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Tememos mais a morte que a Deus

"Talvez a melhor parte da teologia brasileira também não seja aquela refletida em obras de referência, mas sim no caráter das comunidades por ela formadas", diz a mestre em Teologia, Carolyn Rosalee.

Por Cleber Nadalutti em Cristianismo Hoje



A Dra. Carolyn Rosalee Velloso Ewell, paulista de 41 anos, é dona de um sólido currículo acadêmico: mestre em Teologia pelo Fuller Theological Seminary, Ph.D em Teologia e Ética pela Duke University, e bacharel em Artes - Ciências da Religião pela Westmont College. Casada com Samuel e mãe de três filhos – James (12 anos), Isabela (9) e Katharine (6) –, atua como pesquisadora e co-diretora do Comitê Latinoamericano de Literatura Bíblica (CLLB), na Costa Rica, e é diretora executiva da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEA, a sigla em inglês). LIDERANÇA HOJE quis saber dela se há, de fato, uma teologia que possa ser chamada de "brasileira".

Há muitas centenas de livros de teólogos estrangeiros traduzidos para o português. Comparados aos livros brasileiros, é fácil concluir que há poucos teólogos de renome produzindo obras de referência para os estudantes de Teologia. A que a senhora atribui esse fenômeno?


Acho que as razões são várias: primeiro tem a ver com a própria organização da educação teológica no Brasil. Além de ter sido reconhecida pelo governo há poucos anos, ela segue os modelos norte-americanos e europeus que enfatizam um tipo de aprendizagem focado no livro e no professor e pesquisador. Para a implementação de tais cursos, era necessária a tradução de livros do exterior. Não havia, até recentemente, muita preocupação em contextualizar os estudos ou pensar em cursos que reflitam melhor as realidades latino-americanas. Há também a tendência de a igreja brasileira achar que o que vem de fora é melhor, seja de Roma, Genebra ou Dallas.

Há uma teologia brasileira? Se existe, por que é tão fraca em obras de referência?

Depende dos termos de medida: fraca em que sentido? Existem alguns ótimos teólogos brasileiros e algumas séries de livros muito bons, mas as faculdades não têm o hábito de usar autores nacionais para seus cursos. Talvez a melhor parte da teologia brasileira também não seja aquela refletida em obras de referência, mas sim no caráter das comunidades por ela formadas.

No contexto evangélico brasileiro atual, o conhecimento teológico é valorizado?

Não muito. Há a tendência, no contexto evangélico, de uma ênfase demasiada no relacionamento pessoal com Jesus: é aceitar Jesus no coração e daí está tudo certo. Isso gera uma apatia em termos de estudo e conhecimento mais profundo. Em certo sentido, todos somos teólogos: afirmamos algo sobre Deus, sobre Jesus, oramos, duvidamos, etc. Mas, em geral, acho que as pessoas não sabem o valor de se estudar a Bíblia com seriedade, seja no contexto acadêmico ou em igreja.

Os cursos teológicos brasileiros, à exceção daqueles ministrados por algumas universidades de referência no Brasil e na América Latina, são considerados fracos ou deixam a desejar em algumas cadeiras. O que a senhora pensa a respeito?

Acho que são poucos os administradores de cursos teológicos, seja no Brasil ou no exterior, que realmente se perguntam: estamos a formar profetas e discípulos para o mundo de hoje? Estive recentemente na África para uma reunião internacional sobre educação teológica. Em uma das palestras principais, o reitor de uma universidade muito respeitada no mundo todo disse que após 30 anos trabalhando em educação teológica, ele olha pra trás e se pergunta se houve realmente formação de caráter cristão, de discípulos verdadeiros. Há talvez muita ênfase em "formação de líderes", mas a qualidade destes líderes não é questionada.

Esses problemas na formação teológica brasileira se originaram de más influências como o anti-intelectualismo, como defendem alguns?

Em alguns casos acho que o anti-intelectualismo foi um fator, mas certamente não foi o único. O próprio tipo de formação, seja ela teológica ou em outra área, não foi bem adequada à realidade brasileira. Em nossa cultura, há a tendência de se pensar que a formação teológica não é tão importante como a de um médico, por exemplo. Ninguém quer ter um médico que passou com notas baixas no curso de Medicina. Queremos o médico top, o melhor da classe. Mas quando vem a hora de a igreja escolher um pastor, raramente se perguntam: essa pessoa foi bem nas disciplinas de Antigo Testamento ou Novo Testamento? Essa pessoa é top da classe em Cristologia? Claro que não. Ninguém pensa assim porque achamos que não há muito a perder como no caso do médico que vai tratar nosso filho – afinal, não é uma questão de vida ou morte, certo? Tememos mais a morte do que a Deus.

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