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Que diferença fazem os evangélicos?


Entrevista com Elben M. Lenz César em Instituto Jetro

Elben M. Lenz César, 76 anos, é fundador e diretor da Revista Ultimato, desde 1968. Também é um dos fundadores da Rebusca — Ação Social Evangélica Viçosense e do Centro Evangélico de Missões (CEM), dos quais é presidente honorário. É pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa, autor de devocionários, biografias e obras sobre vida devocional.

Nesta entrevista, pastor Elben nos leva a uma reflexão profunda sobre o testemunho da Igreja e dos líderes evangélicos no mundo, e alerta: "Precisamos lembrar que os escândalos religiosos são a maior fábrica de ateus da história".

Temos assistido ao que a revista Veja classificou como “crescimento vertiginoso das igrejas evangélicas”. Ao mesmo tempo em que muitos comemoram, percebemos o crescimento assustador da violência. Que leitura o senhor faz destes números conflitantes?

Elben - O tal “crescimento vertiginoso das igrejas evangélicas” deve-se em parte à teologia da prosperidade, que oferece uma esperança mais imediata do que escatológica, mais egocêntrica do que comunitária, mais fluida do que consistente, mais temporal do que eterna, mais mental do que espiritual. Porque certos grupos crescem mais do que outros, os grupos menores copiam suas estratégias sem qualquer aprofundamento. Instala-se então a concorrência e esta funciona por causa da natureza humana. Até a Igreja Católica entra na jogada para não perder fiéis. A badalada paixão pelas almas de alguns anos atrás cedeu lugar à paixão pelo crescimento numérico. Então, a pregação do pecado, do arrependimento, da conversão, do negar-se a si mesmo, da porta estreita, da solidariedade humana, torna-se impopular e rara. Por incrível que pareça, a denúncia de Santo Agostinho, pronunciada há mais de 16 séculos, é oportuna hoje: “Muitos clamam a Deus com o intuito de adquirir riquezas e evitar prejuízos, pela felicidade temporal e coisas semelhantes. Raramente alguém clama pelo próprio Deus. Assim, é fácil ao homem desejar alguma coisa de Deus e não desejar o próprio Deus, como se o que ele dá pudesse ser mais gratificante do que ele mesmo”. A recente crítica do cineasta católico italiano Antonio Monda, autor de Deus e Eu combina com tudo isso: a “new age” é “a religião em que se aproveita apenas aquilo de que se gosta”.

De que modo episódios de mau testemunho de igrejas noticiados pela mídia repercutem no meio evangélico? Esse tipo de notícia levaria a membresia a ser menos comprometida com os valores do evangelho?

Elben - A reação varia de pessoa para pessoa. Alguns trocam de denominação na esperança nem sempre bem-sucedida de ver menos escândalos. É muito comum abandonar a igreja por algum tempo (aconteceu com Phillip Yancey) ou para sempre (alguém já disse que a quantidade de ex-crentes é maior do que o rol de membros de todas as igrejas reunidas). Outros negam os escândalos e dizem que é perseguição da mídia ou mentira do Diabo. Há também aqueles que não se perturbam, não se incomodam e até se sentem bem, para não ficarem sozinhos em seus escândalos. Há ainda aqueles que se alegram com os escândalos alheios para ganhar alguma vantagem (novos admiradores e novos contribuintes). Precisamos lembrar que os escândalos religiosos são a maior fábrica de ateus da história. O número de descrentes, céticos e agnósticos é enorme entre os historiadores. Todavia, ainda há, graças a Deus, os que choram amargamente os escândalos dos outros como se fossem seus e levam a sério a exortação de Paulo em 1 Co 10.12: “Aquele que pensa que está de pé é melhor ter cuidado para não cair”.

Em um documento que trata do “Ministério Diaconal das Igrejas Luteranas”, o autor diz que “a credibilidade da igreja já não pode ser presumida como fato”. Qual a sua opinião a respeito dessa afirmação? A igreja estaria desacreditada?

