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Os efeitos da graça de Deus

Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor. (Judas 4)

Você já ouviu falar em antinomismo? Trata-se de um termo de origem grega, que quer dizer “contra” (anti) a “lei” (nomos). Este termo retrata a postura daqueles que pensam que a graça de Deus é tão abrangente que “todo esforço para fazer o que Deus manda é desnecessário e até errado”. [1] Este é um pensamento equivocado. É uma distorção da doutrina da graça. Se você pensa que isso é algo do nosso tempo, está enganado. Judas há muito tempo, já havia alertado quanto àqueles que torcem a mensagem a respeito da graça de Deus (v. 4). Para não incorrermos no mesmo erro, veremos que, o fato de termos sido salvos pela graça não significa que podemos viver como bem entendermos.

Em uma de suas cartas, Paulo disse: portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! (2 Co 5:17 – NVI). Neste versículo, temos a afirmação de que aquele que está em Cristo recebeu uma vida totalmente nova. É interessante perceber que o texto começa com um “Portanto”, ou seja, está ligado ao que é dito antes. No versículo 14, lemos que Cristo morreu para que aqueles que vivem, já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Nós ganhamos vida nova em Cristo, pela graça, para vivermos para ele. Quando a salvação se resume a levantar a mão, num culto ou a colocar o nome no cartão de chamada de uma igreja, sem que a vida seja transformada, algo está errado; afinal, segundo a Bíblia, a consequência natural da graça é a obediência. Para que fique mais claro, reflitamos um pouco mais nessas questões.

A deturpação da mensagem da graça de Deus: Na época em que Judas, o irmão do nosso Senhor, escreveu sua carta aos que foram chamados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo (v. 1), a mensagem da graça estava sendo deturpada por alguns. Por isso, mesmo querendo escrever sobre a salvação, Judas percebeu que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé de uma vez por todas confiada aos santos (v. 3). Acontece que alguns homens com aparência de espirituais, dissimulados (v. 4), infiltraram-se no meio dos crentes em Jesus e levaram uma mensagem oposta à sã doutrina. Esses homens, na verdade, tinham aparência de ovelhas, mas eram lobos. Judas os chama de ímpios (v. 4). Mas o que fizeram? Eles transformaram a graça do nosso Deus em libertinagem (v. 4). A ideia do verbo “transformar” é “transpor”, colocar uma coisa no lugar da outra. Eles colocaram a libertinagem no lugar da graça de Deus. A palavra “libertinagem” também poderia ser traduzida por “desregramento”. Na verdade, eles estavam usando a graça de Deus como uma desculpa para levarem uma vida totalmente sem regras. A NTLH traduz assim este texto: ... torcem a mensagem a respeito da graça do nosso Deus a fim de arranjar uma desculpa para sua vida imoral. Esses homens pensavam, erroneamente, que a graça de Deus lhes dava o direito de pecarem desenfreadamente, ou que seus pecados “exaltavam” a graça de Deus. Paulo, combatendo a banalização da graça de Deus, disse: Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante? (Rm 6:1). Em outras palavras, temos a mesma pergunta: “Já que somos salvos pela graça, vamos continuar vivendo na prática habitual do pecado, para que a graça cresça mais e mais?” O mesmo Paulo que pergunta, responde: De modo nenhum! (v. 2a). A razão, segundo ele, é: Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morreremos? (v. 2b). Quem recebeu a salvação pela graça, ganhou uma vida nova; não pode mais viver sob o domínio do pecado e usar a graça como desculpa.
“Não foi a cruz que produziu a graça, mas a graça que produziu a cruz”
A manifestação da graça: É importante entendermos corretamente a manifestação da graça de Deus e os propósitos desta. Fazendo isso, dificilmente conseguiremos usar o argumento dos deturpadores da graça, apresentado no item anterior. A carta a Tito afirma: Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (2:11). “Manifestar” é tornar-se visível, aparecer (gr. epiphaino). No grego clássico, essa palavra era usada em relação à alvorada, “ao amanhecer, quando o sol transpõe a linha do horizonte e se torna visível”. [2] A graça de Deus apareceu no horizonte, salvadora, para todos os homens. É interessante notarmos que o sol já existe, mesmo antes de aparecer. Deus sempre foi o “Deus de toda graça”. Todavia, esta se tornou visível através do Senhor Jesus Cristo, que se entregou por nós (Tt 2:14). Atente para esta importante observação: “Não foi a cruz que produziu a graça, mas a graça que produziu a cruz”. [3] Por ser gracioso, Deus enviou seu Filho, e a graça se manifestou salvadora. O que não podemos esquecer, também, é que, além de salvadora, esta graça é transformadora. Jesus se entregou por nós, e a graça se manifestou com propósitos. Observe com atenção ao que o texto diz: ... a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à pratica de boas obras (Tt 2:14). A graça nos salva do pecado para que sejamos capazes de viver uma vida santa. Ela é o fundamento de uma vida santa. Por isso mesmo, é inadmissível aceitar que alguém que diz ter sido salvo pela graça viva uma vida desregrada, ignorando a lei de Deus.

