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Duas visões, um só Evangelho

Pregações de Jesus sobre o reino dos céus e de Paulo sobre a justificação pela fé podem parecer diferentes, mas ambas dão testemunho de Cristo.

Por Scot McKnight

Há uma tensão crescente entre os evangélicos sobre quem estabelece os parâmetros: Jesus ou Paulo? Em outras palavras, o crente deve estabelecer o ensino do Evangelho e sua vida cristã no ideal do Reino de Deus ou da justificação pela fé? A questão não é tão simples de responder como pode parecer à primeira vista. Pode-se dizer sem exagero que o movimento evangélico deve sua força fundamental à Reforma do século 16 e aos grandes despertamentos e avivamentos dos séculos 18 e 19, bem como à chegada, já no século 20, da noção do chamado evangelho social, que pareceu vincular o “reino” ao que é “liberal” e à “justiça” – ou seja, trata-se de um movimento moldado pelo apóstolo Paulo do começo ao fim. Além disso, quando alguns evangélicos recentemente redescobriram a visão do reino de Jesus, foram frequentemente advertidos de que estavam a ponto de enamorar-se pelo evangelho social.

No entanto, algo tem acontecido nas duas últimas décadas: uma mudança sutil, porém inequívoca, entre muitos cristãos, de uma teologia centrada em Paulo para uma visão do reino conforme Jesus. Não é exagero dizer que a fé evangélica enfrenta uma crise em se tratando do relacionamento entre Jesus e Paulo, e que infelizmente muitos hoje estão escolhendo lados. Jovens pensadores têm como “primeira língua” Jesus e o reino. No entanto, a despeito da tendência – ou, talvez, em reação a ela–, muitos olham para Paulo e para a justificação pela fé como sua base. Os que enfatizam a prevalência do conceito de reino esforçam-se para encaixar Paulo nela, enquanto que os aficionados nos termos teológicos paulinos lutam para fazer Jesus encaixar-se neles.

Evangélicos têm oferecido duas maneiras de resolver esse dilema – ou seja, fazer com que Paulo e Jesus estejam em perfeita harmonia. O que se observa é que cada abordagem imagina que esteja articulando o próprio evangelho. Uma explora o evangelho de Jesus, a visão do reino, e mostra como Paulo se encaixa nele. A outra enfatiza o evangelho de Paulo, sua teologia da justificação, e mostra como Jesus se encaixa nele. Cada abordagem requer alguns ajustes – porém, com esforço extra e algumas explicações especiais, julga poder mostrar a unidade da mensagem de Jesus e de Paulo, e que o evangelho do reino e o evangelho da justificação é um e o mesmo.

O reino de Deus, seguindo-se a linha de pensadores como George Eldon Ladd, é definido como o “reino dinâmico de Deus.” Ela está baseada em textos como Mateus 12.28, onde Jesus diz que, se expulsava demônios pelo Espírito de Deus, então o Reino de Deus havia chegado até eles. Já no registro de Marcos 1.15, o tempo se cumpriu, o reino de Deus se aproximou e, portanto, bastaria que os homens se arrependessem de seus maus caminhos e cressem nele. Não é difícil encaixar a idéia central da justificação pela fé no molde da presença dinâmica, pessoal e redentora de Deus na obra de Jesus. Com algumas variações cuidadosas, o apelo de Paulo aos romanos quanto à justificação e seu testemunho à igreja de Éfeso acerca de uma redenção cósmica em Cristo podem ser obtidos no âmbito do reino.

REINO “DINÂMICO”

No entanto, alguns problemas emergem e podem trazer certo desconforto com relação a esse tipo de harmonização. Paulo pensa mais em termos de soteriologia, justificação e eclesiologia do que no reino. Uma falha ainda mais fatal reside nessa abordagem: o reino significa mais que o reino “dinâmico” de Deus em ação por meio de Cristo. A ênfase nessa dinâmica pode levar à noção de que a idéia de reino refere-se à experiência pessoal de conversão.

A barreira em uma estrada aqui é insuperável: o reino, para qualquer judeu no primeiro século, tinha ao menos quatro componentes: um rei (Jesus ou Deus); um povo (Israel); um território (o que ocupavam); e uma lei (a de Moisés). Uma conclusão óbvia é de que não se pode começar no reino com Jesus e simplesmente atravessar o caminho, concluindo que Cristo estava, afinal, falando sobre justificação.

