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O cristianismo é difícil ou fácil?

Publicado no blog Poeria de Ouro por Eudoxiana Canto Melo


A idéia convencional que todos nós temos antes de nos tornarmos cristãos é a seguinte: tomamos como ponto de partida nosso ser comum, com seus muitos desejos e interesses, Admitimos em seguida que uma outra coisa — chamemo-la 'moralidade', 'bom comportamento' ou 'o bem da sociedade' — também tem direitos sobre o nosso ser, direitos que embaraçam os desejos próprios desse ser. Para nós, 'ser bom' é ceder a esses direitos. Percebemos que algumas coisas que o ser comum queria fazer são o que chamamos de 'erradas': ora, temos de desistir de fazê-las. Mas o tempo todo ficamos à espera de que, quando todas as exigências tiverem sido cumpridas, o pobre ser natural ainda tenha alguma oportunidade e algum tempo para cuidar da própria vida e fazer o que bem lhe aprouver. Na verdade, assemelhamo-nos ao homem honesto que paga seus impostos. Ele efetivamente os paga, mas sempre espera que lhe reste o suficiente para continuar vivendo. Isso tudo porque ainda tomamos como ponto de partida o nosso ser natural.

Enquanto pensamos desse modo, os resultados possíveis que nos esperam são dois: ou desistimos de tentar ser bons ou nos tornamos muito, muito infelizes. Não se engane — se você está realmente disposto a tentar atender a todas as exigências que se impõem ao seu ser natural, saiba que não lhe restará o suficiente para continuar vivendo. Quanto mais você obedecer à sua consciência, tanto mais ela lhe cobrará. E o seu ser natural, continuamente submetido a fome, aos aborrecimentos e aos tormentos, vai se irar cada vez mais. No final, ou você desistirá de tentar ser bom ou se tornará uma daquelas pessoas que, como se costuma dizer, 'vivem para os outros', mas sempre de modo descontente e resmungão — sempre a se perguntar por que os outros não reparam nelas e sempre fazendo-se de mártires. E, quando isso acontecer, será um estorvo muito maior para os que tiverem de conviver com você do que seria se tivesse permanecido explicitamente egoísta desde o princípio.

A via cristã é diferente: é mais difícil e é mais fácil. Cristo diz: 'Quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma parte do seu trabalho: quero você. Não vim para atormentar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero raspar, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. Entregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocentes – o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo. Na verdade, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu.'
Isso é mais difícil e mais fácil do que aquilo que todos nós tentamos fazer. Acho que você já percebeu que o próprio Cristo às vezes descreve a via cristã como algo muito difícil, às vezes como algo muito fácil. Diz: 'Tome a sua cruz' - em outras palavras, prepare-se para ser espancado até a morte num campo de concentração. Mas, um minuto depois, diz: 'Meu jugo é suave e meu fardo é leve.' Ele de fato quis dizer as duas coisas, e, se fizermos um pouquinho de esforço, veremos por que as duas são verdadeiras.

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A coisa que lhe dá horror, que lhe parece quase impossível, é entregar todo o seu ser — todos os seus desejos e precauções — a Cristo. Mas isso é muito mais fácil que aquilo que todos nós tentamos fazer. Pois o que cada um tenta fazer é continuar sendo aquilo que chama de 'ele mesmo', é continuar tendo a felicidade pessoal como grande objetivo na vida, e ao mesmo tempo ser 'bom'. Cada um tenta deixar que sua mente e seu coração sigam seus próprios caminhos — centrados no dinheiro, no prazer ou na ambição —, e apesar disso tem a esperança de se comportar de modo honesto, casto e humilde. Mas é exatamente isso que Cristo nos advertiu que não se pode fazer. Como ele disse, não se geram figos dos abrolhos. Se sou um campo que só contém sementes de capim, não posso produzir trigo. Se o capim for cortado, pode até permanecer baixo: mas nem por isso vou produzir trigo em vez de capim. Se quiser produzir trigo, a mudança terá de ser mais profunda. Meu campo terá de ser carpido e depois semeado com sementes novas.

