Header Ads

Resgatando a biblicidade na pregação


Por Isaltino Gomes Coelho Filho em Instituto Jetro

"Resgatar" é o termo correto. Há "igrejas" em que as pessoas não usam a Bíblia nem precisam levá-las. Já vi cultos assim, mas me reservo o direito de não citar onde e qual denominação assim age, para não criar melindres. Como resgatar a biblicidade na pregação e no ensino da igreja?

Tendo uma cosmovisão bíblica.

Quero voltar ao termo. Cosmovisão bíblica significa ler o mundo pela Bíblia. Significa reconhecer sua autoridade para interpretar as atitudes dos homens e o rumo dos eventos. Ela é a base e o conteúdo da pregação, não ilustrações enlatadas, nem conceitos de classe média ou do contexto social em que a igreja e o pregador estão inseridos.

Uma cosmovisão bíblica é questão teológica, e não caturrice do pregador. É o reconhecimento de que existe uma fonte de verdade fora de nós (não apenas como pessoas, mas como cultura) e que essa fonte de verdade é, especificamente, a Palavra de Deus verbalizada e proposicional. Buscar referenciais na cultura secular é pregar prego na areia, porque a cultura secular é mudancista enquanto a Bíblia se propõe a ser a Palavra de um Deus que não muda nem se contradiz. Referenciais extrabíblicos são suicídio teológico.

A crucificação do pregador.

Saio do nível teológico e global, e entro no pragmático e pessoal. O pregador deve dizer como Micaías: "Vive o Senhor que o que o Senhor me disse, isso falarei" (2Cr 18.13). Há muita gabolice, "achismo" e conceitos pessoais emitidos como sendo Palavra de Deus. "O profeta que teve um sonho devia contá-lo como um simples sonho. Mas o profeta que ouviu a minha mensagem devia anunciá-la fielmente. Que vale a palha comparada com o trigo?" (Jr 23.28). Fale a Palavra de Deus. Suas esquisitices e sua visão pessoal do mundo são palha.

A questão de crucificação do pregador é que seu ego deve morrer no púlpito. Quem deve brilhar no púlpito? O pregador ou a Palavra? Por que o pregador deve ser sempre como o herói da história? Por que seus conceitos pessoais devem ser levados a sério? O pregador sério que tem um púlpito sério é escravo da Palavra. Fala o que ela fala e cala onde ela cala. Não é o nosso falar, nosso discurso pessoal nem nossa estrutura de argumentação que são relevantes. Nossa relevância vem do fato de que somos homens que falam a Palavra Relevante de um Deus Relevante. O que tornou Billy Graham o grande evangelista e o pregador do século não foram seus recursos, mas seu "A Bíblia diz" repetido constantemente.

Ter consciência da seriedade da missão.

O Dr. Jerry Key comentou de um esboço de sermão em que o pregador anotou ao lado: "Nesta altura, dar um murro no púlpito por que o argumento é fraco". Um pregador sério levará a sério, estudará a Palavra com afinco, terá intimidade com ela, e a exporá com respeito. Pregar é mais que gritar e bater no púlpito. Em uma igreja em que pastoreei, preguei certa vez em Mateus 12.20: "O morrão que fumega". Falei de como Jesus se compadece dos fracos, que fumegam, já sem luz, esgotados e acabados. Findo o culto, uma senhora me disse: "Se o que o senhor disse é verdade, me ajude. Eu tinha decidido me suicidar hoje, e vim à igreja por ato social, em amizade com uma amiga que é membro aqui. Seria meu último gesto social".

E se eu tivesse ido ao púlpito para dar o relatório da última assembleia convencional ou apenas para gastar o tempo? Se tivesse contado várias piadas para "quebrar o gelo"? Quando um pregador sobe ao púlpito deve ter em mente que cada pessoa do auditório colocou trinta minutos de sua vida nas mãos dele. E que esses minutos podem fazer uma diferença enorme. Quer material mais seguro para se usar neste tempo que a Palavra de Deus? Quer algo mais vivo e mais poderoso? Nossa missão é muito séria. Nós pregamos a Palavra de Deus e não nossas ideias. O púlpito é o instrumento para a proclamação da Palavra e não lugar para exibição e autoglorificação. Ao ir ao púlpito o pregador deve estar encharcado das Escrituras.

Tendo insatisfação consigo mesmo.

O bom pregador nunca está satisfeito com seus sermões. Sempre procurará melhorar a si e a eles. Quando reviso meus sermões procuro ver o quanto dos argumentos poderia ser melhorado, e quanto da Bíblia poderia ter ficado mais claro. Após a pregação repasso o filme na cabeça. A Bíblia ficou mais clara? Deixei o texto compreensível? As conexões foram exatas? Analiso se minha proposta de deixar o texto claro e compreensível ao auditório foi conseguida. Mas a análise é sempre por este ângulo: assimilaram mais da Bíblia?

