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Quando a Igreja se Reúne para Suplicar por Misericórdia

Tem misericórdia de nós, SENHOR, tem misericórdia; pois estamos sobremodo fartos de desprezo. (Sl 123:3) 
 
Para uma igreja que tem sido constantemente invadida pelos princípios individualistas desta época, tais como: “Cada um com seus problemas”, tratar de súplica por misericórdia é um desafio. Mais desafiador é relacionar esse assunto à adoração para uma igreja bombardeada por doutrinas que rejeitam a soberania de Deus e “concedem” superpoderes ao ser humano para exigir seus direitos ao Criador. Embora pareça ser um elemento-surpresa, o ensino sobre a súplica por misericórdia, como um dos componentes do culto a Deus, se faz muito necessário à igreja dos nossos dias, que também vem sendo pressionada pela ideia de que humildade, dependência e renúncia são sinônimos de fraqueza.
Vivemos um tempo de antimisericórdia, ao mesmo tempo em que vemos a proliferação de ONGs que se empenham em auxiliar pessoas, na luta por sua dignidade, e de leis que asseguram os direitos das minorias marginalizadas. Quanto mais as pessoas aprendem sobre seus direitos, menos se importam com as necessidades dos outros. A mensagem da misericórdia de Cristo é também para esta geração egoísta e indiferente, capaz de filmar ou fotografar tragédias e cenas degradantes de seres humanos e divulgá-las como um troféu por algum site da internet. Cabe à igreja, em adoração, suplicar pela misericórdia de Deus e testemunhá-la a esta geração. Vamos ver o que a Bíblia tem a nos dizer sobre isso.
É preciso conhecer a misericórdia: Antes de qualquer abordagem bíblica sobre a súplica por misericórdia, é preciso responder duas perguntas importantes: O que é misericórdia? Por que é tão necessária? Em resposta à primeira pergunta, entendemos por misericórdia a resposta divina aos nossos méritos. Mas o que nós merecemos? Condenação eterna, morte, rejeição de Deus, por todos os nossos pecados (Sl 51:5, 90:8, 103:10, 130:3; Rm 5:18; Ef 2:1-10); todavia, ele responde a tudo isso com misericórdia, ou seja, não age conosco de acordo com o que merecemos. Isso já responde a segunda pergunta, pois é porque merecemos condenação e morte eterna que necessitamos urgentemente da misericórdia divina sobre nós.
Respondidas as primeiras perguntas, vamos conhecer o sentido da misericórdia na Bíblia Sagrada: No Antigo Testamento, em muitos casos, a misericórdia é sinônimo de bondade, benignidade e fidelidade (ex.: Sl 57:3, 85:7, 103:17; Pv 16:6; Is 54:8,10). Em outros, significa demonstração de graciosidade, favor ou compaixão (ex.: Ex 33:19; Nm 6:25; Sl 56:1, 57:1, 123:3; Is 33:2). Mas há alguns casos em que aponta para um sentimento mais profundo, uma afeição terna: é ser ou estar intimamente identificado com o problema e a necessidade do outro. Esse sentido se aplica, por exemplo, a Pv 28:13; Is 54:7, 60:10; Os 14:3; Hc 3:2.
Praticamente os mesmos sentidos se aplicam ao Novo Testamento, sendo que a misericórdia como um sentimento profundo que gera uma ação em favor de outra pessoa está presente, por exemplo, em Fp 1:8, em que Paulo se refere à terna misericórdia de Cristo. Essa ternura que o apóstolo menciona é um afeto que vem do mais íntimo do ser. O sentido é de algo que vem das entranhas, conhecidas, na época, como o lugar dos sentimentos mais profundos e extremos. Em Fp 2:1 e Cl 3:12, Paulo se refere à misericórdia em sentido semelhante. Aqui, ele mostra que a misericórdia revela a ternura de Deus nas atitudes dos crentes.
Quem é a origem? Conhecer os conceitos bíblicos aplicados à misericórdia não basta. Não suplicaremos por ela, se não conhecermos a sua origem, que é Deus. Paulo afirmou que ele é o Pai de misericórdias (2 Co 1:3). Sendo assim, há três aspectos da misericórdia divina que todo verdadeiro adorador precisa conhecer. A primeira característica da misericórdia de Deus é que ela é inalterável, porque é um dos atributos de Deus, que é inalterável. Não existe um momento em que ele seja mais misericordioso e outros em que seja menos. Deus é sempre misericordioso, na mesma medida (Sl 103:8-11), porque o seu caráter é imutável.