Elben - Lamento muito ser obrigado a admitir que faço parte do grupo que acredita que a igreja está desacreditada. Basta ler O Escândalo do Comportamento Evangélico, de Ronald J. Sider, recentemente publicado no Brasil. Embora o autor se refira aos maus testemunhos dos evangélicos americanos, o problema é universal. Segundo ele, “nos Estados Unidos, o divórcio é mais comum entre os cristãos ‘nascidos de novo’ que entre a população em geral”. Sider cita Michael Horton: “Os cristãos evangélicos estão aderindo a estilos de vida hedonistas, materialistas, egoístas e sexualmente imorais com a mesma proporção que o mundo”. De fato, em março de 2004, pesquisadores das Universidades de Columbia e Yale constataram que as taxas de doenças sexualmente transmissíveis foram quase idênticas entre os adolescentes evangélicos que fizeram o compromisso de esperar o casamento para se iniciarem sexualmente a os que não o fizeram. Sider cita também John G. Stackhouse: “Muitos evangélicos mentem, enganam e pecam contra os outros com ‘uma alegria de quem já está perdoado’, com uma atitude do tipo ‘estou numa boa’ porque Jesus me ama e não lhe devo nada”. Se já não somos o sal da terra, a luz do mundo e o bom perfume de Cristo, não servimos para mais nada, exceto para sermos jogados fora e pisados pelos homens, de acordo com Jesus. Preciso citar mais uma vez Ronald Sider: “A ótima qualidade das vidas dos cristãos primitivos atraía as pessoas a Cristo. Hoje, nossa hipocrisia sempre as afasta dele”. Não temos defesa: estamos desacreditados diante do governo (também desacreditado), diante dos críticos, diante dos antigos simpatizantes, diante dos opositores, diante da mídia (caçadora de escândalo) e diante do povo. É uma triste realidade. Mas isso não quer dizer que não haja exceções. Em toda história do povo de Deus sempre houve um remanescente fiel.

A Bíblia relata que em Corinto os crentes eram repreendidos pelo fato de permanecerem no estágio de bebês por tempo demais. Isso acontece com as igrejas brasileiras? Seria uma das razões de seus maus testemunhos?

Elben - O exemplo de Corinto é desanimador. Antes e na ocasião em que a Primeira Carta aos Coríntios foi escrita, os crentes já eram e continuavam a ser “crianças em Cristo”. Por ocasião da Segunda Carta, escrita um ano depois, Paulo confessa estar morrendo de medo de reencontrá-los do mesmo modo, em “brigas e ciumeiras, ódio e egoísmo, insultos, falatório, orgulho e desordens” (2 Co 12.20). Se, à semelhança dos cristãos coríntios, brigamos uns com os outros, formamos grupinhos antagônicos (“Eu sou de Paulo”; “Eu sou de Apolo”; “Eu sou de Pedro”; “Eu sou de Cristo”), temos inveja e ciúmes mútuos, trabalhamos na base de competição, então entendo que somos carnais e não espirituais, andamos segundo a cultura mundana e não segundo o exemplo do Senhor. Nesse caso, nós também somos “criancinhas em Cristo” e não damos bom testemunho.

E quanto a líderes-bebês? A imaturidade de grande parte da membresia teria relação direta com a imaturidade da liderança? O que o senhor poderia dizer sobre isso?

Elben - Se dissermos de forma categórica que, se não houvesse líderes-bebês, também não haveria “crianças em Cristo” em nossas igrejas, estaríamos cometendo uma grande injustiça contra Paulo, Pedro e Apolo, e também contra uma quantidade razoável de pastores verdadeiramente abnegados e íntegros do presente e do passado recente ou remoto. Atingiríamos também aquele profeta que desabafou: “Durante vinte e três anos a palavra do Senhor tem vindo a mim [...] e eu [começando de madrugada] a tenho anunciado, dia após dia, mas vocês não me deram ouvidos” (Jr 25.3). Por um período de tempo quase duas vezes maior, Moisés carregou nos braços o povo de Israel, do Egito a Canaã, “como uma ama carrega um recém-nascido”, mas os israelitas nunca deixaram de ser bebês no deserto e cometeram muitas loucuras, tais como idolatria e imoralidade sexual. Ao mesmo tempo, é impossível negar a estreita relação entre os pastores-bebês e os rebanhos-bebês.

Trata-se de despreparo teológico?

