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O que é Dele é nosso

Porque, como o jovem se casa com a virgem, assim teus filhos se casarão contigo; e como o noivo se alegra da noiva, assim se alegrará de ti o teu Deus. (Isaías 62:5)

Sermos feitos santos e justificados é uma obra de Deus em nós, e não algo que fazemos nós mesmos.

Por Sarah Hinlicky Wilson
Imagem: Objectiva Fotografia
Imagine isto: noiva e noivo saem da igreja, passando pela tradicional chuva de arroz, e entram na limusine que os espera do lado de fora, com os olhos brilhando de amor um pelo outro. No banco traseiro, a caminho da festa, eles se abraçam e se beijam. E então, o noivo anuncia que tem algo a dizer. “Bom, meu amor”, ele começa, “em minha opinião, nós não podemos dizer que estamos casados de fato, porque eu ainda não sei que tipo de esposa você será. Eu sou otimista, é claro, e vou fazer a minha parte da melhor maneira possível. Mas só no fim de nossas vidas é que poderei dizer se você correspondeu às minhas expectativas”. Ante a estranheza da, agora, esposa, o homem continua: “Só então poderei dizer que nós realmente nos casamos hoje. Mas, se eu me decepcionar com seu desempenho como esposa, não considerarei este casamento. Afinal de contas, como poderei chamá-la de ‘minha mulher’, se você não for capaz de ser uma boa esposa para mim?”

Em tais circunstâncias, os recém-casados provavelmente não teriam uma lua de mel muito agradável. Uma mulher não pode ser uma boa esposa se sua vida estiver sob análise constante – e o mesmo serve para o marido, evidentemente. Tanto ela como ele certamente falharão em sua vida em comum. Só que aquele noivo não entendeu absolutamente nada do que acabou de acontecer. Os votos matrimoniais consistem de um ato voltado para o futuro, não de um julgamento com base no passado. Um casal que oficializou a união há apenas 60 minutos, por exemplo, é tão casado quanto um que celebra bodas de ouro. O que quer que aconteça ao longo do casamento não altera o status de “marido e mulher” de um casal.

Mas seria um igualmente ruim se a noiva dissesse o seguinte discurso a seu noivo: “Que bom que você se casou comigo. Eu sempre quis ser casada! O que mais me importa, no entanto, é o status; eu estava cansada de ser uma mulher solteira. Então, vou ficar com você e nunca vou me divorciar, mas não espere intimidade, amizade ou desejo de minha parte. Já consegui tudo o que queria, e já dei tudo o que pretendia dar a você”. Ora, ela está certa ao dizer que ambos estão verdadeiramente casados, mesmo que amor e devoção não sejam incluídos nessa relação (apesar de suas chances de permanecer casada com o mesmo homem para sempre serem bem pequenas diante disso). Mas, apesar de ter compreendido o significado dos votos, ela não entendeu o motivo porque foram feitos. Não se trata, simplesmente, de ter o status de mulher casada; trata-se do que essa condição representa. Os votos que iniciam um casamento no primeiro dia são a base de confiança na qual a relação deve se apoiar para sempre. Um casal nunca se torna mais casado do que no dia de seu casamento; no entanto, com o passar dos anos, eles devem ter mais confiança um no outro, mais amor e mais intimidade.

Comparar a nossa relação com Deus com o casamento é uma ferramenta teológica milenar. O livro de Oseias, os evangelhos, a epístola aos Efésios e o Apocalipse usam metáforas da relação entre noivo e noiva para ilustrar a relação divino-humana. A maioria dos estudiosos medievais consideravam que o livro de Cânticos dos Cânticos possuem uma temática que se trata mais da relação de Deus e a alma, ou de Cristo e a Igreja, do que de uma relação amorosa entre um homem e uma mulher. O teólogo Bernard of Clairvaux até concebeu um casamento espiritual místico entre Deus e a alma humana.

Martinho Lutero, por sua vez, achou que o imaginário de Clairvaux capturava lindamente sua compreensão a respeito da justificação humana através da fé. Ele deu início à Reforma com sua objeção à crença na justificação humana através das obras, ou seja, a noção – pregada implícita ou explicitamente na igreja – de que a salvação do pecado depende de nós e de nossos esforços para sermos retos aos olhos de Deus. Porém, poucos anos mais tarde, alguns de seus próprios seguidores deturparam suas palavras, indo além ao afirmar que as boas obras não só eram desnecessárias para a vida cristã como, também, podiam ser altamente prejudiciais, levando as pessoas a confiarem em si mesmas. Para Lutero, tal distorção da verdade era tão grave quanto a antiga crença tradicional. Ambas tinham como premissa a mesma falha: a ausência de Cristo.

