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A Maravilhosa Graça de Deus - segunda parte


O que é a graça de Deus? A graça de Deus é restrita ao Novo Testamento ou podemos encontrá-la também no Antigo Testamento? Qual a sua abrangência? Como é demonstrada? Quais são seus benefícios?

Desde muito cedo, todo ser humano aprende a ganhar coisas pelo seu próprio esforço. Especialistas dizem que cada boa ação da criança deve ser recompensada, para que ela se sinta encorajada a repetir a ação. Nas escolas, quanto melhor e mais inteligente ela for, mais prêmios tem. A coisa não muda muito, na fase adulta. O mercado procura pessoas qualificadas. Você precisa se qualificar o máximo possível para ter um bom emprego, para não ter de depender dos outros, para poder se sustentar do “próprio suor”, de forma digna. Sem entrar no mérito de tudo isso ser certo ou errado, é bem provável que seja por crescer nesse ambiente que a maioria de nós tem tanto problema para entender corretamente a graça de Deus; afinal, não gostamos da ideia de receber a vida eterna por causa de uma “caridade celestial”. Queremos estar no céu por merecê-lo! Neste sentido, a mensagem da graça nos choca. Mas vamos à Bíblia.

Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. (1 Pd 5:10)

1. Compreendendo o que é graça

Precisamos entender as palavras usadas na Bíblia, que trazem a ideia de “graça” – às vezes, são traduzidas assim –, antes de apresentar um conceito. Fazemos questão de analisar essas palavras também no Antigo Testamento, para que não haja a impressão de que graça é um conceito do Novo Testamento apenas. No Antigo Testamento, as duas principais palavras que transmitem o conceito de graça são: hen e hesed. A primeira delas aparece cerca de 200 vezes e, geralmente, é traduzida por “ser gracioso”, “mostrar favor” ou “achar graça” (cf. Gn 32:5; 39:4; 1 Sm 16:22; 20:3; Ex 12:36). Denota favor, na maioria das vezes, de um superior para com o inferior. [1] É “o mais forte que vem ao socorro do mais fraco que precisa de socorro por causa das suas circunstâncias ou da sua fraqueza natural”. [2] Este mais forte, age mediante uma decisão voluntária. Quando a expressão é usada no relacionamento de Deus com o ser humano, indica que Deus se manifestou gracioso para a pessoa envolvida, independentemente dos méritos desta (cf. Gn 6:8; Êx 33:12-13,17; 2 Sm 15:25).

A outra palavra, hesed, aparece cerca de 250 vezes, no Antigo Testamento. É traduzida, geralmente, por “bondade”, “benignidade”, “misericórdia”, e, às vezes, por “graça” (cf. Lm 3:22; Gn 19:19; 32:10; Nm 14:19). Um exemplo do termo traduzido por “graça” é Salmo 89:28, na Almeida Revista e Atualizada: Conservar-lhe-ei para sempre a minha graça e, firme com ele, a minha aliança. A palavra se refere a atos de compaixão realizados espontaneamente ou em resposta ao apelo de alguém em extrema aflição. Quando aplicada ao relacionamento de Deus com os seres humanos, significa que esses atos de Deus são, em sua maioria, decorrentes de sua aliança com seu povo, mas não estão fundamentados em obrigações, senão na bondade de Deus, pois ele contraiu aliança livremente com os seres humanos. [3] Fora de Israel, por exemplo, entre os pagãos, para se estar em aliança com algum deus, o indivíduo precisava fazer algo. Daí por que a aliança de Deus com Israel é diferente. O povo não fez nada para Deus o escolher (Dt 7:6-8). O Deus do Antigo Testamento é gracioso (Lm 3:22).

No Novo Testamento, a palavra usada 154 vezes para se referir à graça é charis. Esta palavra geralmente é traduzida por “graça”, “favor”, “gratidão” ou “graças” (cf. Lc 1:30, 2:40; At 2:47, 4:33; 3:24). Sua raiz é char. Toda palavra que se origina desta raiz indica algo que produz bem-estar. No Novo Testamento, o emprego de “graça” como a ação ou “favor” realizado para o benefício de alguém é o que se destaca. Cabe dizer, também, que este favor não é baseado no mérito de quem o recebe, uma vez que demonstrar “graça é estender favor ou bondade a alguém que não a merece e que nunca poderá fazer nada para ganhá-la”. [4] No caso da graça de Deus, podemos dizer que é o favor imerecido dele ao ser humano, que atinge seu ápice na morte de Jesus na cruz. Então, grave isto: apesar dos vários usos dessa expressão na Bíblia, seu principal sentido teológico é o de favor imerecido de Deus, “demonstrado a pecadores culpados que só mereciam o juízo. (...) É Deus estendendo a sua mão para pessoas rebeldes contra ele”, [5] e justificando-as gratuitamente por sua graça (Rm 3:24).