Acontece que alguns dos temas centrais do reino para Jesus, que são encontrados em passagens cruciais do evangelho, como seu primeiro sermão em Nazaré (Lucas 4.16-30), não são encontrados em Paulo. Evidentemente, o apóstolo se importava com os pobres, mas nos escritos do apóstolo não aparece uma mensagem revolucionária sobre possessões com tal intensidade que permita concluir de modo correto que ele estivesse essencialmente ensinando a mesma coisa que Jesus. Assim, o reino e a justificação não são a mesma coisa. Temos de encontrar uma maneira melhor para harmonizar Jesus e Paulo.

Desse modo, outros têm como ponto de partida o entendimento de Paulo sobre a justificação e encontram uma maneira de incorporar a visão de Jesus sobre o reino. Uma tentativa recente de John Piper, uma das luzes principais no renascimento da teologia reformada, ilustra como isso pode ser feito. Em uma conferência de pastores, Piper fez uma pergunta simples: “Jesus pregou o evangelho de Paulo?” Tal questionamento, equivalente a indagar se Jesus se encaixa a Paulo, poderia irritar muitos leitores e historiadores da Bíblia, mas essas perguntas sobre a Bíblia não são inapropriadas. Para responder a elas, Piper investigou a única vez em que a palavra “justificado”, no sentido paulino, aparece nos evangelhos. É na passagem de Lucas 18.14, quando o Mestre diz que o coletor de impostos foi para casa justificado diante de Deus após sua oração de confissão.

A exegese habilidosa e a persuasão teológica de Piper o levaram a concluir que Jesus ensinou a justificação pela fé, uma mensagem central do Novo Testamento, encontrada também nas epístolas paulinas. O evangelho é, primeiro e antes de tudo, sobre Jesus – ou, colocando-se em termos teológicos, sobre cristologia. Por trás ou embaixo do reino e da justificação está o evangelho, e o evangelho é a história salvadora de Jesus que complementa a história de Israel. “Evangelizar”, assim, é contar uma história sobre Jesus como Messias, Senhor, Filho de Deus e Salvador. Cristo pregou o mesmo evangelho de Paulo, de Pedro, de João, simplesmente porque pregou a si mesmo.

Qualquer leitura dos evangelhos levará, e qualquer evangelho levará, constantemente, a essa pergunta que o próprio Jesus está fazendo aos que o viram e o ouviram: “Quem sou eu?”. Seu sermão inaugural na sinagoga de sua cidade natal, Nazaré, é uma declaração profunda e apropriadamente egocêntrica sobre si mesmo. Perdemos a essência dessa passagem se reduzimos a história ao reino, apenas. Na sinagoga, Jesus lê a Escritura a partir de Isaías 61.1-2, uma passagem sobre a redenção do reino no fim dos tempos. Mas o que precisamos notar é que Jesus pensa ser o agente dessa redenção, que não é nenhum outro senão “o ungido” – afirmação que enfureceu tanto os ouvintes que o expulsaram e fizeram menção de matá-lo.
O evangelho é o cerne da Bíblia, e o evangelho é a história de Jesus
QUEM É JESUS?

Outro texto-chave acerca do reino é o de Lucas 7.20-23. João Batista pergunta se Jesus é ou não aquele que, de acordo com as profecias, haveria de vir. O Filho de Deus responde criando um mosaico inteligente e belo a partir de trechos do livro de Isaías. E termina com uma afirmação ousada: “Feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa”. Em outras palavras, Jesus afirma ter cumprido essas Escrituras. É como se dissesse que toda a história de Israel se complementa nele. De novo, a palavra de Jesus é totalmente egocêntrica.

Há um conjunto de passagens no Novo Testamento em que Jesus e João Batista travam diálogos um com o outro, e com outras pessoas, sobre quem eles são. Muitas vezes, passamos por esses textos sem a devida atenção, talvez porque os conheçamos bem demais. Mas, que tipo de pessoas andam em derredor perguntando às outras quem elas são? E quando fazem essas perguntas, elas supõem que as respostas sejam encontradas nas predições da Bíblia? Quem dentre nós diz um para o outro, “quem você acha que eu sou?" Nenhum de nós faz isso e, se fizéssemos, seríamos colocados à margem da sociedade – ou, talvez, internados.

