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Sofrimento e Mudança



Os cinco primeiros e os oito últimos versículos do livro de Jó estão recheados de bênçãos. Todos queriam estar na pele de Jó, podendo viver os fatos narrados nesses textos; afinal, tudo vai muito bem. Mas, não podemos esquecer que, entre eles, existem 42 capítulos, que registram muito sofrimento, muita espera, muita conversa muita acusação. Temos o capítulo 3, por exemplo, conhecido como “o capítulo do desabafo”. Assim como também temos o 28, “o capítulo da sabedoria”. E, só no fim, temos o capítulo 42, que pode, sem dúvida, ser chamado de “o capítulo das mudanças”. Muitas mudanças são registradas ali: a visão, os amigos, a família, os bens; enfim, muita coisa muda para Jó.

"Estou envergonhado de tudo o que disse e me arrependo, sentado aqui no chão, num monte de cinzas." (Jó 42:5 – NTLH)

Quando Jó ainda estava falido, sentado no “lixão” da cidade de Uz, disse: Mas ele sabe o caminho por onde ando; se me colocasse à prova, sairia como ouro (Jó 23:10). Uma tradução mais literal do hebraico para a primeira parte deste versículo seria: “Mas ele (Deus) sabe o seu  caminho comigo”. A ideia é que Jó tinha a certeza de que Deus sabia o que estava fazendo com ele [1]. Ele sabia que estava passando por um teste, mas que no final “sairia como ouro”. O patriarca tinha a certeza de que as provas de Deus o aperfeiçoariam. Jó não negava a provação, mas tinha esperança além dela. Entendia que, depois dela, seria um homem melhor. E é justamente dessas mudanças que trata o último capítulo do livro de Jó.


1. Agora os meus olhos te veem: 

A primeira mudança descrita no capítulo 42 está ligada ao relacionamento de Jó com Deus. O sofrimento fez com que ele se aproximasse, de fato, do Senhor. É interessante notarmos as palavras “antes” e “agora”, do versículo 5. Leia o versículo e observe a mudança que aconteceu na vida de Jó, testemunhada por ele mesmo: Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com meus próprios olhos (NTLH). Percebeu o que o fogo da provação fez com o patriarca? O sofrimento o tornou um homem mais maduro, deixando-o mais consciente da presença de Deus.

Que dádiva preciosa! Jó reconheceu que “antes” de todo o sofrimento pelo qual estava sendo submetido, seu conhecimento de Deus era intelectual, limitado, baseado no que ouvia falar. Mas “agora”, isto é, por causa de sua situação presente de sofrimento, ele foi confrontado pelo próprio Deus, ouviu-o, experimentou-o, e conheceu o Senhor de verdade (BV). Agora, Jó conhecia a Deus por experiência própria. Se essa fosse à única mudança ocorrida na vida de Jó, já valeria à pena ter passado tudo o que passou. Como ele chegou a essa fantástica experiência? Através da confrontação. Diante das 77 perguntas que Deus lhe fez para mostrar-lhe a sua soberania, Jó reconheceu: Estou envergonhado de tudo o que disse e me arrependo, sentado aqui no chão, num monte de cinzas (Jó 42:5 - NTLH). No versículo 6 ele diz que se “abomina” e se “arrepende”.

A palavra abomina significa derreter, dissolver, definhar [2]. Jó estava envergonhado, diante de todos os questionamentos de Deus (Jó 38:1-39:30, 40:6-41-34). Ainda fragilizado, reconhece a absoluta soberania do Senhor (Jó 42:2). Ao entender quem é Deus, Jó reconhece o quão insignificante é. Isso o fez conhecer Deus de verdade. Mas o texto também diz que ele se “arrependeu”. Do que Jó se arrependeu? Dos pecados pelos quais foi acusado? Não! De reivindicar para si uma integridade que ele não possuía? Não! Ele se arrependeu de ter ido longe demais em algumas de suas especulações sobre Deus. “Seu pecado não foi ter feito perguntas. Foi acreditar que possuía as respostas” [3]. Diante das perguntas do Senhor, Jó viu que não sabia de nada. Por isso, arrependeu-se e decidiu confiar somente no Senhor. Assim, ele conseguiu avançar em seu relacionamento com Deus. E mudou para melhor.


2. Pedido de perdão: 

Os que também foram exortados a mudar de atitude no último capítulo do livro de Jó são os seus amigos. Depois de passarem quase todo o livro acusando o amigo de ter cometido pecado e de estar pagando pelo que fizera, foram severamente repreendidos por Deus. No versículo 7, ele diz: ... pois não falaste verdade a meu respeito.