2. Graça ontem, hoje e sempre

Você ainda se lembra do texto que inicia este estudo?  Leia a primeira parte dele novamente: Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória (1 Pd 5:10a). Para o apóstolo Pedro, Deus é o “Deus de toda graça”. É justo e também santo, mas não podemos esquecer que ele é gracioso. O próprio Pedro é a grande prova do que está afirmando. Ele “enfiou os pés pelas mãos”, como se diz popularmente, várias vezes, e, mesmo assim, Deus o escolheu para ser o principal porta-voz dos apóstolos, no dia de pentecostes. Pregou um sermão, e quase três mil pessoas renderam-se a Cristo (At 2:14-41). Além disso, foi esse mesmo Pedro que teve a oportunidade de abrir a porta de pregação para os gentios (At 10:34-44). Esse “Deus de toda graça” não começou a ser assim na época do Novo Testamento. Podemos ver claramente a graça divina no Antigo Testamento. Afinal, qual foi o mérito de Noé, que achou graça aos olhos de Deus, segundo Gn 6:8? Noé não era perfeito, e, logo depois de sair da arca, demonstrou isso (Gn 9:18-21).

Qual foi o mérito de Abrão, ao ser escolhido para ser o pai de todos que têm fé, segundo Gl 3:7? Será que foi o fato de ele fazer parte de uma família idólatra, como informa Js 24:2? Qual foi o mérito de Moisés, para que Deus o elegesse libertador dos hebreus? Foi o fato de ele ter assassinado um egípcio, de acordo com Êx 2:11-14? Qual foi o mérito de Davi, para ser chamado de “o homem segundo o coração de Deus”, em 1 Sm 13:14? Foi o fato de ter adulterado e, depois, matado o esposo da mulher com quem adulterara, como narrado em 2 Sm 11:1-16? Deus sempre foi o “Deus de toda graça”. Até quando escolheu o povo de Israel, não o fez por este ser numeroso, pois não era; na verdade, Israel era insignificante, diante das outras nações. Deus escolheu aquele povo porque o amava (Dt 7:7-8).

Quando chegamos ao Novo Testamento, continuamos a ver a graça de Deus. Qual foi o mérito de Maria, para que Deus a contemplasse, de acordo com Lc 1:47? Qual foi o mérito do mal quisto publicano Mateus, para receber de Jesus o convite: Segue-me, segundo o relato de Lc 5:27? Qual foi o mérito de Paulo, para ser chamado de perseguidor a perseguido, de acordo com 1 Tm 1:13? Esses exemplos nos mostram que “Deus é gracioso porque age graciosamente, ou seja, atua por graça, não por merecimento da pessoa”. [6] Ele foi, é, e sempre será o Deus de toda a graça. Graça ontem, hoje e sempre jorra do trono de Deus. Paulo disse, em Romanos 5:20: .... onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda. Não há quem seja tão sujo a ponto de a graça do Deus de toda graça não poder alcançar.

Os servos de Deus do Antigo Testamento foram salvos e abençoados pela fé naquele que viria; nós, os que vivemos depois da morte de Cristo, somos salvos e abençoados pela fé naquele que já veio.

3. A maior demonstração da graça

Já vimos que a graça é o favor imerecido de Deus, demonstrado em favor daqueles que mereciam o juízo. Ele faz isso porque é gracioso. A maior evidência dessa graça está estampada na obra de Jesus Cristo. O evangelho de João proclama, de forma magnífica, que a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo (1:17). Deus amou tanto o mundo que enviou o seu filho (Jo 3:16). A ação graciosa de Deus em favor da salvação do ser humano passa pela entrega do seu filho amado. Hoje, só podemos experimentar a graça por causa da morte de Cristo Jesus. Sendo assim, a morte de Jesus é uma expressão da graça. Todavia, os servos de Deus do Antigo Testamento, que viveram antes da morte de Cristo também experimentaram a graça de Deus, pois ele sempre foi gracioso. Os servos de Deus do Antigo Testamento foram salvos e abençoados pela fé naquele que viria; nós, os que vivemos depois da morte de Cristo, somos salvos e abençoados pela fé naquele que já veio. Um dia, ele voltará para buscar todos os seus filhos, os do passado e os do presente.

