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A vocação dos discípulos e o ministério da oração

Por Valdir Steuernagel
Uma das coisas que aprendi há algum tempo é que o discípulo dificilmente vai além do seu mestre. Aliás, Jesus mesmo advertiu seus discípulos quando lhes lavou os pés: “Nenhum escravo é maior do que o seu senhor” (Jo 13.16). Ele não lhes pediu nada que ele próprio não tivesse feito ou vivido. Estava sempre ensinando a boa nova às multidões, curando os enfermos e libertando as pessoas da possessão demoníaca. E é isso que ele requer dos seus seguidores. Queremos neste artigo olhar para a vida de oração de Jesus e para o seu convite aos discípulos para que façam o mesmo.

Nos Evangelhos, a vida de oração de Jesus é retratada de diferentes maneiras e em diferentes situações. Mas todas têm em comum o fato de que ele orava e ensinava os discípulos a orar. Nos momentos mais importantes da sua vida, parece que uma janela se abre e vislumbramos uma intensa intimidade entre ele e o Pai. No batismo, a palavra do Pai o alcança com a amorosa afirmação: “Tu és o meu filho amado; em ti me agrado” (Mc 1.11). Antes da crucificação, é ele quem procura o Pai e, com a alma angustiada, pede-lhe que, se possível, poupe-o do cálice da morte (Mc 14.36).

A escolha dos discípulos parece ter sido um desses momentos centrais na vida de Jesus. Conta o evangelista Lucas que antes de escolhê-los ele “saiu para o monte “a fim de orar”, e “passou a noite orando a Deus”. Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também designou apóstolos” (Lc 6.12-13).

A oração era mais do que algo “funcional” na vida de Jesus; era uma expressão de profunda intimidade com o Pai. A oração é o espaço nobre no qual se nutre a relação entre Pai e Filho. É dessa relação de intimidade entre os dois que brota a afirmação de pertencimento (batismo), a oferta da sua entrega sacrificial (crucificação) e a própria escolha dos discípulos. Segundo o comentarista Howard Marshall, com a oração preparatória e a designação apostólica dos doze, Jesus dá um passo importante na fundação da igreja. Os discípulos são chamados para a oração e a igreja nasce pela oração. O Evangelho de João torna isso ainda mais explícito e amplo ao dizer que Jesus orou, não apenas pelos doze, mas também por todos os que viessem a crer nele. Assim, ele orou por você e por mim em nosso desejo e esforço por segui-lo: “Minha oração não é apenas por eles, diz Jesus. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles” (Jo 17.20).

Desde tempos imemoráveis, diz Ole Hallesby, a oração “foi considerada o fôlego da alma”. Assim como o ar nos envolve e temos livre acesso a ele -- dele dependemos e nunca o possuímos, mas somos possuídos por ele -- a oração é o fôlego que nos é dado por Deus, que nos envolve e alimenta a nossa vida. A oração é a graça divina que alimenta o pulmão da nossa relação vital com Deus, do sentido da nossa existência e do cultivo da nossa vida comunitária e missional.

A oração é o alimento da nossa relação com Deus -- Pai, Filho e Espírito Santo. Quando Jesus ora, ele se alimenta da Trindade e alimenta a Trindade. E quando a Trindade se reúne, o amor flui, a salvação é desenhada e a eternidade, gestada. Quando oramos, somos batizados no amor, tornamo-nos partícipes do plano de salvação e somos agraciados com o gosto da eternidade que passa a balizar os nossos caminhos de obediência e os nossos sonhos para o amanhã. Oramos porque simplesmente não há outra maneira de viver a nossa fé.

O caminho da oração não é óbvio nem fácil. Os discípulos nos deixam entrever as dificuldades e os desafios inerentes a uma vida de oração. Quando, no Getsêmani, diante da morte iminente, Jesus lhes pede que vigiem com ele em oração, os discípulos dormem (Mc 14.32-37). E quando eles tentam, em vão, expulsar os demônios de um menino possesso, Jesus lhes diz que isso só seria possível pela oração (Mc 9.14-29).

Se a oração é o reconhecimento da nossa dependência de Deus, a sua ausência é a manifestação da nossa insuficiência e pseudossuficiência. Enquanto a oração é o atestado da suficiente graça de Deus, a ausência dela é o atestado da nossa fraqueza e limitação. Assim, é necessário não apenas que oremos, mas também que Deus nos ensine a orar. Eis um grande mistério: o mesmo Deus que nos convoca a orar sem cessar afirma que só podemos orar quando o Espírito nos capacita e conclama a fazê-lo. E mais belo ainda se faz o mistério quando lemos no livro de Isaías (65.24), na descrição dos novos céus e da nova terra que, “ainda antes de clamarmos”, Deus responderá e “antes de falarmos” Deus já nos terá ouvido! Graças a Deus. Ele não apenas nos exorta a orar, mas também ora por nós. Ele não apenas nos convoca a orar, mas também nos ensina a orar:

Quando vocês orarem, digam:
Pai!
Santificado seja o teu nome.
Venha o teu Reino.
Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.
Perdoa-nos os nossos pecados,
Pois também perdoamos a todos os que nos devem,
E não nos deixes cair em tentação.
Lucas 11.2-4

• Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.
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Fonte: Ultimato

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