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A Fé Que Discerne As Tentações

Bem aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação, porque depois de ter passado na prova, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam. (Tg 1:12)

Depois que introduziu o assunto sobre as provações (Tg 1:2-4) e exortou seus leitores quanto à importância da sabedoria e da oração (Tg 1:5-8), Tiago traz à baila a questão das tentações para um público acostumado a ver Deus como soberano – as doze tribos da dispersão (Tg 1:1); essa gente entendia que a tentação fazia parte da soberania divina, e que, por isso, vinha de Deus.

As tentações continuam sendo mal compreendidas por grande parte dos servos de Deus no mundo, especialmente nos tempos atuais em que o homem está acostumado ao conforto e às facilidades tecnológicas. Nessa situação, é cada vez mais raro vermos as pessoas olharem para si mesmas e se responsabilizarem por seus fracassos, diante das tentações do diabo. Uma vez que a culpa as deixa desconfortáveis, preferem transferir a responsabilidade para Deus, para o diabo, para seus semelhantes e para as circunstâncias da vida. O ensino de Tiago condena essa postura pecaminosa.

I - ENTENDENDO A MENSAGEM

Como foi destacado no inicio, nos versículos 12-15, Tiago retoma a discussão sobre provações que iniciara nos versículos 2-4 do capítulo 1. Com a intenção de concluir o assunto, logo no início da epístola, o apóstolo não teoriza sobre a origem do pecado no universo; seu objetivo é demonstrar como o pecado nasce no coração dos homens e os conduz à prática da maldade. Ele declara: “Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1:12). No primeiro trecho sobre provações (Tg 1:2-4), Tiago apresenta a “perseverança” como resultado das provações, mas, neste segundo trecho (Tg 1:12-15), o apóstolo ensina que as provações resultam em “felicidade” ou bem-aventurança. Afinal, as provações produzem perseverança ou felicidade? Douglas J. Moo afirma que o que Tiago está afirmando é que o cristão precisa praticar a “perseverança”, a fim de alcançar um caráter firme, perseverante. Assim como o atleta “suporta” a pressão do esforço físico, a fim de obter um nível mais alto de resistência física, também o cristão deve suportar as provações da vida, para que obtenha uma resistência espiritual que leve à perfeição. [1]

Em outras palavras, aquele que persevera na provação é feliz, é bem-aventurado. No grego, “bem-aventurado” é makários, que significa “feliz, bendito”. Essa palavra foi utilizada por Cristo na introdução do Sermão do Monte, em Mateus 5-7. Neste sermão, ao concluir as bem-aventuranças, Jesus declara: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5:11-12). Quem resiste à perseguição, à mentira, à maldade, é feliz, têm motivos para se regozijar e se alegrar, uma vez que, a exemplo dos profetas, seu galardão estará garantido no céu. É precisamente isto que Tiago está declarando, no v.12, ou seja, quem não se deixa vencer pelas provações da vida é bendito, é aprovado e, em seguida, recompensado com a coroa da vida.

Ao afirmar que os resistentes à tentação receberão a coroa da vida, Tiago usa a palavra grega stephanos, que pode significar “coroa real” ou “coroa de louros conferida aos atletas vitoriosos”. Essa mesma ilustração é utilizada por Paulo, em I Co 9:25, quando este se refere aos atletas que correm para alcançar uma coroa corruptível e aos cristãos para alcançarem uma coroa incorruptível. Ambos os significados são usados por Tiago para ilustrar a glória e a honra destinada aos que vencem as provas duras da vida. Nas palavras de Douglas J. Moo, “A coroa é o emblema do sucesso espiritual, dada pelo Rei do universo àqueles que ‘guardam a fé’ no meio de sofrimentos e tentações”. [2]

Sofrimentos e tentações enfrentavam os cristãos de Esmirna, quando Jesus lhes disse: “Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2:10). Os esmirnianos sofreram por amor a Cristo e foram aperfeiçoados na fé. Depois de experimentar muito sofrimento e tentação, Paulo declarou: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8:18).

Se, por um lado, Tiago nos ensina que as tentações são inevitáveis nesta vida e que, se bem utilizadas, amadurecem a fé, por outro lado, ele nos revela que essas tentações não podem ser atribuídas a Deus. O apóstolo quer que evitemos o grave erro de atribuirmos a Deus a culpa por nossas tentações; por isso, alerta: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. (Tg 1:13-15)

Douglas J. Moo lembra que, no Antigo Testamento, Deus não “tenta” seu povo, mas “testa” seu povo, como no caso de Abraão em relação ao sacrifício de seu filho; de Israel, quando cercado por inimigos pagãos, e de Ezequias, ao ter recebido liberdade divina para agir como quisesse em relação aos embaixadores da Babilônia (Gn 22:1; Jz 2:22; II Cr 32:1; II Rs 20:12-19). Segundo este teólogo, “apesar de Deus testar ou provar seus servos, a fim de fortalecer-lhes a fé, ele nunca tenta induzir ao pecado e destruir a fé.” [3]. Isso quer dizer que o Deus da Bíblia não se alegra com a queda de quem quer que seja.

