Header Ads

No princípio era a graça

Cercada por críticas de dentro e de fora, Igreja Evangélica precisa redescobrir o valor do favor divino.


Por Mark Galli

Há dois anos, recebi um e-mail que dizia: “Um novo sabor de igreja está na cidade! Se você prefere uma comunidade cristã com uma mistura mais tradicional, ou com um sabor mais forte e contemporâneo, na igreja tal temos o estilo perfeito para você! Atmosfera casual, mensagens relevantes, boa música, programas infantis dinâmicos e, sim, você pode escolher seu próprio sabor!” Os tais “sabores” foram descritos na medida certa para atrair pessoas avessas à pregação evangélica tradicional, oferecendo um ambiente familiar, boas instalações e eventos muito bem elaborados. Quem poderia resistir?

Pode soar ridículo, mas é preciso cautela na análise. Em primeiro lugar, não se deve desmerecer o desejo de alcançar os não cristãos, seja por qual meio for. O próprio apóstolo Paulo disse que fez-se de tudo um pouco, para ganhar alguns para Cristo. Além disso, é preciso admitir que todo evangélico pelo menos alguma vez já sucumbiu à pressão cultural. Contudo, nos dias de hoje, usamos várias maneiras para manter a mensagem do Evangelho, digamos, adocicada. Tendemos a torná-la mais convidativa para o máximo de pessoas possível. Os resultados têm sido diversos. Quem nunca conheceu um novo convertido que veio à fé em Jesus Cristo, miraculosamente, através dos meios mais superficiais? Assim, devemos ser sempre gratos pela misericórdia de Deus em nossas tentativas tolas de contextualização.

Isso, todavia, não nos isenta da difícil tarefa de autocrítica. Acontece que, nas duas últimas décadas, nossa autocrítica tem se tornado praticamente um vício. Mas ensaiar algumas das mais devastadoras objeções ao movimento evangélico vale a pena, seja para lembrar da maravilhosa misericórdia de Deus ou para contextualizar nossos esforços em várias reformas. Alguns usam definições mais restritas, que incluem um conjunto complexo de crenças e comportamentos específicos – e, assim, definem o crente como alguém superior ao mortal comum. Outros preferem o emprego de definições mais amplas, nas quais o evangélico parece não passar do estereótipo de uma pessoa boa e religiosa. Por estas definições, os crentes em Jesus saem-se muito mal quando comparados com o resto do mundo.

Mais coerente seria adotar uma definição mais flexível e abrangente. Poderíamos até nos sentir melhor conosco mesmos se restringíssemos o termo “evangélico” apenas aos mais comprometidos com a fé – o que eliminaria o problema do nominalismo de uma vez por todas. Porém, converse com qualquer pastor de qualquer igreja evangélica, e ele lhe dirá a definição ampla mais usada atualmente: embora as pessoas se considerem a si mesmas como “crentes”, ou "nascidas de novo", ou “salvas”, mas têm crenças e comportamentos que estão, exceto para os poucos comprometidos, muito longe dos ideais do Novo Testamento. E se cada um dos pastores, professores, missionários e líderes eclesiásticos resolverem ser totalmente honestos, admitirão que, muitas vezes, o inimigo que a Igreja tem encontrado está dentro dela própria.

Na verdade, as críticas não surgem apenas de dentro do segmento. O movimento evangélico está sob controle rigoroso dos sociólogos da religião – e seus estudos confirmam as piores suspeitas. Pesquisa da alma, pesquisa de Christian Smith e Melinda Lundquist Denton publicada em 2005, foi realizada mediante extensas entrevistas com 267 adolescentes americanos. Uma das conclusões é de que a fé cristã tem tido novíssimas abordagens, como a de que Deus, que vigia e governa tanto o mundo como a vida humana, quer que as pessoas sejam boas, agradáveis e justas umas com as outras, como é ensinado na Bíblia e pela maioria das religiões mundiais. Quem fizer assim, vai para o céu após a morte. Por outro lado, essa corrente é extremamente hedonista. Diz-se que o objetivo central da vida é ser feliz e se sentir bem sobre si mesmo, e que Deus não precisa estar particularmente envolvido na vida das pessoas, exceto quando sua presença é necessária para solucionar um problema.

A conclusão é de que a fé ensinada pelos pais daqueles jovens forma apenas crentes superficiais, quando comparados com a verdadeira tradição histórica cristã; porém, tal cristianismo tem cada vez mais se transformado em uma prima bastarda, a terapia deísta com moralismo cristão. Tal análise ressoa profundamente para a Igreja Evangélica norte-americana e seus líderes eclesiásticos. Enquanto Smith e Denton procuravam descobrir o estado da fé na adolescência, acabaram desvendando segmentos maiores da fé evangélica.

