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Em busca de algo novo

Movimento alternativo hipster cresce defendendo uma fé que não vire as costas para o mundo.

Por Brett McCracken

Por fora, o edifício parece algo que lembra um armazém degradado e abandonado. Dentro, luz ambiente, música marcada pela batida pesada do contrabaixo e um grupo de jovens usando jeans e adereços em excesso. Um bar oferece alguma coisa para beber e uma luz frenética no palco é encoberta pelo efeito do gelo seco. Telas enormes projetam o que parecem ser vídeos musicais. Para todo lado, vê-se gente usando iPhones. Uma moça ostentando um piercing no nariz e vistosa tatuagem aparece e se apresenta a um recém-chegado. Ela fala de forma meio desajeitada, ainda que com seriedade, sobre a sua paixão por hortas comunitárias e cooperativas de alimentos. Enquanto pergunta se o visitante conhece o novo álbum do Arcade Fire, ela pede informações sobre seu endereço para contato.
Os hipsters preferem ser chamados de “seguidores de Cristo”,ao invés de cristãos, nutrem repulsa à ideia dos tradicionais apelos para as pessoas irem à frente da igreja confessar a Jesus e, só de pensar em distribuir folhetos nas ruas, sentem arrepios.
Para quem estranhou a descrição do espaço e a forma de abordagem, é bom dizer que aquela é uma reunião cristã e dar as boas-vindas ao mundo do cristianismo alternativo, ou “descolado”, na falta de terminologia mais apropriada – nos Estados Unidos, eles foram classificados como hipsters. É um mundo onde os filmes da série Deixados para trás, adesivos de parabrisas com a palavra “Jesus” e o tradicional evangelismo de porta em porta são apenas curiosidades ultrapassadas. Mais nova encarnação de décadas de colisão entre o que pode ser chamado de “legal” e a prática cristã, o movimento alternativo é, em grande parte, uma rebelião contra a subcultura que o originou – uma reação ao evangelicalismo da velha escola e ao legalismo cristão antiquado, sua apatia sobre as artes e lamentável falta de interesse social. Nos EUA, é também uma rejeição contra o cristianismo ao estilo do ex-presidente George W.Bush, aquele das bandeiras americanas nas igrejas, da exposição dos dez mandamentos nas salas de tribunal e dos ataques a outros povos sob a bandeira de uma cruzada pelos princípios do Ocidente.

A nova subcultura de jovens evangélicos cresceu junto com música cristã contemporânea, flanelógrafo, Escola Bíblica de Férias e histeria sobre o fim do mundo. Agora, eles riem de tudo isso e tentam queimar toda essa “escória brega” do cristianismo de megaigreja para pôr no lugar alguma coisa que gravite em torno do mundo real. Esses alternativos preferem ser chamados de “seguidores de Cristo”, ao invés de cristãos, nutrem repulsa à ideia dos tradicionais apelos para as pessoas irem à frente da igreja confessar a Jesus e, só de pensar em distribuir folhetos nas ruas, sentem arrepios. Essa maneira de viver a fé, ainda misteriosa para a maioria, alarma muitos líderes evangélicos –porém, também aparece como uma revolução interessante. E há quem prefira vê-lo não como manifestação de rebeldia, mas uma maneira de reabilitar a imagem da Igreja.

Convém lembrar que o movimento alternativo – leia-se hipster – nos Estados Unidos não surgiu do nada. Ele é, na verdade, desdobramento de uma série de outras vertentes que surgiram no cenário evangélico desde os anos 1960, como o Jesus People. A reboque, vieram os ministérios evangelísticos com jovens, as organizações paraeclesiásticas e o sentimento geral de que, para alcançar cada vez mais essa crescente cultura de rebeldia adolescente, o cristianismo teria de se tornar um pouco mais ousado e sábio em relação às tendências dos seus dias. Muitos líderes evangélicos nos anos 80 e 90 buscaram ativamente se tornar “legais”. Eles começaram a alcançar a cultura jovem e formar igrejas que atendessem suas necessidades, motivados por um desejo renovado de fazer a obra de Deus de maneira contemporânea, atual e relevante.

Os cristãos alternativos de hoje estão fazendo o inverso. Eles procuram romper com a subcultura cristã, mas preservando sua fé e mantendo-se compatíveis, e não contrários, à contracultura secular. Sua missão é a de dar novos significados à própria crença, para que se torne, se não totalmente desprovida de seus próprios significados, ao menos associada com tudo aquilo que anteriormente era considerado oposição: arte, pensamento acadêmico, política liberal, moda, e por aí vai. A lista de atividades deste grupo pode tanto envolver a comunidade na luta por justiça social e pela preservação ambiental como usar as modernas tecnologias de comunicação e relacionamento virtual – e, até mesmo, patrocinar visitas a cervejarias e conviver bem com palavrões.