O apóstolo Tiago transporta para o Novo Testamento a visão correta do Antigo Testamento, ao afirmar que Deus a ninguém tenta. Por ser absolutamente santo, Deus também não pode ser afetado pelo mal (Hb 1:3). A tentação não pode ainda vir de Deus, por uma questão muito simples: ninguém lhe resistiria, uma vez que o Senhor é Todo-Poderoso. A respeito disso, a Bíblia é objetiva, ao garantir que há resistência para a tentação (I Co 10:13). Segundo as Escrituras, o diabo é quem tenta (Mt 4:3; Lc 4:2,12; I Co 7:5; I Ts 3:5; Tg 1:13). Mas isso não significa que o maligno seja o culpado por todas as práticas pecaminosas cometidas pelos seres humanos.

Quanto a isso, Isaltino Gomes faz o seguinte alerta: Sobre os ombros do diabo têm sido colocadas muitas culpas que são nossas, pecados voluntários, erros que tiveram nossa dedicação. [4]

Por sua vez, Tiago afirma: “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz”. No grego, cobiça é epithymia que “nem sempre tem um sentido negativo (cf. Lc 22:15; Fp 1:23), mas aqui, como quase sempre no Novo Testamento, ela se refere à cobiça carnal, egoísta e ilícita. (...) Assim como os rabinos que falavam de um ‘impulso maligno’ (yeser hara) que habita em cada pessoa, Tiago parece pensar na tendência inata do homem em direção ao pecado”. [5]

O apóstolo declara que a cobiça atrai (exelko) e seduz (deleazo); o primeiro verbo tem o sentido de “arrastar pela força”, e o segundo, de “atração exercida por uma isca”. Moo garante que os dois termos eram usados em um sentido metafórico, para descrever a força atrativa do prazer ou de professores convincentes. Nesse sentido, a cobiça é como um anzol com sua isca, que, primeiramente, atrai sua presa e depois arrasta. [6]

Facilmente, percebemos tratar-se de um processo pecaminoso, caracterizado por um desejo intenso e ardente, que a pessoa acalenta, alimenta e estimula, até que se prepara com antecedência e permite o momento irresistível e fatal. É o instante em que, no dizer de Tiago, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Concluído o pecado, o pecador diz: “O diabo me tentou; por isso, pequei”. Mas Tiago responde: “Não! Cada um é tentado pela sua própria cobiça”. Com isso, o apóstolo não está descartando a ação do diabo na tentação, mas está acentuando a responsabilidade individual do ser humano pelo pecado, uma vez que, segundo o Senhor Jesus, é de dentro do coração humano que brotam as ações más (Mc 7:21 e 22).

II - APLICANDO O CONHECIMENTO EM NOSSA VIDA:

Se formos tentados, não culpemos a Deus - O apóstolo Tiago é explícito: Deus a ninguém tenta. Porém, não são poucas às vezes em que o culpamos por nossos erros, nossos insucessos, nossos fracassos, nossas derrotas, nossas quedas. Dizemos: “Por que Deus permite que eu passe por essas humilhações?” Ou então: “Deus poderia ter evitado que eu caísse nessa terrível cilada!”. Ora, guardar-nos da tentação é o que Deus sempre faz, pois é ele quem não nos deixa cair em tentação; mas livra-nos do mal (Mt 6:13); além do mais, o Senhor sabe livrar das provações os piedosos (I Pe 2:9). Então por que caímos na tentação? Porque queremos! É tempo de mudarmos de postura, de amadurecermos espiritualmente e compreendermos que Deus não contribui para a queda de nenhum ser humano. Do Senhor, só vem bondade (Tg 1:16-18). Quando passamos por adversidades, o que Deus faz é provar a nossa fé (Dt 8:1-2, 13:3; Sl 11:5; II Ts 1:4-5; I Pe 4:12). Quanto aos desobedientes, ele os castiga com justiça (Os 6:5; Mt 25:46; II Ts 2:12; II Pe 2:9; Ap 16:4-7).

Portanto, quando tentados, não culpemos a Deus, nem estranhemos a ardente prova que vem sobre nós, para nos tentar, como se coisa estranha nos acontecesse (I Pe 4:12). Ao ser tentado, amado irmão, mantenha-se fiel a Jesus e lembre-se do que a Bíblia diz: ... alegrai-vos no fato de serdes participante das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis (I Pe 4:13).

