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Do Exílio à Libertação


O salmista, em seu período no exílio, fez a seguinte declaração: “Como poderíamos cantar as canções do Senhor numa terra estranha?” (Sl 137.4) Esta é a mesma pergunta que fazemos hoje diante do clima de confusão em que vivemos. A sensação é de exílio. As grandes mudanças que a civilização tem experimentado nas últimas décadas, a exclusão dos valores e convicções religiosos da vida pública e a crise ética e moral que vivemos em toda a nação, nos fazem sentir como se habitássemos numa terra estranha.

Como se isso não bastasse, muitos cristãos sentem-se exilados em suas próprias igrejas. Algumas músicas soam estranhas; suas letras não apontam para o espírito cristão da adoração e comunhão, mas para um espírito individualista, narcisista, com o qual não nos identificamos. Ouve-se muito pouco o “nós” ou o “nosso”, e demasiadamente o “eu”, “meu” e “para mim”. Os pacotes funcionais e os modelos de crescimento parecem não se importar muito com as pessoas, com a sua singularidade e seu amadurecimento espiritual e emocional, mas com a capacidade produtiva, com o engajamento no sistema, com o “vestir a camisa” ou “comprar a visão”. Sentimo-nos num exílio religioso.

Sentimo-nos também exilados dentro da própria cultura. O processo de secularização vem transformando rapidamente toda a atmosfera cultural. O espírito individualista tomou o lugar do espírito altruísta. Não existem maiores causas pelas quais vale a pena lutar, não há mais disposição para o sacrifício nem para a renúncia. A família vem sendo desconstruída e dando lugar a novos modelos de relacionamentos que pouco ou nada lembram o que significa um lar. O amor paciente, generoso, que tudo sofre e tudo perdoa, vem desaparecendo, e no seu lugar surge uma nova paixão, do tamanho do prazer de cada um.

Como então cantaremos as canções do Senhor numa terra assim? Um outro exilado nos ajuda a responder a esta pergunta. O apóstolo João, em sua visão no exílio na ilha de Patmos, vê duas cidades: Babilônia e a Nova Jerusalém. Babilônia representa uma cidade como aquela em que vivemos; poderia ser São Paulo, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer outra cidade, com sua política, economia e estrutura social, o lugar onde constituímos nossas famílias, educamos nossos filhos e servimos a Deus. Contudo, Babilônia é também representada como uma grande prostituta, aquela que em troca de dinheiro, promete prazer e felicidade. Ela é atraente, sedutora; mas, uma vez que se é atraído para sua cama, tem-se de pagar pelo prazer.

Já a Nova Jerusalém é representada por uma comunidade de adoradores, de homens e mulheres que rejeitaram a oferta da prostituta e reconheceram que a fonte verdadeira e eterna de alegria e prazer está em Deus. Eugene Peterson, falando sobre a Nova Jerusalém, comenta o seguinte:
“Nossa imagem do céu tem sido mais semelhante a um jardim, a um lugar bucólico, longe do barulho e agitação da cidade [...]. No entanto, a cidade é um lugar barulhento, onde o pecado e a arrogância crescem [...]. O céu deveria ser um lugar longe da cidade. No entanto, na visão de João, o céu é a invasão da cidade pela Cidade. Entramos para o céu não fugindo do que não gostamos, mas santificando o lugar onde Deus nos colocou para habitar.”
Esta Cidade que se encontra dentro da cidade é o lugar onde cantamos as canções do Senhor. A espiritualidade cristã traz sempre um desafio urbano. De certa forma, somos exilados, vivemos numa terra estranha que rejeita Deus, sua Palavra, seus caminhos, seu chamado, sua ética e sua moral. Orar e cantar numa terra assim nunca foi uma experiência fácil. Mas Deus, por meio do seu Filho, resolveu fazer sua casa entre nós, neste mundo em que vivemos, de forma que sua presença é a garantia da Cidade no meio da cidade, onde permaneceremos como uma comunidade de adoradores que rejeitam o convite da prostituta na esperança de que a justiça volte a reinar.

Autor: Ricardo Barbosa de Sousa pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.

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Fonte: Editora Ultimato - Colunas — O caminho do coração compartilhado no PC@maral

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