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A hospitalidade da palavra


Por Rubem Amorese em Ultimato

Sou impressionado com o poder da palavra, em todas as suas formas e manifestações. As ditas, as não ditas, as malditas e as benditas. Mas sei que não sou só eu. Afinal, tudo começou com ela e tudo terminará com ela; quando o “haja” se consumar em “houve”, e tudo for muito bom.

A palavra cria e destrói; orienta e engana. Por ela, o mundo em que vivemos, o mundo dos significados, é construído pelos “falantes”.

Ao diferenciar um boi de um cavalo, Adão usava palavras para ordenar o seu – e o nosso – mundo. Tarefa que lhe foi incumbida pelo Criador. Ao “nomear” sua realidade, ele lhe atribuía “nomos”, ordem: “cavalo não é boi”.

Assim participou Adão como ajudante humano na criação divina. Ambos proferindo palavras; ambos esculpindo o mundo simbólico em que haveríamos de habitar, com cinzéis verbais.

É assim que, pelo uso da palavra, ordenamos e reordenamos; recebemos e transmitimos nosso “mundo”. É conversando que o colocamos em ordem; aprendendo, validando pensamentos, corrigindo enganos, entendendo o próprio coração, entre tantas outras transformações internas. E fazemos isso intensamente, a todo momento. A conversa serve, portanto, como uma bússola, a funcionar até enquanto dormimos.

Praticamente, muitas vezes chegamos a uma roda de amigos precisando revisar, reestruturar ou construir alguma parte do nosso mundo. Precisamos ouvir opiniões, conselhos, informações. Contudo, para que isso aconteça, temos de falar, contar. E esse discurso se torna muitas vezes caótico, complicado, pois reflete nossa confusão. Porém o fazemos na esperança inconsciente de que nossos amigos nos ajudem com suas reações. Às vezes, basta um sorriso e já vamos “renomeando” o nosso “mundo”. “Não é cavalo, é boi”; “nem tudo está “perdido”, há “esperança””.

Pois bem, chamamos de “ministros da palavra” nossos pastores. Com efeito, eles prestam serviço à Igreja, ao pregar e ensinar. Entretanto, considerando que temos sede de verdadeiras palavras, exatamente por vivermos no mundo da informação, proponho um ministério leigo à Igreja: o “sacerdócio universal da palavra”. Explico: toda vez que se reunirem dois ou mais irmãos, acenda-se a luz amarela da palavra. Que se cuide dela como se cuida da oração, da pregação ou do cântico. Não se trata de formalizar as rodinhas, de abolir o riso, a alegria, o bom humor ou a espontaneidade; de transformar qualquer conversa em “culto”, no seu pior sentido, mas de “tirar as sandálias” nesses momentos de conversa.

Se, por um lado, é desagradável a pessoa que tudo “espiritualiza”, também se torna inócuo o irmão que se envergonha da imagem de cristão. A sensibilidade e o Espírito Santo hão de ajudar-nos a transformar simples conversas em momentos agradáveis e edificantes.

O “ministério da palavra” envolve, em particular, o “ouvir”. Quer conhecer um cristão poderoso em obras? Procure-o entre aqueles que se calam para, gentilmente, abrir “espaços de palavra” aos demais. Mas que não nega a sua, quando “for boa para edificação, conforme a necessidade” (Ef 4.29). Chamemos a isso “hospitalidade da palavra”.

O testemunho que se dará desses ministros leigos é que têm o dom do diálogo: “Sentimo-nos acolhidos. E por alguém que se dispõe a compreender o que estamos tentando dizer”.


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