Por estar tão certo da presença de Cristo pela fé, Lutero amou o imaginário conjugal de Bernard e da Bíblia. Em um sermão do início de sua carreira – provavelmente, em 1519 –, intitulado Dois tipos de justiça, o reformador prega: “Assim como um noivo possui tudo o que é de sua noiva, e ela, tudo o que é de seu noivo – porque ambos formam uma só carne –, da mesma forma Cristo e a Igreja são um só espírito”. Nessa troca, nosso pecado, com sua consequente morte e condenação, passam a ser de Cristo, enquanto que a santidade do Senhor passa a ser nossa. (1 Cor. 1:30). Apenas depois de termos recebido a “justiça” de Cristo, segundo Lutero, é que alcançamos uma justiça “adequada”. Para ele, um Deus que exige boas obras como condição para nossa salvação é tão ruim quanto o noivo na limusine. Afinal, como poderíamos saber se fizemos o bastante? Quanta retidão seria necessária para que passemos da condenação para a salvação? E como conseguiríamos amar a um Deus que está nos vigiando constantemente à procura de falhas, como um gavião faminto à espreita da presa? Ao ler as cartas de Paulo repetidas vezes, Lutero finalmente entendeu que a santidade não é algo que geramos dentro de nós e depois oferecemos a Deus. A santidade é algo que Deus nos dá – e é por esta razão que podemos confiar nele e amá-lo.

No entanto, Martinho Lutero sabia que receber a santidade (ao invés de obtê-la por nosso próprio esforço) teria alguns efeitos em nós. Ele, provavelmente, não esperava que nos tornássemos como a noiva cruelmente indiferente, interessada apenas nos benefícios do casamento, sem prometer amor ou devoção em troca. Em vez disso, “nossa alma já não procura a santidade em si mesma, mas tem a Cristo como sua justiça, e, portanto, busca apenas o bem-estar dos outros”. Em outras palavras, somente quando as boas obras não são condição para a salvação – e quando a santidade é um presente de Deus, ao invés de um pagamento de nossa parte – é que podemos verdadeiramente executá-las. Elas são importantes; não para Deus, já que não são necessárias para a justiça divina, mas para o nosso próximo, e para a própria terra, que Deus nos deu como presente na criação, antes mesmo de nos oferecer a santidade.

PELA GRAÇA OU PELA FÉ?

Sermos feitos santos e justificados é uma obra de Deus em nós, e não algo que fazemos nós mesmos. Mas onde entra a fé em tudo isso? E por que Lutero insiste que somos justificados pela fé? Não bastaria dizer que o somos pela graça? Muitos pensam que a “justificação pela graça” é a expressão mais precisa, já que coloca a ênfase na ação de Deus, e não na nossa. Já a expressão “justificação pela fé”, por outro lado, parece sugerir que, na verdade e no fim das contas, cabe a nós termos fé: ou seja, seria novamente a salvação através das boas obras, sendo a fé considerada a boa obra “final”.

Mas, ao contrário das polêmicas protestantes, ninguém, em toda a tradição cristã – nem Tomás de Aquino e nem seu diversificado grupo de colegas medievais –, jamais contestou que a justificação é pela graça. O problema é que a graça divina, apesar de um poderoso conceito, envolve certa ambiguidade. O que ela faz, exatamente? Lutero acreditava que alguns de seus antecessores, principalmente o estudioso alemão Gabriel Biel, sustentavam a ideia de que a graça trata-se de uma assistência divina para uma natureza humana eminentemente capaz de buscar a justiça, porém muito preguiçosa ou desinclinada a alcançá-la sem alguma ajuda. Para Biel, o fato de Deus ter proporcionado qualquer oportunidade de salvação para o homem depois de sua queda, já era uma graça maravilhosa; deveríamos ser gratos, então, por Deus ter nos concedido uma chance de darmos nosso melhor na tentativa de acumular boas obras. Em suma, a graça possibilitaria, com a ajuda de Deus, que salvássemos a nós mesmos. Mas salvarmos a nós mesmos continuaria sendo como que uma obrigação – e, para Lutero, isso não era uma “boa nova”, mas algo semelhante a um voto matrimonial feito de maneira condicional.

Segundo Lutero, para explicar por que a justificação é pela fé, é preciso primeiro ter uma visão mais clara da graça. Nossa fé começa com o Espírito Santo vindo graciosamente até nós, nos sondando. O trabalho do Espírito é trazer a crucificação e a ressurreição de Jesus Cristo para nossas próprias biografias e circunstâncias, apesar de todas as limitações de tempo e espaço. Através do batismo, o Espírito nos diz: “Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”, conforme Romanos 5.8; e então, o Pai promete perdoar todos os nossos pecados e conceder-nos a justiça de Cristo, concedendo-nos nova vida no reino dos céus. É essa a promessa que o Espírito traz. Porém, não podemos ver essa realidade agora. Deus concede provas empíricas em raras ocasiões, e mesmo assim elas nem sempre são capazes de convencer – basta lembra o caso de Gideão, duvidando mesmo diante da evidente ação de Deus molhando ou secando a lã. E o que dizer dos discípulos de Jesus, que, segundo o final do evangelho de Mateus, viram Cristo ressuscitado e ainda assim não creram? A única maneira de se receber uma promessa é crendo nela. As Escrituras afirmam que crer nas promessas de Deus conta como justiça (Romanos 4.5).