Esta insatisfação do pregador deve ter outro ângulo: ele nunca conhece a Bíblia suficientemente. Nunca deixa de lê-la e de estudá-la. Choca-me saber de colegas que ironizam pastores que estudam e que, na ironia, chamam-nos de "pastores de gabinete". Os pastores devem ser homens da Bíblia, devem estudá-la com afinco, devem ler bons livros que aumentem seu conhecimento sobre ela. O problema é que o ativismo é visto como sinal de importância. E a reflexão e o estudo da Palavra são vistos como irrelevância. Na igreja primitiva, os apóstolos deixaram questões menores para seus auxiliares e foram se dedicar à oração e à pregação (At 6.4).

Fica-me a impressão de que hoje não há tempo para os pastores orarem nem estudarem para pregar. Eles acham que têm coisas mais importantes para fazer, inclusive supervisionar a colocação correta dos tijolos na construção. O pastor deve ser um homem da Bíblia, deve lê-la e estudá-la diariamente, e deve se sentir insatisfeito quando não consegue fazer isso. Se a Bíblia ocupar este lugar em suas emoções, será proeminente em seu púlpito.

Vem só agora, mas não é o menos importante: amor pela Bíblia.

O pregador deve ser um homem que diga o Salmo 119.97 com seriedade: "Como eu amo a tua lei! Penso nela o dia todo". Homens que passam a semana toda sem lê-la e, no sábado, angustiado a folheiam em busca de sermão, não honram o púlpito porque não amam a matéria do púlpito. A visão utilitária das Escrituras é danosa. Relembrando saudosamente o castiço português do Pr. Éber Vasconcelos, que por tantos anos honrou o púlpito batista, ele que foi o "Príncipe do Púlpito": "A visão há que ser sempre passional". A leitura da Bíblia não pode ser profissional, mas passional. Feita com amor, com paixão.

Só um homem apaixonado pela Bíblia deixará a Bíblia marcada na vida dos ouvintes. Alguém poderá ser apreciado pela boa oratória, outros pela gesticulação e outros mais pela imponência, mas para ser apreciado como um homem da Bíblia, só mesmo tendo amor por ela. O resgate da biblicidade em nossa pregação passa por aqui, pelo amor à Palavra. Este amor produzirá respeito e até mesmo temor. É chocante a falta de reverência para com a Palavra de Deus.

O pregador deve amar, respeitar e valorizar a Palavra de Deus. Isto é mais que usar a Bíblia. Usar todo mundo usa: testemunhas de Jeová, mórmons, adventistas do sétimo dia, mas subordinam-na a outros livros. O pregador da Bíblia deve se envolver com a Bíblia. Deve ser o livro mais lido, mais amado e mais respeitado por ele. Não é onde ele vai buscar sermão. É onde ele busca alimento para si. Ai da igreja cujo pastor só lê a Bíblia em busca de sermão. Ela ouvirá sermões medíocres. A única maneira proveitosa de lê-la é com fome. Quando o pastor tem fome da Bíblia e mostra isso, o povo passa a ter fome da Bíblia. O rebanho não será melhor que o pastor. Não amará mais a Jesus que o pastor. Não terá mais interesse pela Bíblia que o pastor. Eis a postura: amar, respeitar e valorizar a Bíblia. Disse Al Martin: "o solo onde medra a pregação poderosa é a vida do pregador" .

O pregador deve fugir da ideia de que deve ser original, espetaculoso, para ser bom pregador.

Ver nas Escrituras o que nunca alguém viu em 2.000 anos de estudo da Palavra de Deus. O foco deve ser a Palavra e não o pregador. Quando o pregador aparece mais do que a Palavra é para se ficar alerta. E se algum de nós aparece muito, no púlpito, mais que a verdade que pregamos, confessemos o pecado de querer tomar o lugar do que é Divino. Devemos pregar o arroz com feijão, porque o arroz com feijão mantiveram a igreja em pé por séculos. O texto de 1Coríntios 1.23: "Mas nós pregamos a Cristo crucificado". Que lembrança! E que saudades do tempo em que nossa marca maior era os versículos bíblicos pintados nas paredes dos templos, e não as caixas de som!

Seriedade na exposição.

Alguns pregadores têm o hábito de começar com uma piada para "quebrar o gelo". Parece que alguns moram na Sibéria porque há muita piada. Humor é uma coisa. Pândega é outra. Conforme Al Martin: "Ninguém pode ser, ao mesmo tempo, um palhaço e um profeta (...). Isso não quer dizer que não devamos ser autenticamente humanos, e que a habilidade natural de rir envolva qualquer elemento de pecaminosidade, ou que fosse pecaminosa a alegria natural que se deriva de um riso que procede do fundo do coração. Entretanto, o esforço desnatural de certos pregadores para serem ‘contadores de piada', entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar" .