Essa graça, que, para nós, chegou gratuitamente, custou a morte do salvador; “pode parecer gratuita, mas o preço que Jesus pagou por nós foi terrivelmente alto”. [7] Tenha em mente que a morte de Cristo na cruz é a maior demonstração da graça de Deus, e só por causa dessa demonstração podemos desfrutar da graça. Em Romanos, Paulo trata sobre a justificação pela fé. Ele diz que é por meio do Senhor Jesus Cristo que obtivemos acesso pela fé a esta graça (5:1-2), ou seja, a justificação é graça, é favor imerecido e veio por meio de Jesus Cristo, assim como todas as outras bênçãos advindas da graça de Deus. Nós só podemos experimentá-las por causa de Cristo. Podemos encontrar essa verdade também na carta aos Efésios, no capítulo 2, em que lemos: ... para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus (v.7).

É interessante notar que o texto diz que a graça se desdobraria para as futuras eras. Não era só para aquele tempo. É para o nosso e também para o futuro. Em todo tempo, a suprema riqueza da graça demonstrada em Cristo poderá ser vista. A palavra “suprema” significa “o que extravasa”, que se faz presente “em excesso”. [8] A palavra riqueza mostra quão valiosa é a graça. Mesmo no céu, nós nos lembraremos dela, pois só chegaremos lá por causa da graça, que veio por Jesus.

Um dia, nós estaremos no céu, e lá não haverá exibicionismo; não haverá vanglória; não haverá testemunhos extraordinários que chamam à atenção para os feitos de uma pessoa; não haverá cristãos “mais espirituais”.

4. Graça para quê?

Agora, vamos refletir um pouco sobre os benefícios da graça de Deus. O principal deles, com toda certeza, é a salvação e a volta à comunhão com Deus (Ef 2:8; Rm 5:1 2). Somos salvos pela graça. Além de proporcionar salvação, a graça de Deus também é importante porque nos torna iguais. Se a salvação é pela graça e não depende do que fazemos, então, ninguém pode bater no peito e dizer que é mais importante. Em Efésios, somos informados de que a salvação não é pelas obras, para que ninguém se glorie (Ef 2:8). A Bíblia “A Mensagem”, em linguagem contemporânea, traduz este versículo dizendo que a salvação é um imenso presente de Deus! Não somos protagonistas nesta história. Se fosse o caso, andaríamos por aí nos vangloriando do que fizemos. Não! Um dia, nós estaremos no céu, e lá não haverá exibicionismo; não haverá vanglória; não haverá testemunhos extraordinários que chamam à atenção para os feitos de uma pessoa; não haverá cristãos “mais espirituais”. A razão é muito simples: todos estarão ali por uma só razão: a graça de Deus.

Precisamos da graça, igualmente, para recebermos sustento e provisões espirituais. Quando Paulo estava fraco, sofrendo com um espinho na carne, ouviu o seguinte do Senhor: A minha graça te basta (2 Co 12:9). A palavra “basta” tem o sentido de “ajudar, assistir”, “ser forte o bastante”, “ser suficiente”. Mesmo naquela fraqueza, Paulo teria força suficiente para prosseguir, pois contava com a graça de Deus. Por isso, disse a Timóteo, tempos depois, perto do fim de sua vida: Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus (2 Tm 2:1). Em outras palavras: “Busque força na graça”. Paulo sabia o que estava dizendo. João também testemunhou das bênçãos advindas da graça de Deus, em seu evangelho: Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça (Jo 1:16). Somos supridos constantemente pelo favor imerecido de Deus. Uma bênção mal acaba de chegar e a outra já está a caminho. Precisamos da graça de Deus para vivermos a vida cristã. Só começamos a fazer parte da família de Deus pela graça. Na caminhada com Deus, precisamos continuamente dela para nos tornamos cada dia mais livres do pecado e cada vez mais parecidos com Cristo. Estamos firmes por causa da graça (Rm 5:2).

