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O que é a Igreja?


Por Odayr Olivetti* em Ultimato Online

1. A igreja cristã é o corpo de Cristo, acima e além de ser uma instituição dotada de organização, recursos vários, objetivos e realizações. E como tal, é ou deve ser mantida na unidade do Espírito.

2. A igreja cristã é universal, não como organização ou instituição, mas como organismo vivo por cujas veias espirituais flui o sangue espiritual de Jesus Cristo, pela fé e pela ação constante e indispensável do Espírito Santo.

3. A igreja é divina e também humana, à semelhança do que ocorreu na encarnação do Verbo Eterno. Dependendo da maior ou menor fidelidade das lideranças e dos crentes em geral, ora aparece mais o elemento humano, ora mais o divino na igreja e em suas realizações.


4. A igreja é “meio de graça”. Em meus cinquenta e nove anos de ministério, tenho observado que poucos são os crentes que fazem adequado uso dos meios de graça. Seria por que são muito simples? Graças a Deus que são simples! Quais são eles? (1) A Palavra; (2) A igreja; (3) Os sacramentos; (4) A oração; (5) As boas obras. – Sim, senhor, as boas obras constituem um “meio de graça” no glorioso processo de santificação conduzido soberanamente pelo Espírito Santo.

- Se não houver bom conhecimento e boa prática da Escritura Sagrada do Antigo e do Novo Testamento, a Palavra de Deus, a sociedade ou o ajuntamento decorrente não é igreja cristã. Pode haver algum “remanescente fiel” nela, mas, no geral, não é igreja cristã.

- A igreja é reconhecida justamente pelo crescente conhecimento da Palavra e sua prática, pela fiel administração dos sacramentos e pela zelosa e amorosa prática da disciplina – judicial e pastoralmente.

- Temo que a maneira superficial e blasfema pela qual o conceito e a administração dos sacramentos que temos observado com não pouca frequência é um dos sinais da decadência doutrinária e espiritual das igrejas modernas. Graças a Deus também tenho olhos para ver que sempre existiu e existe nas igrejas um remanescente fiel – aqueles que não dobram seus joelhos aos múltiplos e diferentes tipos de Baal.

- A disciplina, que Deus Pai aplica (Hb 12.4-13) e que o Filho determinou que a igreja aplique (Mt 18.15-18), tem sido substituída por atitudes personalistas, apadrinhadoras e autoprotetoras, talvez características de sindicatos, não do corpo de Cristo. Quando as igrejas aplicam com seriedade e com espírito genuinamente cristão a disciplina, os que recebem a ação disciplinar são abençoados, e as igrejas que a exercem também são abençoadas.

5. A igreja não tem os mesmos contornos do reino de Deus, mas seus objetivos são semelhantes, os quais se centralizam no objetivo dominante: a glória de Deus.

6. A finalidade principal da fundação e sustentação da igreja – criada e sustentada por Jesus Cristo (Mt 16.18; Hb 1.3) – é a comunhão: comunhão com o Pai e uns com os outros, como se vê na preciosa oração sacerdotal de Jesus Cristo, em João 17. A evangelização e a obra missionária são importantíssimas, mas só serão verazes, fidedignas e enriquecedoras se estiverem calcadas na comunhão do povo de Deus.

7. A igreja é heterogênea e homogênea: heterogênea porque se compõe de membros das mais diversas categorias, lugares e épocas; homogênea porque unificada pela seiva da Videira e pela Cabeça, Cristo (Jo 15; Ef 4.15,16).

8. A igreja universal de Cristo tem expressões em igrejas, organizações e movimentos de grande amplitude, mas a sua expressão primordial e mais real e concreta é nas igrejas locais. Em termos gerais, as igrejas locais determinam o nível de espiritualidade e de fidelidade dos organismos regionais e nacionais. Daí a enorme importância dos oficiais – e de como estes são escolhidos e preparados. Numa igreja genuinamente presbiteriana ou reformada, o dito que às vezes se ouve: “A igreja é o que é o seu pastor”, não tem valor. O que é certo é que, em geral, numa boa igreja presbiteriana, a igreja é o que é o seu Conselho!