A segunda característica da misericórdia divina é que ela é profunda. Trata-se de uma identificação profunda de Deus com a miséria humana. Ele não apenas observa, percebe ou contempla essa miséria: ele a sente. Deus se envolve com o sofrimento humano, com as causas de seus filhos. Foi isso que Zacarias quis dizer, quando se referiu à entranhável misericórdia de nosso Deus (Lc 1:78). Por essa misericórdia profunda, nós nos assemelhamos a Deus em sua ternura e nos tornamos suas testemunhas, quando demonstramos aos outros a mesma misericórdia de que somos alvos.
A terceira característica da misericórdia divina é que ela é inesgotável. É isto que lemos em Lm 3:22-23: ... as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. No Salmo 119:156, o salmista diz: Muitas, SENHOR, são as tuas misericórdias. Davi mostrou confiança nas muitas misericórdias de Deus, quando preferiu cair nas mãos do Senhor a cair nas mãos dos homens (2 Sm 24:14). Paulo também afirma, em Ef 2:4, que Deus é rico em misericórdia. As misericórdias do Senhor são tão eternas quanto ele e tão inesgotáveis quanto o seu amor por nós. A ele a nossa súplica deve ser direcionada.
Um gesto de humildade: Já comentamos sobre a misericórdia divina, mas precisamos nos voltar um pouco para o ato de suplicar. Este é, em si, uma atitude de humildade, pois nenhum arrogante suplica coisa alguma, nem a Deus, nem a seres humanos. Suplicar implica considerar-se inferior à pessoa a quem a súplica é dirigida. Maior gesto de humildade é suplicar por outros. Quando o clamor é por misericórdia, a humilhação é bem maior. Através de alguns salmos (4:1, 56:1, 57:1, 123:3), percebemos o perfil de quem faz esse clamor: alguém que se considera dependente de Deus, que reconhece não possuir méritos para exigir coisa alguma de Deus. O Senhor se agrada dos que se sentem assim.
Também percebemos que a pessoa que suplica por misericórdia é alguém que confia em Deus. Quem não é humilde, não consegue confiar em outra pessoa, muito menos entregar o controle de sua vida a outros. Quem clama a Deus por misericórdia, mostra que o considera digno de confiança, não tem medo de entregar-se aos seus cuidados. As pessoas verdadeiramente humildes conseguem dizer o mesmo que o salmista: Quanto a mim, porém, sou como a oliveira verdejante, na Casa de Deus; confio na misericórdia de Deus para todo o sempre (Sl 52:8).
Além de depender de Deus e confiar nele, quem suplica por misericórdia mostra que teme a Deus. O Senhor se agrada daqueles que o temem. É isto que diz o Salmo 103:11,17: ... é grande a sua misericórdia para com os que o temem. (...) Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade, sobre os que o temem. Temor é reverência, elemento fundamental na verdadeira adoração. Mas só mostra esse temor reverente quem reconhece a supremacia de Deus. Adoração sem temor não passa de adulação. Só os humildes temem a Deus, porque só quem o teme se submete a ele. Reverência e humildade são companheiras inseparáveis na adoração.
A súplica coletiva: Todos nós precisamos da misericórdia divina, porque, se não suplicamos pela compaixão de Deus, permanecemos em nossos pecados e nos distanciamos dele. Mas uma verdade que precisa ficar bem clara é que também precisamos fazer essa súplica coletivamente. Este é um ato de renúncia dos nossos interesses pessoais e, portanto, é um ato de adoração, pois a Bíblia nos assegura que Deus tem prazer na misericórdia (Mq 7:18). Isso implica que ele não apenas se agrada de ser misericordioso para conosco, mas também de nos fazer misericordiosos para com os outros. Quando nos reunimos para suplicar misericórdia uns pelos outros tornamo-nos motivo de muita alegria para Deus.
Um exemplo belíssimo de súplica conjunta por misericórdia está em Mt 20:29-34, que relata o momento em que dois cegos, assentados à beira do caminho, por onde Jesus passava, quando saía de Jericó com seus discípulos, gritaram: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de nós! (...) Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós! Ambos poderiam ter gritado, ao mesmo tempo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Mas, ao contrário, cada um clamou pelos dois. É certo que a cegueira daqueles homens comoveu Jesus. Mas podemos afirmar, sem medo de errar, que aquela manifestação de misericórdia mútua contribuiu grandemente para que o Senhor ficasse condoído, tão aflito quanto eles por aquela situação.