Mas a ansiedade permanece. Como podemos saber que, realmente, temos fé na promessa? Fé verdadeira, fé suficiente – aquela fé que justifica? Se achássemos que temos a resposta, seria então um equívoco tão grande quanto confiarmos em nossas próprias boas obras. Felizmente, Deus tem a resposta! Pois é Cristo, trazido dos céus à terra pelo Espírito, quem crê através de mim, como Paulo afirma: “Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20). Cristo habita em mim, e então, o Pai me julga como santo – porque o Pai me concedeu a santidade de seu Filho, e através do Espírito eu a recebi. Em uma compreensão correta da justificação, não existe competição entre “a fé em Cristo” e “a fé de Cristo”; ambas fazem parte da mesma realidade.

É por isso que Martinho Lutero, de acordo com Paulo em Romanos 3.28, e em outras passagens, argumenta que somos justificados com Deus, pela fé. E essa fé é tão grande que pode até nos assegurar a respeito de nossa salvação. Tal posicionamento horrorizou seu oponente Cajetan, o cardeal italiano, que considerava semelhante afirmação uma presunção equivalente à “construção de uma nova igreja”. Sobre a última suposição, Cajetan estava, infelizmente, profeticamente correto. Mas, nos séculos seguintes, a compreensão de Lutero a respeito da fé também sofreria distorções nas mãos de colegas protestantes. A fé se tornou um salto no escuro, separada das boas novas concretas da morte e ressurreição de Cristo. Ela foi rebaixada a um simples conhecimento intelectual, um tipo de crença que, dentre outras coisas, promove grande hostilidade em relação a que não é cristão. Essa fé transformou-se em um turbilhão psicológico, onde somos salvos apenas se acreditarmos o suficiente – contudo, se perguntados se cremos o suficiente, começamos a achar que, lá no fundo, não cremos nem um pouco. Mas a fé de Cristo é resistente o bastante para lidar com nossas dúvidas; ela transforma não apenas nossas mentes, como, também, nossos corações, cortando pela raiz qualquer tipo de autocongratulação cristã, já que se trata de um trabalho vivo, de um Deus vivo.

VIDA JUSTIFICADA

As implicações da justificação pela fé são enormes. Na igreja primitiva, a crença nessa justificação quebrou as barreiras entre judeus e gentios, fazendo com que a união entre diferentes grupos étnicos fosse possível. Ela também contestou a igreja medieval por vender, através das chamadas indulgências, aquilo que Deus dá abundantemente e de graça. A justificação pela fé estoura a bolha de cristãos bem comportados, que acham que suas vidas santas os separam dos miseráveis e ímpios; ela anima o cansado, que tenta e não consegue produzir frutos de santidade, lembrando que todos nós dependemos de uma santidade que não é nossa. Essa justificação nos dá a coragem para confessarmos nossos pecados, ao invés de cobri-los, já que não precisamos mais nos esforçar para obter a salvação. E ela até mesmo diminui a ansiedade que temos a respeito da própria fé, confirmando que a nossa fé é a fé de Cristo, e não uma conquista que podemos creditar a nós mesmos.

De fato, conforme Lutero supôs naquele sermão há quase 500 anos, a justificação pela fé transforma não apenas nossa alma, mas também nossas relações sociais, inclusive as nocivas, que muitas vezes caracterizam a vida na igreja: “Pois você é poderoso, não para tornar os fracos ainda mais fracos através da opressão, mas para fazê-los poderosos, levantando-os e defendendo-os. Você é sábio, não para zombar do tolo, tornando-o, dessa forma, ainda mais tolo, mas para ensiná-lo da mesma maneira que gostaria de ser ensinado você mesmo. Você é justo a fim de justificar e perdoar os injustos, e não para condenar, menosprezar, julgar e punir”. Jesus nos deu aquilo que tinha; por sua vez, nós, cristãos, devemos dar ao próximo aquilo que temos.

A doutrina da justificação significa que a justiça de Cristo é uma dádiva incondicional aos ímpios. Significa que a fé tem mesmo o poder para mover montanhas – principalmente, as montanhas da culpa, orgulho e desespero que pesam em nossa alma. É como Lutero escreveu sabiamente a seu amigo e colega, Philip Melanchthon: “Se você é um pregador da graça, pregue então uma graça verdadeira, e não fictícia; se a graça for verdadeira, você deve ter um pecado também verdadeiro, e não fictício. Deus não salva pecadores fictícios. Seja um pecador e peque com ousadia, mas creia e regozije-se em Cristo ainda mais ousadamente, pois ele é vitorioso sobre o pecado, a morte e o mundo.”


Sarah Hinlicky Wilson é professora assistente no Instituto de Pesquisa Ecumênica, em Estrasburgo (França), e editora do Fórum Luterano

Fonte: Cristianismo Hoje | Imagem Objectiva Fotografia | Tradução: Julia Ramalho | Compartilhado no PCamaral

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