As consequências da graça: Nós fomos salvos para obedecer. Estávamos mortos em delitos e pecados, mas Deus, por sua graça, nos vivificou (Ef 2:1-5). Qual o propósito divino em operar tamanha transformação? Para que ele nos deu nova vida? A Bíblia nos informa que fomos criados em Cristo Jesus para as boas obras (Ef 2:10). A preposição “para”, que aparece nesse texto, tem um significado profundo. Muito mais do que dizer meramente que as boas obras eram o propósito da nova vida, significa que as boas obras “fazem parte” da nova vida, como condição inalienável. [4] Apesar de a nossa salvação ser exclusivamente pela graça e não pelas obras (Ef 2:8-9), estas têm um lugar essencial na vida do crente em Jesus, como fruto da salvação pela graça, ou seja, apesar de não sermos salvos pelas obras (Ef 2:9), fomos salvos para andarmos nelas (Ef 2:10). Elas são os sinais visíveis da nova vida em Cristo. O mais curioso é que a mesma graça presente na justificação está presente na santificação. Quem nos leva a esta obediência é a própria graça. O capítulo 2 de Tito ainda diz, no versículo 12, que ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente.

Você prestou atenção no que acabou de ler? O Senhor Jesus quer purificar um povo dedicado às boas obras, e a graça é que nos educa a isso. Na escola da graça, aprendemos a não andar guiados por nossas paixões, mas a viver de maneira correta, conosco mesmos, com o próximo e com Deus. A graça nos ensina nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (Tt 2:12-13). Veja que essas expressões referem-se à vida presente, à santificação. Até a volta de Cristo, a graça nos ensinará a viver para a glória de Deus. Observe que, nos dez primeiros versículos do capítulo 2 de Tito, são apresentadas várias orientações para a vida cotidiana. São instruções para que os cristãos vivam de acordo com a sã doutrina. Depois de apresentá-las, Paulo inicia este trecho que estamos estudando. Ele começa, no versículo 11, com um “porque” ou “porquanto”, dependendo da versão bíblica, ou seja, a razão para a conduta correta dos versículos 1-10 é a graça educadora de Deus, apresentada nos versículos finais.
Uma parábola que retrata os efeitos da graça: Jesus contou uma parábola que, de alguma maneira, serve para ilustrar os efeitos da graça de Deus. Encontra-se em Mateus 18:21-35, e trata sobre um rei que decidiu colocar em ordem as suas contas com os seus servos. Ao fazer isso, esse monarca deparou-se com um servo que lhe devia uma soma de dinheiro impossível de se imaginar, na economia da Palestina: dez mil talentos. Era muito dinheiro. Para termos uma ideia da dimensão da dívida, podemos compará-la com a informação de que Herodes Agripa ganhava um salário anual de 200 talentos. O homem mais poderoso daquela região ganhava 200 talentos anuais. O servo devia 10000 talentos! Um talento era equivalente a seis mil denários. O denário era o salário pago por um dia de trabalho do trabalhador comum. Então, para conseguir um talento, trabalhando seis dias por semana, um trabalhador levaria 1000 semanas! O que Jesus quis mostrar, com essa parábola, era que a dívida daquele servo era impagável. Tanto é verdade que o rei ordenou que o servo, sua esposa, seus filhos e tudo o que ele tinha deveriam ser vendidos para pagar a dívida. Foi, então, que o empregado rogou paciência, dizendo que, um dia, pagaria a dívida. O rei sabia que isso seria impossível, mas resolveu cancelar a dívida, frente aos clamores do endividado. O rei o perdoou livremente. Esse homem, alvo de tamanha graça, não teve o seu coração afetado. Ao se deparar com alguém que lhe devia um valor muitíssimo menor, não teve piedade. O devedor do servo perdoado teria de pagar-lhe 100 denários, valor referente a cem dias de trabalho. Este credor agarrou-o pela garganta e exigiu o pagamento imediato da dívida. Não teve a mínima compaixão e mandou-o para a prisão. Quando o rei ficou sabendo, também cancelou o perdão e mandou o servo para a prisão. Não devemos, de maneira alguma, nos desviar da seriedade da questão apresentada nessa parábola. Quando Deus, em seu amor, cancela a dívida de nossos pecados, temos obrigação de agir com o mesmo amor em relação ao semelhante. O amor que Deus nos demonstra deve levar-nos a viver para agradá-lo. E nós o agradamos agindo com o próximo como ele age conosco. Isso é viver da graça. Sob a ótica da graça, a obediência é vista como uma resposta amável à salvação providenciada por Jesus Cristo. Nós fomos alvos da graça e, por isso, precisamos viver para a glória de Deus. Precisamos viver de maneira agradecida por tão grande salvação e tão grande preço pago por nossa libertação. Como não atender às leis desse Deus? Como não viver para ele? Como disse Paulo: O amor de Cristo nos constrange (2 Co 5:14). O amor não nos obriga, não nos força, mas, sim, nos constrange, isto é, nos impele a viver para Cristo (v. 15). Não era o medo das consequências, nem o desejo de ser recompensado a força motriz da vida de Paulo. Era o amor de Cristo. O que Deus fez por nós, em Cristo, deve ser a fonte de sustentação e motivação constante da nossa vida. É assim que a graça, que se manifestou salvadora, nos ensina a viver, dia a dia.


APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA

1. Como salvo pela graça, diga não a tudo que é mau. Temos visto, até aqui, que a graça de Deus, longe de ser uma desculpa para praticarmos o pecado, ensina-nos a renunciar à impiedade e às paixões mundanas (Tt 2:12b). A palavra “renunciar”, que aparece, neste texto, traz a ideia de uma ação consumada de uma vez por todas, e poderia ser traduzida por “ser capaz de dizer não”. A graça ajuda-nos a dizer não para a impiedade e para as paixões mundanas. Você é salvo pela graça? Diga não a uma vida desregrada. Cuide dos seus pensamentos, dos seus desejos, da sua conduta; não entre em trapaças, negócios escusos, fraudes de notas fiscais etc. Diga não ao desejo sexual ilícito. Diga não a sua velha maneira de viver. Não sirva mais ao pecado (Rm 6:6). A graça de Deus o capacita!

2. Como salvo pela graça, diga sim a tudo que é bom. A vida cristã não inclui apenas deixar de fazer certas coisas, mas também começar a fazer outras. Não é só um mudar de posição, mas, sobretudo, um mudar de atitudes. A graça de Deus educa-nos para que vivamos neste mundo de maneira sóbria, justa e piedosa (Tt 2:12b). Esses “três advérbios que Paulo emprega definem sucessivamente o relacionamento do cristão consigo, com o próximo e com Deus”. [5] Viver de maneira sóbria é ter autocontrole ou domínio próprio. É o jeito certo de lidar consigo mesmo. Viver de maneira justa é viver segundo a justiça. Diz respeito ao relacionamento correto com o próximo. Viver de maneira piedosa é viver com verdadeiro fervor e reverência a Deus. É relacionar-se corretamente com ele. A graça educa-nos a viver através da lei de Deus. É assim que você tem vivido? Se não é, comece o quanto antes.

CONCLUSÃO

Definitivamente, os antinomistas não têm razão em suas concepções. A graça que nos salva é a mesma que nos educa para a obediência. A evidência da graça, na vida de uma pessoa, é a obediência aos mandamentos. Não somos salvos por obedecer, mas somos salvos para obedecer. Graça e lei precisam andar sempre juntas. A graça sempre nos levará à obediência à lei. Esta é a nossa resposta de gratidão a tudo que Deus fez por nós. Foi o próprio Jesus quem disse: ... se alguém me amar, obedecerá a minha palavra (Jo 14:23). Por isso, nós, que fomos salvos pela graça, digamos não a tudo que é mau e sim a tudo que é bom.

A graça de Deus nos ajudará.



Bibliografia

1. SHEDD, Russell P. Lei, graça e santificação. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1998. pág. 29
2. LOPES, Hernandes Dias. Tito e Filemom. São Paulo: Hagnos, 2009. pág. 92
3. LOPES, Hernandes Dias. Tito e Filemom. São Paulo: Hagnos, 2009. pág. 93
4. FOULKES, Francis. Efésios: introdução e comentário. 2 ed. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983 pág. 66
 5. LOPES, Hernandes Dias. Tito e Filemom. São Paulo: Hagnos, 2009. pág. 96

DEC - PCamaral

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