OPERAÇÃO SECRETA

Afinal, o que transforma uma congregação cristã numa “igreja descolada”? Uma das características do segmento é que está sempre em busca de um choque de valores. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Igreja Mars Hill, em Seattle, é uma meca cristã hipster pastoreada por Mark Driscoll. O líder tem aparência metrossexual, envergando, por exemplo, camiseta justa e cordão com crucifixo. Algumas igrejas fazem seus cultos em bares e casas noturnas. A Mosaico, em Los Angeles, se reúne na boate Mayan, e a North Brooklin Vineyard, de Nova Iorque, prega o Evangelho num lugar chamado Trash Bar. Algumas comunidades hipster, como a Grace Chicago, permitem-se a requintes como degustações de vinhos. Outras focam mais no choque de valores através dos sermões aprofundados em assuntos delicados tais como homossexualismo, abuso infantil, tráfico sexual, Aids, algumas vezes usando uma ou duas palavras mais explosivas – postas, é claro, em boa medida.

Como resultado de uma fusão intencional entre o cristão e o secular, esse cristianismo descolado frequentemente tem aparência de uma operação secreta. Não se consegue decifrar facilmente os elementos cristãos de um crente alternativo – ele é, na verdade, complexo nas suas encarnações, muito embora não seja tão diverso nos aspectos étnicos e socioeconômicos. Trata-se de um estreito subconjunto da fé, composto por uma maioria de evangélicos brancos e economicamente privilegiados. Outra marca distintiva do grupo é a música em seus cultos de adoração. Mantendo o pensamento universal de “evitar fazer o que todo mundo está fazendo”, muito comum entre eles, a maior parte das igrejas dessa linha foge ao estilo dominante das megacongregações com seu louvor estilo show de auditório – ao invés disso, preferem cânticos de louvor contemporâneos, muitos deles usando hinos bem antigos. Na Igreja Presbiteriana da Ressurreição em Williamsburg, no Brooklyn (o coração da cultura hipster mundial), onde a maioria dos membros têm menos de 25 anos, a música é intimista, acústica e reverente, com apenas um cantor e um instrumentista no altar.

Nas pregações alternativas, ideias como a da salvação final da alma e da ida para o céu são postas de lado em favor da noção de que o céu é que vai baixar à Terra e renovar a Criação partida. Tudo isso atrai a atenção dos adeptos para elementos como justiça social, meio ambiente e artes, porque, se Deus está construindo seu Reino na terra, então tudo aqui tem importância. Crentes descolados quase sempre defendem a causa dos oprimidos, como imigrantes e minorias, numa tentativa de trazer tais temas de volta à agenda religiosa. Eles também demonstram uma saudável apreciação pelas coisas boas da Criação, pelo detalhe e pela arte de filmes, músicas, livros e artesanato que sejam criativos e bem produzidos.

Em contrapartida, alguns se perguntam se esse tipo de cristianismo alternativo não está indo longe demais ao abraçar as chamadas coisas do mundo – especialmente quando essas coisas podem se tornar, indiscutivelmente, uma pedra de tropeço. Há quem suspeite que a receptividade rebelde de comportamentos reconhecidos como tabus, na verdade, em longo prazo, fará mais mal do que bem. Isso porque, para se tornar um alternativo, é preciso ser um rebelde. A despeito do fato de que, ironicamente, a cultura alternativa normalmente opere e seja sustentada dentro das estruturas às quais ela se opõe, a lógica do movimento é a rebelião contracultural que está sempre pressionando os limites. Por isso, principalmente nos Estados Unidos, a existência do grupo é frequentemente cheia de vícios. Se eles não podem superar completamente as estruturas que os amarram, eles podem ao menos desestabilizá-las, ao engajar-se num comportamento hedonista. A idéia é de valorizar a liberdade, a festa, a transgressão. Os hipsters americanos ridicularizam o que consideram preocupações burguesas, tais como “cigarros causam câncer” e “beba com moderação”, optando-se, ao invés disso, por aceitar tais vícios de forma imprudente, dizendo simplesmente “por que não?”.

SENSO CRÍTICO X SUPERFICIALIDADE

No Brasil, o movimento alternativo ainda não chegou com força. Mas já há ministérios com proposta parecida. Localizada no centro de São Paulo, a comunidade evangélica Projeto 242 oferece um modelo de fé contextualizada. O grupo é ligado à associação de igrejas Steiger, organização missionária internacional dedicada a alcançar jovens com um Evangelho que ofereça alternativas ao secularismo. “Compartilhamos de uma linguagem cultural e artística parecida, atenta à cultura jovem global”, define o pastor Sandro Baggio, 42 anos. Oriundo da Igreja do Evangelho Quadrangular, ele coordena uma congregação que reúne artistas em geral e gente ligada ao estilo de vida urbano. “Vivemos a tensão de ser uma comunidade conservadora teologicamente e liberal culturalmente, mantendo as crenças essenciais do cristianismo”.