É por isso que o verdadeiro problema da vida cristã se apresenta num contexto em que geralmente não esperamos encontrá-lo: apresenta-se no momento mesmo em que você acorda de manhã. Todos os seus desejos e esperanças para aquele dia avançam em sua direção como bestas selvagens. E, a cada manhã, sua primeira tarefa é simplesmente a de repeli-los; é a tarefa de ouvir aquela outra voz, assumir aquele outro ponto de vista, abrir caminho para aquela outra vida, uma vida maior, mais forte e mais silenciosa. E assim também no restante do dia: distanciar-se de todas as suas manhas e ressentimentos naturais; sair do vendaval.
No começo, só nos é possível fazer isso por alguns instantes. Mas, a partir desses instantes, esse novo tipo de vida se dissemina pelo nosso organismo: pois agora deixamos que ele trabalhe sobre a parte correta do nosso ser. É essa a diferença que existe entre uma tinta, que se deposita simplesmente sobre a superfície, e um pigmento ou tintura que penetra no fundo. As palavras dele nunca foram vagas e idealistas. Quando disse 'Sede perfeitos', ele estava falando sério. Queria dizer que temos de fazer o tratamento completo. Não é fácil: mas a solução de meio-termo pela qual ansiamos é muito mais difícil - na verdade, impossível. Pode ser difícil para um ovo transformar-se numa ave; mas seria muitíssimo mais difícil aprender a voar sem deixar de ser ovo. Atualmente, nós somos como ovos. O problema é que ninguém pode continuar sendo um simples ovo para sempre. Ou o pássaro quebra a casca ou o ovo gora.

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Volto então ao assunto anterior. Nisso está todo o cristianismo. Não há mais nada. É fácil perder esse fato de vista. É fácil pensar que a Igreja tem muitos objetivos diferentes - cuidar da educação, construir edifícios, enviar missões, organizar cerimônias. Do mesmo modo, é fácil achar que o Estado tem muitos objetivos diferentes - militares, políticos, econômicos e por aí afora. Porém, de certo modo, as coisas são muito mais simples que isso. O Estado existe simplesmente para promover e proteger a felicidade comum dos seres humanos nesta vida. O marido e a mulher que conversam ao pé do fogo, um grupo de amigos que joga dardos num pub, um homem que lê em seu escritório ou cuida do seu jardim — é para isso que o Estado existe. E a menos que ajudem a multiplicar, prolongar e proteger esses momentos, todas as leis, parlamentos, exércitos, tribunais, polícias, políticas econômicas etc. serão mera perda de tempo.

Do mesmo modo, a Igreja só existe para reabsorver os homens em Cristo, para fazer deles pequenos Cristos. E, se isso não acontece, as catedrais, o clero, as missões, os sermões, a própria Bíblia não passam de uma perda de tempo. Foi só para isso que Deus se fez homem. Pode até ser, saiba você, que o próprio universo tenha sido criado só para isso. A Bíblia diz que o universo inteiro foi feito para Cristo e que todas as coisas devem ser unidas nele. Parece-me que ninguém pode saber como isso vai acontecer com o universo inteiro. Não sabemos quais os seres (se é que existem) que vivem naquelas partes do universo que ficam a milhões de milhas desta Terra. Mesmo nesta Terra, não sabemos como isso pode acontecer com outros seres que não o homem. Mas, no fim das contas, isso seria de esperar. Só nos foi revelada aquela parte do plano que nos diz respeito diretamente.

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O que nós sabemos, porque isto sim nos foi dito, é como nós homens podemos ser reabsorvidos em Cristo - podemos passar a fazer parte daquele presente maravilhoso que o jovem Príncipe do universo quer oferecer ao seu Pai - aquele presente que é ele mesmo e, portanto, somos nós nele. Foi só para isso que fomos criados. E a Bíblia nos dá a entender que, quando formos reabsorvidos, muitas outras coisas da natureza começarão a entrar nos eixos. O pesadelo terá terminado e um novo dia nascerá.
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(C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolia, São Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. 66-68) via Poeira de Ouro

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