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Os inteiramente humanos são especiais

Então voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve. (Malaquias 3:18)

Publicado originalmente em Revista Ultimato

Pelo conteúdo de sua carta e por sua linguagem sem rodeios, Tiago, o “servo de Deus e do Senhor Jesus” (Tg 1.1), parece mais um profeta do Antigo Testamento do que um pastor de almas. Para nos encorajar na prática da oração, ele nos surpreende com a afirmação de que o profeta Elias, que viveu no nono século antes de Cristo, “era tão inteiramente humano quanto nós” (Tg 5.17, CV). Outras versões preferem dizer “era humano e frágil como nós” (5.21) ou “um homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos [ou às mesmas paixões]”, na tradução revista e atualizada de Almeida. Isso não impedia que o profeta orasse para não chover -- “durante três anos e meio não choveu” e, depois, para chover “então choveu e a terra deu a sua colheita” (Tg 5.17-18). Os inteiramente humanos são especiais.

Elias era inteiramente humano

Depois de enfrentar com absoluto sucesso os 450 profetas de Baal e outros 450 da deusa Aserá, a divindade favorita dos cananitas, que tinham a cobertura oficial do governo (1Rs 18.19-40), Elias ficou com medo da ameaça de Jezabel, esposa do rei Acabe. Então, “para salvar a vida, fugiu com o seu ajudante para a cidade de Berseba. Deixou ali o seu servo e foi para o deserto, andando um dia inteiro. Aí parou, sentou-se na sombra de uma árvore e teve vontade de morrer. Então, orou assim: ‘Já chega, ó Senhor Deus! Acaba com a minha vida! Eu sou um fracasso, como foram os meus antepassados’” (1Rs 19.3-4).

Jeremias era inteiramente humano

Apesar de ter comunicado o juízo de Deus muitas vezes por 23 anos seguidos e enfrentado com coragem torturas, prisões e ameaças de morte, Jeremias, a certa altura da vida, mostrou-se muito abatido: “Como é dura a minha vida! Por que a minha mãe me pôs no mundo? Eu tinha de discutir e brigar com toda a gente desta terra. Não emprestei dinheiro, nem tomei emprestado, e mesmo assim todos me amaldiçoam [...]. Não tenho gasto o meu tempo rindo e gozando a vida com outras pessoas. Por causa do trabalho pesado que me deste, fiquei sozinho e muito indignado. Por que continuo a sofrer? Por que as minhas feridas doem sem parar? Por que elas não saram? Será que não posso confiar em ti? Será que és como um riacho que seca no verão?” (Jr 15.10-18).

Baruque era inteiramente humano

No ano 605 antes de Cristo, depois de escrever duas vezes num rolo a mensagem de Deus para o povo, de ler tudo o que havia escrito primeiro no templo e depois no palácio de Jeoaquim e de ver o rei picar todo o livro com uma faca e jogá-lo na lareira (Jr 36.20-32), Baruque, secretário de Jeremias, teve uma crise de desânimo. Foi quando ele disse: “Eu desisto! O Senhor Deus aumentou a minha tristeza e o meu sofrimento. Estou cansado de gemer e não consigo descansar!" (Jr 45.1-5).

Asafe era inteiramente humano

O autor do Salmo que descreve o relacionamento de Deus com o povo na história de Israel (Sl 78) e do Salmo que compara Israel a uma parreira trazida do Egito e plantada em Canaã (Sl 80) deve ser o mesmo compositor do Salmo mais humano de todos (Sl 73). No meio de uma crise de fé sem precedentes, Asafe confessa que o relacionamento com Deus está por um triz: “Quase tropecei e caí e por pouco não abandonei o caminho certo” (Sl 73. 2). Foi um momento de profundos questionamentos. Dúvidas filosóficas tomam conta dele: os ímpios não sofrem e os justos sofrem; os ímpios são fortes e cheios de saúde e os justos estão sempre doentes; os ímpios ficam cada vez mais ricos e os justos, cada vez mais pobres. Enquanto os justos se dominam e se desviam do pecado, negando-se continuamente, os ímpios são orgulhosos, fazem uso da violência, têm a mente cheia de planos perversos e não temem a Deus.

Asafe vai desfiando as suas dúvidas: “Parece que não adiantou nada eu me conservar puro, pois tu, ó Deus, me tens feito sofrer o dia inteiro e todas as manhãs me castigas”. O bom senso prevalece e ele vai ao templo para melhor enfrentar a crise. Ali Deus tem misericórdia dele, abre-lhe os olhos e o faz enxergar em linha reta. Asafe começa a melhorar. Iniciado no desespero, o Salmo 73 termina em louvor: “Tu me seguras pela mão”, “tu me guias e no fim me receberás com honra”, “Deus é a minha força e tudo o que preciso”, “como é bom estar perto de Deus”, “faço do Senhor Deus o meu refúgio e anuncio tudo o que ele tem feito!”.

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