Vivemos a vida cristã, na graça e pela graça. É por ela que obedecemos aos mandamentos de Deus. Isso é uma desculpa para pecar? De maneira alguma. A graça não é desculpa para uma vida de pecado (Rm 6:1). O oposto é verdadeiro: ela nos ensina a vivermos em santidade (Tt 2:11-13). É interessante, ainda, mencionar o uso da palavra “graça” nas saudações das cartas do Novo Testamento, bem como nas bênçãos finais. As cartas de Paulo começam com a saudação: A graça e a paz da parte do nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, e terminam com a bênção: A graça do Senhor Jesus seja com todos vocês. Este uso não é um simples desejo de que tudo vá bem; não é apenas um sinal de cortesia, mas a certeza de que a graça de Deus é a fonte propulsora da fé e da vida cristã e de que todos precisavam e precisam mesmo dela.

Praticando as verdades bíblicas

Cresçamos no entendimento da graça de Deus

É assim que o apóstolo Pedro termina a sua segunda carta: Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (3:18). Estamos diante de uma ordem: “Cresçam!”. Uma das solicitações é para que cresçamos “na graça”. Um dos significados mais exatos dessa ordem é que nos insta “a tornar- nos progressivamente mais conscientes da nossa falência espiritual e do favor imerecido” [9] de Deus. Que todos cresçam na graça, nesse sentido! Quanto mais fizermos isso, mais o nome do Senhor será glorificado. Quanto mais reconhecermos a nossa insignificância, mais o favor do Senhor se tornará evidente e mais seremos compelidos a obedecer-lhe e viver para a sua glória!


Cresçamos na dependência da graça de Deus

Você ainda lembra que no início deste estudo, dissemos que, desde muito cedo, aprendemos a ganhar as coisas pelo nosso próprio esforço? Todos nós crescemos nesse ambiente, e, de novo, sem querer entrar no mérito de estar certo ou errado, no mundo dos negócios e na vida em geral, não podemos transferir isso para o nosso relacionamento com Deus. A vida cristã deve ser orientada pela graça. Precisamos crescer continuamente na dependência da graça de Deus. Por mais que sejamos bons, nisto ou naquilo, só estamos vivos por causa da graça; só fomos alcançados por causa da graça, e só vamos para o céu, um dia, por causa da graça (Ef 1:6-7).

Concluindo

Esperamos em Deus ter contribuído com você, que ainda não entendia corretamente a graça de Deus. Ela é o favor imerecido, que Deus sempre mostrou e que atingiu sua expressão máxima na cruz, com a morte de Cristo. Nós precisamos da graça, para salvação, para sustento, para podermos viver a vida cristã. Cresçamos, então, continuamente, no entendimento e na dependência da graça de Deus. Foi esta graça que nos ajudou a caminhar até aqui e nos levará até o fim. Que o Deus de toda graça, por sua graça, nos abençoe.
Amém!

Leia aqui a primeira parte deste artigo

Bibliografia:

1. ALEXANDER, T. D.; ROSNER, B. S. (Ed.). Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Vida, 2009. pág.809

2. BROWN, Colin; COENEN, Lothar (Orgs.). Novo Dicionário Internacional de teologia do Novo Testamento. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. pág.909

3. ALEXANDER, T. D.; ROSNER, B. S. (Ed.). Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Vida, 2009. pág.809

4. SWINDOLL, Charles R. O despertar da graça. São Paulo: Mundo Cristão, 2009. pág.24

5. BRIDGES, Jerry. Graça que transforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. pág.21

6. BORTOLLETO FILHO, Fernando (Org.). Dicionário Brasileiro de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008. pág.461

7. SWINDOLL, Charles R. O despertar da graça. São Paulo: Mundo Cristão, 2009. pág.67

8. CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002, Vol. 4. pág.557

9. BRIDGES, Jerry. Graça que transforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. pág.84


DEC
PCamaral

2 comentários:

  1. Irmão vim fazer uma visita ao seu blog, li algumas coisas, e dou graças a Deus pelo seu empenho em proclamar a bendita Palavra. Quero porém deixar algo mais do que um simples comentário. Quero deixar estas palavras: Que escreva sempre com humildade, de todo o coração, e com muito amor, escreva principalmente as verdades vividas na sua vida, porque eu creio que o seu alvo e o meu é sermos úteis, e atingirmos o coração dos que lêem. Aproveito para fazer um convite. gostaria de te-lo como meu amigo virtual na Verdade que Liberta. As minhas saudações em Cristo Jesus.

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