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Minha fé: sofrendo até contemplar um novo amanhã

Rob Bell

Uma sexta-feira à noite, durante meu último ano de faculdade eu tive uma dor de cabeça horrível. Tomei algumas aspirinas, deitei no sofá, e esperei que ela fosse embora. Mas não foi; apenas piorou. Por volta da meia-noite eu agonizava e lá pelas 3 da manhã estava imaginando se iria morrer. Na manhã do dia seguinte, meu colega de quarto me levou ao hospital onde fui diagnosticado com uma meningite viral. Um neurologista explicou que o fluído que envolve meu cérebro fora infectado e o estava “espremendo” contra as paredes do meu crânio. Era isso o que causava aquela dor. O médico informou que eu ficaria várias semanas de cama em recuperação. Mas isso não se encaixava em meus planos.

Naquele tempo eu tocava em uma banda. Estávamos fazendo shows na região de Chicago havia algum tempo e tínhamos reservado datas nos maiores clubes na cidade – tudo programado para as semanas seguintes. Tivemos de cancelar todas as apresentações. Quando a realidade me atingiu, deitado numa cama de hospital a quilômetros de distância de minha casa e com uma infecção no cérebro, lembro perfeitamente de ter perguntado a mim mesmo: “E agora?”. Eu estava devastado. Aquilo não deveria estar acontecendo comigo. A banda era minha vida, meu futuro, meu único objetivo. Nós tínhamos cancelado nossos maiores shows até então.

Depois de alguns dias acabei me recuperando e voltei à faculdade, mas as coisas já não estavam iguais. Seja qual for a motivação que nos movia como banda, não estava mais tão forte como antes. Chegamos à conclusão em conjunto que tinha sido ótimo enquanto durou, mas era hora de a banda terminar. Acho que jamais tinha me sentido tão perdido. Não tinha idéia do que faria com minha vida. Eu tinha toda essa energia e paixão e queria desesperadamente me doar para algo importante, mas não tinha nenhum plano.

Eu andava por todo o campus da universidade numa espécie de transe, balbuciando o mesmo mantra sem parar, que acabou tomando a forma de “e agora?”. Sabe aquele sentimento quando estamos jogando futebol e corremos até a bola, mas não somos rápido o suficiente e o jogador do outro time já a chutou com toda a força? Aí a bola viaja com uma velocidade enorme e nos atinge na altura da virilha e capotamos, sem ar, gritando de maneira estridente… Era como se experimentasse uma versão existencial disso. Novamente as coisas tomaram um rumo estranho, mas bonito.

Nos dias e semanas depois que decidimos pelo final da banda, pessoas que mal conhecia me paravam, do nada, e diziam coisas como: “Você já pensou em ser pastor?”. Amigos com quem não falava havia meses entravam em contato e diziam: “Por alguma razão, acho que você será pastor”. Eu, um pastor? Sério? A ideia começou a tomar conta de mim e não foi embora. Um chamado brotou dentro de mim, uma direção, algo em que poderia me doar.

Conto essa história sobre o que aconteceu comigo 19 anos atrás porque suponho que você é como eu – realmente bom para fazer planos, traçar, esquematizar e elaborar só para que sua vida aconteça do modo como “supostamente” deveria. Somos mestres nisso. Sabemos exatamente como as coisas devem acabar. Então nós sofremos. Há uma ruptura, seja morte, doença, desemprego, mágoa, traição ou falência. O amanhã que esperamos desaparece. E descobrimos que não temos outros planos.

O sofrimento é traumático e horrível. Ficamos desesperados e erguemos os punhos aos céus, descarregamos a raiva, ficamos com raiva de novo e choramos. No entanto, durante o processo descobrimos um novo amanhã, algo que nunca teríamos imaginado se não fosse pelos dolorosos imprevistos da vida.

Convivi com inúmeras pessoas ao longo dos anos. Percebi que, quando alguém pede para elas identificarem momentos-chave, viradas e marcos em suas trajetórias, normalmente falam sobre dificuldades terríveis e coisas dolorosas. Em geral, dizem algo como “nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer comigo”.

Imaginando é uma palavra importante aqui. Sofrimento, ao que parece, requer imaginação profunda. Um novo futuro tem que ser evocado, pois o velho futuro não existe mais.

Agora sei que o que aconteceu comigo – o fluído em torno de meu cérebro que o espremia contra as paredes do meu crânio – não é nada comparado com a dor e a tragédia que muitas pessoas vivenciam todos os dias. Mas essa experiência alterou minha vida permanentemente. Nada mais continuou sendo igual. Meus planos desmoronaram. Isso me abriu para um futuro completamente novo.

Essas sementes ocultas da criatividade sendo plantadas em meio ao sofrimento nos levam para o cerne da fé cristã. Somos convidados a confiar nos momentos em que estamos mais inclinados ao desespero, quando tudo parece perdido e não conseguimos imaginar uma saída. É justamente nesses períodos que algo novo pode estar nascendo.

Jesus ficou pendurado nu e ensanguentado em uma cruz. Sozinho e abandonado por seus discípulos. Desprezado pela multidão. Mesmo assim, continuou firme, confiante e persistente, sabendo que Deus estava presente em Sua agonia, trazendo um mundo totalmente novo em meio àquilo tudo.

Isto é um mistério, algo que devemos ser sábios em refletir por causa das inúmeros problemas que sofremos a toda hora. Nesses momentos, Deus está sofrendo, derramando lágrimas, sentindo aquela dor e agitação conosco. Também no convida a confiar que algo bom pode surgir até mesmo em meio às crises.

Mantenha seus olhos e coração abertos. Seja rápido para ouvir e lento em fazer julgamentos precipitados sobre como “tudo vai acabar”. Você nunca sabe quando pode se descobrir a quilômetros de distância de sua casa, deitado em uma cama de hospital com um péssimo prognóstico de cérebro espremido, todos seus planos se desfazendo e se perguntando como tudo deu errado, para só então descobrir que uma vida completamente nova está apenas começando.

Rob Bell é o pastor fundador da igreja Mars Hill e autor de vários livros.

Fonte:
PavaBlog

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