O pregador não deve usar a Bíblia para subsidiar seus conceitos pessoais ou dar suporte ao seu ministério. Um colega de seminário me disse certa vez: "Isaltino, preparei um sermão para arrebentar! Expus todos os problemas da igreja! Só preciso de um texto bíblico agora!". Ele não tinha um sermão. Tinha uma lista de desaforos que queria dizer ao povo. Sobre esta atitude, eu diria: "Pregue com amor!". Se repreender, faça com amor. Mesmo machucado, faça com amor. Lembre-se de 1Coríntios 16.14: "Façam tudo com amor". Não se pode ter uma pregação bíblica com um coração iracundo ou ressentido. Já preguei com o fígado. Isso é muito ruim. Quando o fígado toma o lugar do coração, ou a gente muda a atitude ou muda de igreja.

O sermão não pode ser um item a mais na ordem do culto.

O pessoal de música se zanga quando se diz que a pregação é o momento mais importante do culto. "Isto quer dizer que o resto não valeu nada?", é a pergunta feita. Não se deve pôr na boca alheia palavras que eles não disseram. Não é o único momento importante, mas é o mais importante do culto. Nos cânticos, falamos a Deus. Nas orações, falamos a Deus. Na pregação, Deus nos fala. Ouvir Deus é mais importante que falar a Deus. Ele nos conhece sem que haja uma palavra em nossa boca (Sl 139.4). Mas nós não o conhecemos tanto assim.

E foi pela loucura da pregação (kerygma), e não do louvor que ele escolheu salvar o mundo (1Co 1.21). Permitam-me compartilhar uma perspectiva de ministério. Procuro fazer dos cultos o carro chefe da vida da igreja. Seu planejamento é motivo de oração e de entrosamento de todas as partes. Publico no boletim os temas e os textos das mensagens do culto seguinte. Entrego a quem faz as ordens de culto os esboços dos sermões que serão pregados. Todas as leituras, todos os hinos e as mensagens musicais devem se relacionar com o assunto.

Tudo caminha junto, na mesma direção, e assim a pregação se torna o clímax de um culto organizado. Tudo é importante, mas o momento "climáxico", a pregação, se beneficiou das outras partes. A grande vantagem é que o culto passa a orbitar, em termos de conteúdo, ao redor da Bíblia. Não apenas a mensagem é bíblica, mas o culto é bíblico.

Conclusão

Minha conclusão é bem singela. Pregar a Bíblia é mais que técnica. É alma. Lembro uma citação de James Stewart: "A pregação não existe para a propagação de ideias, opiniões e ideais, mas para a proclamação dos poderosos atos de Deus". Esses atos poderosos estão registrados nas Escrituras. Como Wright expõe em seu livro O Deus que age, a Bíblia não é apenas a palavra, mas é o livro dos atos de Deus. Deus falou e Deus agiu. Pregar é proclamar os atos de Deus na história e na vida das pessoas. Sem a Bíblia não temos o registro dos atos de Deus na história e seus atos na vida das pessoas ficam sem parâmetro. As Escrituras são o parâmetro para ver se o que acontece na vida das pessoas é de Deus ou não.

As maiores necessidades de um pregador são espiritualidade e estudo. Ele deve cuidar de sua vida, antes e acima de tudo. "Não fiquem me olhando assim por causa da minha cor, pois foi o sol que me queimou. Meus irmãos ficaram zangados comigo e me fizeram trabalhar nas plantações de uvas. Por isso, não tive tempo de cuidar de mim mesma" (Ct 1.6b). "Não tive tempo de cuidar de mim" é algo trágico a um pregador.

Ele também deve estudar. Deve comprar livros de bom nível. Não a sucata espiritual que se vende por aí, onde alguém teve uma experiência e quer que todo mundo a tenha. O púlpito deve ser analítico e isso demanda estudo e seriedade. Deve haver do pregador um estudo constante e rotineiro. Esta é mais sublime tarefa que uma pessoa pode receber: falar em nome de Deus. Isto deve infundir em nós um profundo senso de terror. Isto é sério! Façamos com zelo a nossa tarefa e busquemos ser sempre melhores. A mediocridade e a estagnação são incompatíveis com nossa missão como pregadores. Façamos um uso honesto e dignificante do púlpito. Que o nome do Salvador brilhe e não nós. O lema de todo pregador deve ser João 3.30: "Ele tem de ficar cada vez mais importante, e eu, menos importante".

Termino com as palavras de Deus a Ezequiel: "Come este livro" (Ez 3.1).




Este artigo faz parte de um estudo publicado no site do Pr. Isaltino Coelho, para ler na íntegra clicar aqui.

Nenhum comentário:

Todos os comentários serão moderados. Me reservo o direito de não publicá-los caso o conteúdo esteja fora do contexto, ou do assunto, ou seja ofensivo ao autor do texto.


..

Tecnologia do Blogger.