No Salmo 123:3, também percebemos claramente o aspecto coletivo da súplica por misericórdia: Tem misericórdia de nós, SENHOR, tem misericórdia. Assim como os cegos que Jesus curou, o salmista não diz: Tem misericórdia de mim, mas diz: Tem misericórdia de nós. Os dois homens de Mt 20:29-34 tinham a cegueira como motivo comum para a sua súplica e o  salmista tinha o desprezo dos inimigos como motivo comum entre ele e seus irmãos. Da mesma forma, os membros do corpo de Cristo têm motivos em comum para suplicar por misericórdia: todos precisam resistir às tentações, precisam do perdão de Deus, passam por tribulações e têm lutas diárias a vencer. Se a igreja é um só corpo, o natural é que sintamos as aflições uns dos outros.
PRATICANDO A PALAVRA DE DEUS
1. Quem venceu a descrença suplica por misericórdia:  
Toda súplica precisa ser um ato de fé. Fé é conhecer a Deus e confiar nele. O autor de Hebreus diz que é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam (Hb 11:6). Quem conhece a Deus, sabe que a misericórdia é um dos seus atributos, porque a sua palavra garante que ele é misericordioso e compassivo; longânimo e muito benigno (Sl 103:8). Quem confia no Senhor tem segurança, pois sabe que as suas misericórdias não têm fim e se renovam a cada manhã (Lm 3:22-23).
Não há culto verdadeiro sem conhecimento de Deus, pois é preciso confiar no Senhor para adorá-lo de verdade, e só confia nele quem o conhece, também só o conhece quem anda com ele. É por isso que o Senhor diz, através de Jeremias: ... o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor (Jr 9:24). A fé que nos faz andar com Deus nos leva não somente a provar a sua misericórdia, mas também a compartilhá-la.
2. Quem abandonou o orgulho suplica por misericórdia:
Suplicar por misericórdia é um ato de fé. Esta, por sua vez, gera humildade, porque só clama por misericórdia aquele que já aprendeu a confiar somente na justiça e na misericórdia divina, que já se despiu de toda arrogância e autojustificação, que reconhece não possuir mérito algum diante de Deus e se coloca diante dele como o profeta Isaías, que exclamou: ... ai de mim! Estou perdido! (Is 6:5). Só os humildes alcançam misericórdia, pois a Bíblia nos garante que Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes (Tg 4:6).
Suplicar por misericórdia é reconhecer que dependemos do favor de Deus e do nosso semelhante. Portanto, os orgulhosos são incapazes dessa atitude. Abusar da misericórdia divina é errado, mas fazer de conta que não precisamos dela é orgulho. Ela está sempre à nossa disposição. Devemos, então, em nosso culto a Deus, fazer o que a sua palavra nos diz: Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna (Hb 4:16). É com muita alegria que o Senhor nos socorre. O mesmo prazer ele tem em que sejamos misericordiosos.
3. Quem superou a indiferença suplica por misericórdia:
É difícil nos importarmos com os outros e pedirmos a Deus compaixão por eles, especialmente quando nem se importam com a vontade de Deus. Mais difícil ainda é pedir a misericórdia divina em favor dos nossos inimigos. Mas foi isto mesmo que Jesus nos ordenou: ... amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mt 5:44). Às vezes, eles estão em nosso meio, cultuando a Deus! Precisamos entender que só clama pela misericórdia divina quem já superou a indiferença com relação à situação de seu próximo diante de Deus. Deus atenderá a nossa oração, se for feita com sinceridade.
Deus se manifesta no culto em que há súplica coletiva por misericórdia, pois esta é demonstração de amor. Ele tem prazer em atender seus filhos individualmente, mas quando estes suplicam uns pelos outros e mostram compaixão pelo seu semelhante, o amor de Deus se torna vivo entre os crentes. Deus quer se revelar – e ele, de fato, se revela – no amor de seus filhos uns para com os outros. A adoração coletiva perde seu sentido, se Deus não for manifesto nas demonstrações mútuas de amor de seus adoradores, pois qualquer adoração que não contemple a misericórdia não pode ser verdadeira e a religião sem misericórdia não é a religião de Cristo.
CONCLUSÃO
A súplica por misericórdia é necessária em nosso culto a Deus, pois, se devemos adorá-lo, acima de tudo, por quem ele é, devemos celebrar juntos a sua misericórdia e suplicar juntos por ela. A misericórdia une-nos uns aos outros e une-nos a Deus. Ele é o nosso Pai. Portanto, quer não somente ser misericordioso, mas também nos fazer misericordiosos para espelharmos seu caráter santo. Só Deus é suficientemente capaz de mostrar misericórdia. Por isso, devemos vencer a descrença, abandonar o orgulho, superar a indiferença e nos dirigir a ele em nossa súplica, confiando em suas muitas misericórdias.

DEC - PCamaral



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