Jesus e João parecem ter tido uma conversa sobre quem de fato eram. E, conquanto João nem sempre pareça estar certo de quem seja, Jesus fala com convicção sobre quem ele mesmo e o próprio João são. Há algo aqui que percorre as páginas dos evangelhos: Jesus e João se veem como aqueles que complementam a história de Israel, e a história deles é a história salvadora. É exatamente isso o que Paulo disse que era o evangelho. Jesus pode ter falado acerca do reino, e Paulo pode ter falado sobre a justificação; mas sobre o reino e a justificação está a cristologia: ela é a história acerca de Jesus, que é Messias e Senhor, e que traz o reino e justifica pecadores pela fé. Somente quando entendemos o evangelho como a história salvadora sobre Jesus que complementa a história de Israel é que enxergamos a unidade profunda entre Jesus e Paulo. Ambos evangelizaram com o mesmo evangelho, porque contaram a história de Jesus.

Por exemplo, que tipo de pessoa poderia dizer coisas como: “Não pensem que vim abolir a lei ou os profetas; não vim abolir, mas cumprir” (Mateus 5.17)? Jesus declara que toda a lei e os escritos dos grandes profetas do passado apontam para ele e são cumpridos nele, o que significa evangelizar exatamente como Paulo fez ao dizer que, “de acordo com as Escrituras”, as coisas eram exatamente assim. E que tipo de pessoa poderia predizer mais de uma vez que não apenas morreria, como também ressuscitaria dentre os mortos, como o Filho de Deus fez claramente em Marcos 9.31?

Que tipo de pessoa escolhe o simbólico número doze, que está conectado à formação como um povo de doze tribos e também à esperança do renascimento das dez tribos perdidas? No entanto, há mais: Jesus não se inclui porque se percebe como Senhor dos doze. Ao nomear doze discípulos, ele viu a história se complementando e a si mesmo como Senhor dessa complementação. Isso é evangelizar! E esse é o evangelho de todos os apóstolos. Ou que tipo de pessoa prediz mais de uma vez que não somente morrerá, como também ressuscitará, como fez o Salvador, de maneira categórica, conforme o registro de Marcos 9.31?

Que tipo de pessoa resume sua vida como sendo o Filho do Homem que veio para dar a sua vida em resgate por muitos, porém o faz de modo a combinar o Filho do Homem da visão de Daniel 7 com a imagem do servo, de Isaías 42-43? Isso é o que encontramos, quando combinamos Marcos 10:45 com Marcos 14:24.

Que tipo de pessoa se enxerga como sendo a Páscoa, como Jesus se vê na ultima ceia? Naquele cenáculo, Jesus sintetizou imagens profundas, dando sentido à própria vida por meio dessas imagens, e declara que ele mesmo é o agente redentor e perdoador para Israel. Novamente, estamos exatamente onde Paulo estava em I Coríntios 15, quando disse que Jesus morreu “pelos nossos pecados”. Esse é o evangelho de Paulo, expresso claramente nas palavras e ações de Jesus.

Se começarmos nossa análise do aparente paradoxo entre Jesus e Paulo exclusivamente a partir do reino, teremos de deformar o apóstolo para que se amolde a essa visão. Por outro lado, se partirmos exclusivamente da noção de justificação, teremos de forçosamente adaptar os ensinos de Jesus àquela idéia. No entanto, se começarmos simplesmente com o evangelho pregado por Cristo, e se o entendermos como Paulo o entendeu, encontraremos o que une as duas figuras – o fato de que ambos dão testemunho de Jesus como o centro da história de Deus. O evangelho é o cerne da Bíblia, e o evangelho é a história de Jesus. Portanto, toda vez que falarmos sobre Jesus, estaremos evangelizando. Falar a outros acerca de Cristo os levará ao reino e à justificação – mas somente se começarmos com Jesus.

Scot McKnighté professor de ciências da religião e escritor
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Fonte: Cristianismo Hoje | Compartilhado no PCamaral

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