No versículo 8, a Bíblia Viva traduz assim a frase do Senhor para eles: ... vocês não me apresentaram a Jó tal como eu sou. Sem dúvida, os amigos de Jó erraram; também precisavam rever suas atitudes. E fizeram isso. Deus ordenou-lhes: Tomai, pois, sete novilhos e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocausto por vós. O meu servo orará por vós (v. 8). O plano de restauração dos amigos incluía oferecer animais em holocaustos. Nos dias de Jó, a lei com relação a esse tipo de sacrifício ainda não havia sido instituída, mas Deus já usou o que mais tarde seria regra para receber o perdão dos pecados. Eles foram até Jó oferecer sacrifício e pedir para que o patriarca intercedesse por eles: ... fizeram como o Senhor lhes ordenara (v. 9).

É interessante como essa atitude é diferente das do restante do livro. Não vemos mais acusações infundadas. Eles não estão mais com os dedos em riste em direção a Jó. Ao contrário: vão até ele, numa atitude humilde, para se desculparem pelo que haviam dito. Veja que contradição! No decurso dos seus discursos, eles não haviam dado o mínimo indício de que poderiam ser objetos da ira de Deus e necessitavam da sua graça. Todavia, agora descobrem – é uma ironia encantadora – que, a não ser que pudessem obter a intercessão de Jó como apoio – o próprio Jó a quem haviam tratado como tão necessitado –, talvez não escapassem do desagrado divino [4]. Dos quatro amigos, só Eliú não foi mencionado. Temos de concordar que ele acertou mais do que errou. Mas, mesmo assim, seu discurso precisava de alguns ajustes e seu orgulho precisava desaparecer. Talvez o Senhor o tenha tratado em outra ocasião, não registrada no livro.


3. O soberano em cena de novo: 

A sentença que revela a mudança do quadro da vida de Jó se encontra no versículo 10, do capítulo 42: E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos. Depois de 42 capítulos de muito sofrimento, a expressão “o Senhor virou o cativeiro de Jó” dá o tom dos últimos sete versículos. No original hebraico, temos, literalmente, “... e o Senhor cativou o cativeiro de Jó”.

Enquanto Jó orava por seus amigos, ainda em frangalhos, sem família, sem bens, sem saúde, mas com sua fé renovada, o soberano entra em cena de novo, e decide mudar complemente o quadro da vida do homem de Uz. A atitude do patriarca de interceder por aqueles que o criticaram foi bastante nobre. Orar por aqueles que o acusaram? Orar por aqueles que fizeram com que suas feridas doessem um pouco mais? É interessante observar que o texto diz que a restauração de Jó está ligada a esse gesto de intercessão em favor dos seus amigos (vv. 9-10) e não ao seu arrependimento (v. 6). Conforme bem sabemos, o patriarca não estava sofrendo por causa de algum pecado cometido. Por isso, o fato de Deus abençoar Jó, com o dobro de tudo o que dantes possuía, não aconteceu em decorrência de ele abandonar algum tipo de pecado específico.

De acordo com a “Teologia da Retribuição”, ensinada pelos amigos de Jó, Deus abençoa os que lhe obedecem, e estes levam uma vida mais feliz, e castiga aqueles que se rebelam contra ele, e estes têm uma vida infeliz. Sabemos que isso é verdade até certo ponto, mas existem exceções. Muitos justos têm vida infeliz, enquanto que muitos injustos têm vida boa. Mas, ao final do livro de Jó, parece-nos que essa lógica de seus amigos estava certa; afinal, Jó fora bom, e suportara todas as provações e recebera grandes recompensas. Mas será que Deus era obrigado a deixar de abençoar Jó para provar que os seus amigos estavam errados? Não! Deus faz aquilo que lhe apraz. Seria absurdo dizer que ele está obrigado a conservar Jó na miséria, a fim de salvaguardar a teologia. Ademais, essas dádivas, no fim, foram gestos de graça, e não recompensas pelas virtudes de Jó [5].


4. Mudanças e mais mudanças: 

Do versículo 11 até o último versículo do capítulo 42, o livro de Jó relata a transformação que o Senhor realizou na vida do patriarca. Foram mudanças atrás de mudanças. Em primeiro lugar: Jó experimentou mudanças sociais. As pessoas que o desprezavam apareceram: Então vieram a ele todos os seus irmãos e todas as suas irmãs e todos quantos dantes o conheceram... cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro, e cada um, um pendente de ouro. Deus jamais nos abandona. Isso é fato. Mas veja que ironia: ele pode usar os que nos abandonam para nos abençoar. Os que abandonaram Jó, agora o abençoavam.

Em segundo lugar: Jó experimentou mudanças materiais. Os seus parentes e amigos lhe trouxeram presentes em dinheiro e ouro; estavam fazendo algo parecido com um “fundo de restauração”. Com esses bens, o patriarca poderia começar a recompor sua vida. O versículo 12 diz: E assim, abençoou o Senhor o estado de Jó, mais do que o primeiro; porque teve quatorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de boi, e mil jumentas. Além de mudanças sociais e materiais, em terceiro lugar, Jó experimentou mudanças familiares. Deus tem poder para reconstruir lares desfeitos pelas tragédias, e fez isso na vida de Jó: Também teve sete filhos e três filhas (42:13).