9. Um mal desde tempos antigos expresso pela sentença: “Olho para o mundo, e vejo a igreja lá; e olho para a igreja, e vejo o mundo lá”, assumiu proporções alarmantes nas igrejas chamadas evangélicas do mundo atual. E, embora talvez com menor amplitude de culpa, as igrejas presbiterianas não escapam dessa triste pecha!

10. A mística do número engana e engalana muitos. É certo que busquemos e trabalhemos pelo crescimento numérico da igreja, não, porém, carnalmente, não apressando a recepção de novos membros.

11. Enquanto algumas igrejas pentecostais, principalmente as Assembleias de Deus, vão se tornando mais moderadas e mais bíblicas,[1] muitos pastores, líderes e igrejas que ousam chamar-se presbiterianos adotaram ou vão adotando o mais banal e enganoso tipo de “pentecostismo”.

12. Na terra a igreja é militante. Se Cristo declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja é porque ela está em conflito com as forças do mal. Sua luta não é por objetivos carnais ou temporais, e seus inimigos maiores não são os seus perseguidores. Sua luta é contra as forças espirituais do mal (Ef 6).

13. Há algum tempo alguém citou Rubem Alves [2] que declarou, entre outras cosas, que o povo não o atrai; consequentemente, a igreja não o atrai. Em suas críticas à igreja, entre as quais há aspectos de verdade, há o exagero de repudiar o povo pelo qual Cristo derramou o Seu sangue. O modo de ser e o modus operandi das igrejas são falsos ou superficiais, ou totalmente errôneos – é o que está implícito nas palavras do famoso homem que, em seus escritos, um dia sobe aos céus e no dia seguinte desce aos infernos! Respondi ao ponto principal das observações feitas escrevendo literalmente: “O povo não é confiável. Há um povo, resgatado pelo sangue de Cristo, [um povo] que também não é confiável, mas que merece coparticipação amiga e sacrificial, porque esse povo não confia em si, mas na graça de Deus em Cristo Jesus, e procura viver na comunhão com Deus e uns com os outros. Povo que marcha aos tropeços, às vezes andando mais para trás do que para frente, às vezes trôpego (2 Co 6.9), mas seguro pelas fortes mãos do Pai e do Filho (Jo 10.27-30) e selado pelo Espírito Santo (Ef 1.12-14). Eu pertenço a esse “pequeno rebanho” de Jesus (Lc 12.32) e não o largo nem o largarei, ainda quando muitas ovelhas se extraviem, outras se mostrem rebeldes e outras sejam muito fracas para o meu gosto”.

14. Rogo a Deus que opere nas lideranças e no povo das nossas igrejas de modo que sempre cresçam na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo e no exercício fiel dos meios de graça, e assim se veja em seus membros o fruto do Espírito (Gl 5.22,23).

Glória seja dada a Deus o Pai e a Deus o Filho e a Deus o Espírito Santo![3]


Notas:
1. Duas vezes estive na sede das Assembleias de Deus em Belém do Pará. Nas duas vezes li em seu jornal oficial advertências sobre exageros a respeito dos dons espirituais e nas práticas litúrgicas.
2. Escravo do esquema hegeliano: tese + antítese = síntese. Quando a tese ou a antítese é falsa, o resultado é falsidade.
3. Repito de propósito a copulativa e para salientar graficamente a perfeita unidade das três gloriosas pessoas da Trindade Santa e Bendita.

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Odayr Olivetti escreveu este artigo no dia 07 de agosto. Ele faleceu dez dias depois, vítima de um câncer de próstata com qual lutava há 14 anos. Tinha 85 anos. Foi pastor presbiteriano e um dos mais profícuos tradutores de livros cristãos e presidente da comissão brasileira de tradução da Bíblia NVI (Nova Versão Internacional).


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