Individualismo e consumismo – As preocupações com o estado espiritual dos evangélicos não são novas. A segunda geração de puritanos norte-americanos presenciou uma “decadência” no fervor religioso e começou a adotar estratégias para travá-la. Uma dessas ações foi a lamentação, um sermão que expunha os pecados do povo e o juízo de Deus, chamando todos ao arrependimento. Quando essa estratégia falhou, eles reuniram os líderes da Igreja para o Sínodo de Reforma de 1679, que produziu um documento intitulado A necessidade de reforma. Ele dizia que “Deus tinha uma discórdia com seu povo da Nova Inglaterra”. O Grande Despertamento consistiu em respostas divinas para estas alegações iniciais. Assim como as cruzadas evangelísticas de George Whitefield e, mais tarde, de pregadores como Dwight L.Moody, Billy Sunday e Billy Graham foram feitas para os incrédulos, muitos cristãos foram aos seus eventos para reavivar a própria fé. Este ritmo de declínio, seguido por avivamento, tem sido uma característica regular da prática evangélica nos EUA – só que, à medida que o século 21 avança, mais fica evidente a parte descendente do ciclo.

Uma das razões para esse ritmo é a cultura distinta da América. Após sua visita ao continente, em 1831, Alexis de Tocqueville descreveu em termos contemporâneos dois aspectos da vida norte-americana e as tensões religiosas que produziram. Apesar de elogiar a ênfase norte-americana sobre a liberdade e a igualdade, ele identificou algumas tendências que considerou “muito perigosas”. Uma delas era concentrar a atenção de cada homem sobre si mesmo, abrindo, nas suas palavras, “a alma a um amor desmedido pela gratificação material”. Tocqueville previu o individualismo e o consumismo que contaminariam o cristianismo americano, mas teve uma confiança indevida na capacidade de os crentes resistirem a essas tentações.

Ainda existem outros aspectos problemáticos do nominalismo evangélico: eclesiologia pobre, falta de atenção à doutrina, racismo, indiferença à injustiça e assim por diante. Devido a tantas dimensões, um excesso de movimentos surgiu para definir as diferentes visões da questão central. Alguns desses movimentos focam na falta de moralidade pessoal, e assim grupos de responsabilização ou disciplinas espirituais são apontados como a chave para renovação. Outros atacam o individualismo e esforçam-se para tornar a vida da Igreja mais significativa, partindo da noção de “igreja doméstica” para a “igreja simples”, para a “igreja profunda”, a “igreja missionária” e para a “igreja orgânica” e por aí vai.

Alguns estão mais preocupados com a falta de fervor espiritual, e colocam a sua esperança no Espírito Santo como o perito em dons carismáticos. Alguns acreditam que não estamos pensando direito, e experimentam novas formas de enquadramento da fé, da teologia pós-moderna para a nova perspectiva, para o neocalvinismo e para uma teologia do Reino. Alguns dizem que os evangélicos estão prisioneiros da cultura branca e, por isso, defendem o multiculturalismo. Há até aqueles que simplesmente defendem a volta ao básico, ou seja, seguir Jesus.

 Reinvenção – Um desenvolvimento promissor no evangelismo contemporâneo tem sido uma reinvenção da formação espiritual apregoado por escritores como Richard Foster e Dallas Willard, com ênfase em práticas que disciplinam a mente e o corpo, com objetivo de abrir mentes e corações à obra transformadora do Espírito Santo. A renovação do interesse social também tem sido uma correção essencial para a existência da Igreja Evangélica. Esse despertamento que leva em direção ao próximo – cumprindo o apelo de Jesus, tão bem expresso no “tive fome, e me destes de comer” – tem transformado muitos cristãos e igrejas, que passaram de uma espiritualidade egoísta para uma fé caracterizada pela justiça e misericórdia.

Essa nova ênfase na teologia do Reino – uma visão escatológica que conduzirá nossas preocupações de justiça social – é um útil corretivo vertical. Mesmo assim, ainda existe otimismo nesta correção, que sugere que tudo ficará bem se as pessoas simplesmente passarem a pensar corretamente. Assim, a teimosia da vontade humana não passaria de um pequeno problema. Mas, na verdade, é uma fraqueza da humanidade decaída, do desejo profundo que deu errado. Os líderes mais maduros do movimento de justiça social sabem muito bem desta realidade. Eles assistiram a muitos ativistas caírem porque não conheciam a dimensão vertical da justiça social. Entretanto, a linguagem que usamos para descrever nossos objetivos e persuadir os outros pode facilmente degenerar. A transformação de muitas igrejas liberais em agências de serviço social com um verniz religioso é um resultado da fixação na horizontal.

As múltiplas soluções sugerem uma confusão de línguas. Alguns dizem que isso sinaliza a fragmentação irreversível de evangelismo. Não existe mais um centro evangélico, e, se existir, ele não pode durar. Muitos temem já não ter muito em comum, poder muito bem seguir caminhos separados. Não somente não ouvimos mais uns aos outros, como também, quando o fazemos, não somos capazes de nos compreendermos. No entanto, mesmo neste momento crucial da história do movimento evangélico, ouvidos minimamente atentos à voz de Deus há de ouvi-lo dizer: “Não temam, porque eu estou com vocês”. A maneira como o Senhor está tornando sua presença conhecida ilumina não apenas a esperança de que o movimento sobreviverá – o que, em uma visão mais ampla, não importa para aquele para quem as nações são apenas uma gota no oceano –, mas, ainda mais importante, na renovação do povo de Deus pela fé e pela obediência.