Elben - O problema não é só o despreparo teológico. Existem outros despreparos mais graves — o despreparo vocacional, o despreparo ético, o despreparo na comunicação da Palavra, o despreparo na verdadeira motivação, o despreparo quanto ao conhecimento da riqueza toda que há na pessoa de Jesus, o despreparo devocional, o despreparo da paixão, para não mencionar outros. O problema é muito complexo porque crentes-bebês se sentem muito melhores sob a direção de líderes-bebês e estes precisam de crentes-bebês para continuar no “ministério”. Esse acordo mútuo é muito antigo. Um grupo se alimenta do outro. O rei Acabe só consultava os profetas que profetizavam o que ele queria ouvir, como relatado em 1 Rs 22.1-28.

Qual a responsabilidade dos líderes na construção de uma igreja que não se conforme com o mundo e que verdadeiramente cause impacto na sociedade?

Elben - Outro dia estava lendo 2 Coríntios 11 e me veio a idéia de um artigo e palestra, que teria o título O sonho de uma virgem intacta. Tenho a forte impressão de que se todos nós ou a maioria dos líderes abraçássemos solenemente o sonho de Paulo, as coisas começariam a mudar e a mudança seria enorme. O sonho do apóstolo está no segundo versículo: “Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura”. Troquei propositadamente a palavra “pura” por “intacta”, usada na versão da Bíblia do Peregrino, por julgá-la mais enfática. Todos nós precisamos assumir o compromisso e o sonho de Paulo de modo que não entreguemos ao Noivo, no dia das bodas do Cordeiro, uma falsa virgem, não pura e muito menos intacta. É um sonho muito alto e difícil por causa do pecado residente, da cultura secular e das potestades do ar. Difícil, porém, não impossível. O bispo metodista John Fletcher, contemporâneo de John Wesley, dizia: “Minha esposa é bem melhor para mim do que a Igreja é para Cristo”. Precisamos acabar com essa tremenda injustiça!

Alguns pais evangélicos têm passado pela experiência de ver seus filhos na prática do crime e da violência, como ocorreu com o pai de dois bandidos envolvidos na morte do menino João Hélio no Rio de Janeiro. Que relação o senhor vê entre fatos assim e o testemunho da igreja?

Elben - Posso imaginar a surpresa e a dor daquele casal evangélico de Madureira, no Rio de Janeiro, RJ, que, de repente, ficou sabendo que seu filho de 19 anos era um dos responsáveis pela morte de João Hélio (Veja, 21/02/07, p. 46). Posso imaginar a surpresa e a dor de Adão e Eva quando ficaram sabendo que o filho desaparecido havia sido morto pelo próprio irmão. Posso imaginar a surpresa e a dor de Jacó quando ficou sabendo que foram seus próprios filhos que tinham vendido o então caçulinha para os mercadores ismaelitas. Posso imaginar a surpresa e a dor de Davi quando ficou sabendo do estupro da filha Tamar, cometido pelo irmão dela, e do assassinato deste por outro filho. Posso imaginar a surpresa e a dor de Maria quando percebeu que seus quatro filhos com José não criam na divindade do irmão mais velho e diziam que ele era um megalomaníaco. Alguns desses casos são difíceis de explicar. Mas não há dúvida de que o mau exemplo dos pais e o mau testemunho da igreja têm muito a ver com o afastamento dos nossos filhos do evangelho. Não temos dado muita importância a uma informação contida na história de Jó. Além de íntegro e justo, além de ser o homem mais rico do Oriente, além de ter suportado o sofrimento todo sem perder a fé, Jó tinha um especial cuidado com os filhos, no que diz respeito ao seu relacionamento com Deus. Como os sete filhos costumavam promover freqüentes banquetes, o homem da terra de Uz, quando terminava uma rodada de banquetes, mandava chamá-los e fazia com que eles se purificassem e ainda oferecia um holocausto em favor de cada um deles. "Jó sempre fazia isso porque pensava que um dos filhos poderia ter pecado, ofendendo a Deus em pensamento" (Jó 1.4-5, NTLH).

Que reflexão ou exortação o senhor gostaria de deixar para nossos leitores em relação ao testemunho da igreja?

Elben - Creio que a menção do “Sonho da virgem intacta” é suficiente!




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