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A midiotização da família



Em um domingo destes, eu estava almoçando com minha esposa em um restaurante e na mesa ao lado sentou-se uma família -- um casal com dois filhos adolescentes. Como sou um observador, reparei que rapidamente todos se assentaram e cada qual puxou do bolso um smartphone e começou a teclar. Só se deram conta de ler o cardápio muito tempo depois e, logo que fizeram os pedidos, voltaram a seus aparelhos, permanecendo envoltos em seus próprios mundos virtuais durante toda a refeição.

Essa cena me fez pensar sobre o impacto da mídia -- refiro-me a todas as expressões midiáticas: redes sociais, internet, televisão etc. -- nos relacionamentos familiares. Não são poucas as queixas que nos chegam ao consultório a respeito de filhos que já não interagem com a família em momento algum do dia, pois, ao chegarem da escola, logo se envolvem com seus eletrônicos e neles ficam absortos, algumas vezes madrugada adentro. Também há queixas de cônjuges que veem o companheiro disperso em um mundo virtual ou televisivo e resumem o diálogo conjugal a expressões monossilábicas.

Esta era eletrônica é, sem sombra de dúvida, sedutora, pois veicula a informação a uma velocidade espantosa. Aguça a curiosidade das pessoas para quererem saber sempre mais, inclusive saber mais detalhes da vida dos outros. Posta-se uma informação ou foto e, em poucos minutos, a rede social -- algumas vezes, até mesmo pessoas desconhecidas -- está se manifestando com um “curtir” ou comentários na novíssima gramática “internética”: blz; wow; d+ etc.

De que forma esse modelo interacional virtual pós-moderno afeta os relacionamentos familiares? Por que existe a necessidade de tanta informação superficial em tempos quase instantâneos? Por que existe a necessidade de exposição de detalhes da vida pessoal para um público cada vez mais impessoal?

Creio que essa necessidade de tornar público cada detalhe da própria vida, tirando selfies a cada momento ou postando fotos do que está comendo, traz em si o desejo de se sentir amado. Afinal, se as pessoas “curtem” o que estou fazendo, é porque elas gostam de mim. Um dos maiores desesperos das pessoas hoje em dia é serem bloqueadas por alguém de uma rede social, pois no fundo não se sentem mais amadas por aquela pessoa.

A necessidade de informação vem da fantasia de que informação é sinônimo de poder. Em alguns âmbitos, como na política, essa premissa é verdadeira, mas, no cotidiano, ter muita informação, especialmente a superficial, não empodera ninguém, apenas leva facilmente ao estresse por sobrecarga mental. Definitivamente não precisamos saber tudo da vida de todos, antes o importante é saber menos e com mais qualidade da vida daqueles a quem realmente amamos.

Por fim, o maior impacto deste modelo interacional dentro da família é que ele leva os membros da família a um ensimesmamento, um mundo paradoxalmente fechado aos que estão próximo e aberto ao público em geral. Esta superexposição da vida de forma tão superficial também traz consigo o descompromisso com o outro -- se um amigo postar uma foto em que aparece embriagado, eu posso apenas curtir ou dizer “wow”. Mas não tenho o compromisso do diálogo sério e profundo a respeito das consequências daquela conduta para a vida dele. Afinal, no modelo individualista, cada um é autossuficiente e não existe a ideia de comunidade!

De forma alguma sou contra a tecnologia, mas penso que a moderação em todas as coisas é padrão de saúde. Pais devem, desde cedo, estimular os filhos a um processo familiar interativo, suplantando seus cansaços diários e brincando com os filhos, e nesse brincar promover o diálogo. De igual forma, cônjuges devem aprender a “relaxar” no acolhimento da intimidade com o outro e não diante da enxurrada de informações vazias dos eletrônicos. É preciso resistir à sedutora proposta midiática, que nos isola e egocentriza, aprendendo a usar a tecnologia com sabedoria e prudência, lembrando que o domínio próprio é fruto do Espírito Santo (Gl 5.22).

Fonte:
Ultimato - Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

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