É fácil apontar o dedo para os outros, acusando as disfunções do segmento cristão – às vezes, pretensamente espiritual; ou muito politizado, muito institucionalizado etc. Mas é cada vez mais difícil encontrar um líder honesto o bastante para identificar-se com os homens descritos em Gênesis 11, que fizeram tijolos e os queimaram bem, tentando construir uma torre de justiça, visando a nada menos que “poder tocar o cume dos céus” (Gênesis 11.4). Assim, seria mesmo surpreendente notar que estamos vivendo no meio de uma Babel, com cada vez mais dificuldade de ouvir e entender um ao outro? Essa cacofonia é nada menos que o juízo de Deus contra cada vertente dentro do movimento evangélico, e cada indivíduo nele. É um julgamento contra nossa criação de um ídolo horizontal, contra a leviandade da nossa fé em Deus.

Atos de amor – O julgamento do Senhor está onde sua misericórdia também habita, e onde nossa esperança se manifesta. Estamos juntos diante de Deus em ambos: julgamento e graça. Portanto, a confusão de línguas de Babel pode muito bem transformar-se no milagre das línguas do Pentecostes – uma maravilhosa manifestação na qual é possível a cada um ouvir ao outro claramente, sem enxergar estrangeiros, e sim uma variedade de carismas, talentos e dons do Espírito Santo. Um espaço onde a incessante e irritante intimidação, o fazer e o esforçar-se por si próprio, podem ser transformados em atos de amor motivados pela inexprimível gratidão. É assim que nossa dispersão pode se transformar no cumprimento da missão de Deus no mundo. É onde a horizontal pode se tornar não uma negação da vertical, mas a expressão dela. Onde estamos, em suma, é o Gólgota, na sombra da cruz, um sinal do julgamento de Deus em nossas pretensões e do perdão do Senhor sobre nossos pecados.

A palavra da cruz nos convida a nos medirmos não de encontro “ao resto do mundo”, mas de encontro à justiça de Deus. Somos chamados não ao esforço por fazer, mas a reconhecer o quanto nosso esforço não passa de uma tentativa vã de autojustificação ou, pior ainda, de fazer o bem somente a nós mesmos. Somos chamados a reconhecer que o problema com o evangelismo não é a religiosidade da formação espiritual das pessoas, nem a justiça social dos grupos de ativismo, e muito menos a eclesiologia deste ou daquele segmento. Não, a palavra da cruz nos diz que o problema com o evangelismo, para aludir a G.K. Chesterton, “sou eu”. Ao mesmo tempo, é chamada de loucura porque assume que a visão vertical, comprometida pela horizontal, é dedicada às próprias pessoas cujos hábitos negam a presença e a força da graça. A elas é dada a graça que torna todas as coisas novas. Então, se tornarão novas criaturas, abençoadas com uma vida vertical e com energia e graça para realizar as obras horizontais a que somos chamados e dotados para fazer.

Palavra que transforma

Bastante minimizada nestes tempos de comunicação de massa, a pregação da Palavra é tida pela maioria dos teólogos como disciplina prioritária para a formação espiritual. A pregação – particularmente a pregação expositiva, que visa a transmitir o significado da verdade bíblica – resgata o ouvinte de seus enganos e da cegueira espiritual, levando os ouvintes à obediência coletiva, e não apenas individual. Portanto, é uma disciplina coletiva única, que a igreja faz em conjunto com a comunidade, construindo os indivíduos e a comunidade ao mesmo tempo.

A boa pregação contribui para a humildade espiritual, disciplinando o crente a estar sob o ensinamento, correção e exortação de outras pessoas. Este ponto, a propósito, atinge diretamente o coração do individualismo. Por outro lado a mensagem bíblica dá lugar para que uma pessoa espiritualmente qualificada possa proteger os fiéis do perigo do erro. Usando a metáfora bíblica, os cristãos são as ovelhas; os falsos mestres são lobos; e os pregadores são pastores da guarda. O pregador é uma pessoa chamada e dotada por Deus com autoridade espiritual para o cuidado das almas no contexto da Igreja de Deus.

Ouvir uma pregação não envolve limites altos ou restrições de público. Enquanto muitas disciplinas espirituais soam como exercícios para uma elite espiritual, jovens e velhos, incultos e letrados, ricos e pobres, todos podem ouvir um sermão sem problemas.

Existe uma razão para que a pregação seja uma constante na vida da igreja. Ao dizer a seus discípulos coisas como “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim” (Lucas 10.16), Cristo prometeu estar presente na sua pregação. Se quisermos garantir que nossas vidas e ministérios estejam fundamentados na graça de Deus, não existe modo melhor para começar do que escutando humildemente a Palavra pregada.
***

Fonte: Cristianismo Hoje

Nenhum comentário:

Todos os comentários serão moderados. Comentários com conteúdo fora do assunto ou do contexto, não serão publicado, assim como comentários ofensivos ao autor.

Tecnologia do Blogger.