Sobre suas três novas filhas, a Bíblia diz que em toda a terra não se achavam mulheres tão formosas (v. 15). No Oriente, os pais se orgulhavam de ter filhas bonitas, e Jó teve três assim. Por fim, Jó foi abençoado por Deus com vida longa. (v. 16). O último versículo diz que ele morreu velho e farto de dias (v. 17). Falecer “velho e farto de dias” era o objetivo de toda a pessoa. Trata-se de um conceito que, além de uma vida longa, significa uma vida rica e plena que termina bem [6]. Sua morte foi feliz porque ele havia vivido bem a sua vida. Quem imaginava que o patriarca não escaparia da morte frente aquele terrível revés, se enganou. É Deus quem está no comando!


O que isto diz para nós hoje?


Em meio ao sofrimento, aguarde de forma humilde a mudança

Em que momento do livro de Jó nós o vemos exigindo que Deus o restituísse tudo o que ele tinha? Em que versículo ele protesta contra Deus por causa dos seus direitos? Onde é que lemos que Jó determinou a mudança na sua vida? Sabe qual é a resposta para estas perguntas? Em lugar nenhum! Jó não exigiu, protestou ou decretou nada! Mesmo quando especulou algumas coisas sobre Deus, ele o fez respeitosamente, e, no final, quando viu que estava errado, arrependeu-se. Se você está enfrentando algum tipo de sofrimento, tenha humildade. Deus é soberano e sabe o que faz. Decretar, exigir, protestar e determinar que ele mude a nossa situação são atitudes arrogantes de quem ainda não entendeu quem é Deus.


Em meio ao sofrimento, aguarde de forma paciente a mudança

Se há algo pelo qual Jó é conhecido biblicamente é a sua paciência. Observe o que Tiago escreveu sobre ele, anos mais tarde: Vocês tem ouvido a respeito da paciência de Jó e sabem como no final o Senhor o abençoou (Tg 5:11 – NTLH). Em meio ao sofrimento, Jó não abandonou a fé e nem se apostatou. Diante das suas incompreensões, apegou-se a Deus e soube esperar nele. A chama da fé e da esperança esteve sempre viva em seu coração. Deus sabe o que faz! Se você está enfrentando algum tipo de sofrimento, acalme-se, tenha paciência. Quem sabe Deus ainda não mudou a sua situação porque ainda você não aprendeu o que ele quis que aprendesse? Não abandone a fé; espere confiante e pacientemente pelo Senhor.


Em meio ao sofrimento, aguarde de forma convicta a mudança

Sabe por que, em meio ao sofrimento, podemos aguardar a mudança de forma convicta? Por que ela virá. Disso podemos ter certeza. Talvez, Deus não lhe dê em dobro tudo o que você perdeu. O caso de Jó é o caso de Jó. Talvez, a nossa restauração não seja completa nesta vida, mas ela ocorrerá. Esta é uma certeza que todos nós podemos ter: o dia final para todo o sofrimento humano já está programado na “agenda de Deus”. Confie! O livro de Jó trata dessa tensão entre o que é e o que ainda será, entre o que está indo e o que está vindo, “entre o pôr-do-sol e o nascer do sol, entre o cântico de lamento e o cântico de alegria, entre a agitação e a tranqüilidade, entre o mistério do sofrimento e o mistério da felicidade plena” [7].


Concluindo

A mensagem do livro de Jó não perderia seu efeito, se não tivéssemos os últimos oito versículos do livro. Deus é soberano e justo. Se não conhecêssemos o relato da mudança material que houve na vida de Jó, ainda assim, saberíamos que, um dia, ele seria recompensado por Deus. Na verdade, o livro de Jó deixou bem claro que o mais importante, para esse homem, era Deus. Por isso, podemos glorificar a Deus pelos ensinamentos que tivemos para melhor lidar com o sofrimento. Terminamos em tom de esperança. Esperança por sabermos que todos os sofrimentos dos filhos de Deus têm seus dias contados por ele. Glória a Deus!



Bibliografia

[1] [4] [5] - ANDERSEN, F. I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e
Mundo Cristão, 1984.

[2] - CHAPMAN, M. L. (at all). Comentário Bíblico Beacon: Jó a Cantares de
Salomão. Vol. 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2009.

[3] - AGUIAR, M. O enigma de Jó. Belo Horizonte: Betânia, 2005.

[6] - WIERSBE, Warren W. Antigo Testamento. Volume III, Poéticos. Santo André:
Geográfica, 2006.

[7] - CÉSAR, Elben M. Lenz. Para (melhor) enfrentar o sofrimento: a resistência
de Jó em meio à dor. Viçosa: Ultimato, 2008.




Fonte:
DEC
PCamaral

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