O amálgama, segundo Baggio, tem dado certo. “Somos um grupo de pouco mais de 100 pessoas que se reúnem para os cultos e se identificam como membros. Nossa motivação não é a de sermos descolados, mas praticar um estilo de vida que tem atravessado 2 mil anos – às vezes se adaptando à cultura, outras contestando-a e subvertendo-a, mas sempre fundamentado na vida, obra e mensagem revolucionárias de Jesus Cristo”. Na mesma linha, embora em dimensões maiores, trabalha a igreja Caverna de Adulão, em Belo Horizonte (MG). O perfil alternativo, que atrai muitas pessoas consideradas desajustadas – integrantes de tribos urbanas, viciados em drogas e jovens rebeldes – já é expresso pelo nome da comunidade: segundo o Antigo Testamento, foi numa caverna na cidade de Adulão que Davi, fugindo da morte pelas mãos de Saul, refugiou-se com centenas de outros homens perseguidos e desesperados. Hoje, a comunidade é referência em missões urbanas.

“A Caverna tem duas características principais: informalidade e diversidade. Nós nos contrapomos à rigidez de modelos fortemente marcados por hierarquização e misticismo”, destaca o pastor Geraldo Luiz da Silva, um dos líderes da igreja. “Fugimos dos modelos que abusam de conceitos como autoridade, submissão ou cobertura espiritual”. Evangelista experiente, Geraldo tem longa trajetória no trabalho entre o público que encontra dificuldades de adaptação no sistema eclesiástico tradicional. “O conceito que temos buscado é o da busca da simplicidade na vida cristã”. No entanto, assinala, não se pode confundir uma atitude considerada descolada com superficialidade e falta de compromisso na vida cristã. “Precisamos incentivar os crentes a terem um senso crítico perante todas as questões da sociedade, inclusive com relação à Igreja. Isso não é, necessariamente, rebeldia”, opina o pastor. “Mas trabalhos alternativos cujo discurso se sustenta, prioritariamente, na crítica, costumam ser imaturos e infrutíferos. Creio que o trabalho sério e dedicado seja a melhor resistência àquilo que rejeitamos.”

Encontrar a medida certa entre a rebelião pura e simples e a liberdade em Cristo parece ser o desafio da juventude cristã alternativa tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Contudo, até que ponto o flerte com coisas consideradas pecaminosas pela grande maioria dos evangélicos pode ser arriscada? E se a correção de rota que os alternativos de Jesus propõem não for melhor do que os modelos vigentes? No final das contas, o que significa mais esse movimento para a Igreja de Jesus Cristo? Quem atua no evangelismo entre a juventude reconhece o valor de iniciativas que levem a uma conscientização maior perante a sociedade, mas desde que não se abra mão de princípios basilares. “A Igreja, como a conhecemos, não é o modelo ideal, até foge a princípios bíblicos”, aponta Elias de Oliveira, pastor evangélico e idealizador do Vivos, ministério virtual que se apresenta na internet como um canal que oferece suporte aos que estão necessitados de avivamento pessoal e retorno à verdade da Palavra de Deus, dentro ou fora dos modelos eclesiásticos. “No entanto, essa Igreja é o que temos, e é possível que ela seja santa e se enquadre verdadeiramente na visão de Deus e desenvolva com êxito a sua missão maior, a de anunciar o Evangelho.”

Esse tipo de cristianismo vai trazer de volta o jovem e os decepcionados com a igreja, ou, ao invés disso, vai alienar ainda mais uma geração farta de ser alvo do mercado? Ele terá a capacidade de corrigir problemas do cristianismo face à cultura e a sociedade ou irá desaparecer como mais uma moda passageira? Essas são questões que permanecem abertas. “O que vemos na história da Igreja é o surgimento de movimentos os mais diversos. Jesus Cristo afirmou que tudo passa, mas que a sua Palavra permanece para sempre”, lembra o teólogo e educador cristão Jorge Rocha Gonçalves, membro da Igreja Batista Missionária em Pernambuco. “Já Paulo defendia que o Evangelho fosse pregado de qualquer jeito. Nada escapa aos olhos do Senhor”. Enquanto isso, o cristianismo alternativo é, algumas vezes, encorajador; outras, ameaçador – porém, desponta como um fenômeno fascinante, que desafia a compreensão fácil do tipo “sim” ou “não”. E é precisamente assim que ele prefere se manifestar.
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Fonte: Cristianismo Hoje

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