendes - Numa entrevista recente, em que o senhor estava no papel de entrevistador, mencionou que continuamos indo “atrás dos cantos de sereia”, mesmo sabendo que Jesus é fonte de água viva. O que são esses “cantos de sereia”?

Elben César – Não me lembro dessa entrevista, mas não creio ser muito difícil enumerar os cantos de sereia. A graça barata, a fé sem obras, o ser visto e elogiado pelos outros e mais algumas não poucas coisas são cantos de sereia.

Lilian Mendes - Qual sua visão bíblica sobre fé e obediência?

Elben César – A relação entre fé e obediência pode ser vista em Abraão: “Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo” (Hb 11:8). A fé propicia e facilita a obediência.

Lilian Mendes - A revista Ultimato às vezes é criticada por evangélicos, por abordar assuntos da igreja católica, até em matérias de capa. Como editor da revista, o senhor a considera ecumênica? Por que destacar matérias que envolvem os católicos?

Elben César – Não tenho aquele ódio, aquela má vontade, aquela implicância contra os católicos romanos. Entendo que a igreja protestante é mais anticatólica do que antiespírita, quando deveria ser diferente, porque o espiritismo encontra-se muito mais distante do evangelho do que o catolicismo. Por essa razão, consigo enxergar, além das coisas que realmente assustam, coisas que animam, como, por exemplo, o mais ou menos recente incentivo à leitura da Bíblia. Enviamos graciosamente milhares de exemplares da revista a bispos e paróquias católicos romanos e a padres que não mais exercem o sacerdócio por terem se casado. Nosso único propósito é exercer uma influência cristocêntrica. A maior parte dos leitores não sabe que eu passei muito aperto com os padres quando vim para Viçosa (MG), na década de 60. Na época, o catolicismo praticado por eles era acentuadamente tridentino e faziam muitas coisas próprias para impedir a presença protestante. Naqueles primórdios, eu era o único pastor evangélico residente na cidade.

Lilian Mendes - Sua visão sobre a igreja evangélica no Brasil é otimista ou pessimista? Por quê?

Elben César – Mesmo diante de tantos escândalos, tantas divisões, tantas distorções, sou otimista e não pessimista. Jesus declarou que as portas do inferno não se mostrarão mais fortes do que a sua igreja. A história ensina que a situação não é pior hoje do que foi ontem. Apenas o que está sendo construído sobre a areia vai desabar, mais cedo ou mais tarde.

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Fonte: Revista IAP em Ação – Ano II nº 2 – texto adaptado por PC@maral

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