Se formos vencidos na tentação, assumamos a responsabilidade - Além de culparmos a Deus por nossas tentações, costumamos jogar a culpa no diabo; culpamos também nossos pais, nossa família, nossa igreja, nossos pastores; culpamos ainda nossa situação social, nossa pobreza, nossos traumas, nossos políticos; raramente assumimos a responsabilidade pelas maldades que praticamos; por isso, substituímos a “responsabilidade pessoal” pela “culpa hereditária”. A palavra de Deus, porém, não nos dá nenhum respaldo quanto à transferência de responsabilidade, pois cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando está o atrai e seduz. (Tg 1:14 – cf. Ez 18) Quantas vezes nós mesmos criamos situações para pecarmos? Damos brechas ao mal e depois dizemos: “O diabo me tentou e eu caí”. É claro que o diabo tenta, mas nós pensamos, sentimos, queremos, decidimos, agimos, enfim, a força determinante saiu de nós, de nossa mente, de nossa vontade, de nosso coração (Mc 7:21-22).

Segundo Richards, não são as coisas exteriores em si que nos tentam, mas a nossa reação a elas. Um alcoólatra talvez seja tentado, de forma irresistível, pelos odores de uma cervejaria, enquanto outra pessoa pode sentir repulsa por eles. O odor é o mesmo para os dois. A diferença está na reação ao odor. Os doces são uma tentação terrível para quem está tentando fazer uma dieta, mas para quem não gosta de doces, estes não têm atrativo algum. [7] Portanto, somos responsáveis pelos nossos atos de maldade e temos de assumir isso.

Se a tentação for muito forte, lembremos que há livramento - Nesta vida, é impossível, ao cristão, ver-se livre das tentações (Mt 4:1; Lc 4:2, 22:28; At 20:19; Hb 2:18, 11:37; I Pe 4:12; Ap 2:10). Quantos servos de Deus têm sucumbindo ao sabor das tentações? É verdade que não são todos, mas são muitos os que vencem a tentação. Asafe confessou que quase escorregou (Sl 73:2); Salomão declarou que quase se viu envolvido em todo o mal (Pv 5:14); Davi confessou que quase foi vencido pelos inimigos (Sl 124); Paulo declarou que seu companheiro, Epafrodito, quase morreu e confessou que ele próprio quase foi destruído por Alexandre (Fp 2:27; II Tm 4:14,17). Não bastasse isso, Paulo conviveu, até a morte, com um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás (II Co 12:7). Até mesmo nosso Salvador, em tudo, foi tentado, mas não pecou (Hb 4:15).

Tudo isso nos ensina que, por mais forte que seja a tentação, se quisermos, nós podemos vencê-la pelo poder de Jesus Cristo. Nosso Deus é poderoso o suficiente para quebrar todo e qualquer laço do diabo (Sl 124: 7). É-nos dada esta promessa: Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (I Co 10:13). Mas, temos a responsabilidade pessoal de não contribuirmos para que a tentação se torne irresistível. Tiago nos chama à responsabilidade pessoal: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4:7). Convém, portanto, que cada um de nós, tenha bom testemunho dos irmãos de dentro da igreja e dos que estão de fora, para que não caiamos em afronta e no laço do diabo (I Tm 3:7).

CONCLUSÃO

Para que pratiquemos uma fé genuinamente bíblica, capaz de vencer as tentações, é necessário que não culpemos a Deus, quando tentados, uma vez que o diabo é quem tenta. É também necessário assumirmos a responsabilidade por nossas atitudes pecaminosas. Não menos importante é lutarmos para sempre escaparmos da tentação, através da ajuda infalível de nosso poderoso Deus e de nossa disposição em resistir ao diabo. Antes de todas essas providências, porém, Tiago nos ensina sobre a necessidade de termos a sabedoria divina, sem a qual não poderemos vencer as tentações; por isso, ele admoesta: Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida (Tg 1:5).


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Referências bibliográficas:


[1] MOO J. Douglas. Tiago – Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.70.

[2] Idem.

[3] MOO J. Douglas. Tiago – Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.71.

[4] FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Tiago – Nosso Contemporâneo. Rio de janeiro: Juerp, 1990, p. 43.

[5] MOO J. Douglas, Tiago – Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.73.

[6] Idem.

[7] RICHARDS, Lawrence. Comentário Bíblico do Professor. São Paulo: Vida, 2204, p. 1189.



Fonte: Autor: Pr. José Lima de Farias Filho - Estudo sobre a fé baseado na epístola de Tiago - Reproduzido e divulgado no PCamaral



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