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Secularização e incredulização


O substantivo “secularização” existe há algum tempo. É um “fenômeno histórico dos últimos séculos, pelo qual as crenças e instituições religiosas se converteram em doutrinas filosóficas e instituições leigas”. O substantivo “incredulização” é, por enquanto, um neologismo que se faz necessário. Diz respeito a uma secularização mais aberta e mais agressiva, para a qual a sociedade está caminhando. Jesus termina a parábola do juiz iníquo com esta solene pergunta: “Quando o Filho do Homem vier, será que vai encontrar fé na terra?” (Lc 18.8).

A secularização é problema mais do Ocidente do que do Oriente. Mesmo assim, o papa Francisco, quando esteve na Coreia, em meados de agosto de 2014, foi obrigado a ouvir estas palavras do cardeal indiano Oswald Gracias, presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas: “Os asiáticos são religiosos por natureza, mas um espírito de secularismo e materialismo está ganhando terreno” (“L’Osservatore Romano”, agosto/2014, p. 13).

Estamos sendo sistematicamente secularizados e “incredulizados” mais inconsciente do que conscientemente, por causa do fenômeno da globalização. Trata-se de um fenômeno após o outro. Bem antes do nascimento de Jesus, um poeta hebreu denunciou o fenômeno. Segundo os Salmos 14 e 53, na Nova Tradução da Linguagem de Hoje, os tolos, ou soberbos, dizem: “Para mim, Deus não tem importância” (v. 1). Curiosamente, não há outro livro que mais fale em Deus do que os Salmos. Enquanto os tolos afirmam com azedume que “Deus não existe” (na versão Almeida Revista e Atualizada) ou que “Deus já era” (na paráfrase de Eugene Peterson, AM), os crentes declaram: “Tu, ó Senhor Deus, és tudo o que eu tenho” (Sl 119.57).

O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não foi nem um pouco feliz quando escreveu: “Não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita que o universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos” (“Folha”, 31/8/2014, p. 3). A contribuição dele foi a favor da “incredulização”.

O fenômeno da “incredulização” foi inclemente na época do comunismo, especialmente na Albânia, o primeiro país a ter em sua constituição o ateísmo prático. Diz-se que 1.820 igrejas cristãs (católicas e ortodoxas) foram destruídas naquele tempo, e outras foram transformadas em cinema, teatro e salões de dança. Em outros países cristãos da Europa, templos têm sido secularizados, em alguns casos por causa da sua inutilidade provocada pela secularização dos fiéis.

O avanço da “incredulização” tem seus reveses. Na Albânia, por exemplo, hoje há mais de 80% de religiosos (cristãos e muçulmanos) do que ateus e não religiosos. Alguns anos atrás, um ministro da igreja ortodoxa russa foi convidado a orar na cerimônia de lançamento de uma nave espacial na Rússia. No início do século 18, o filósofo francês Voltaire acertou em cheio quando afirmou: “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”. A mesma “Folha” que publicou o artigo do físico da Unicamp estampou também a profissão de fé do dramaturgo Ariano Suassuna, feita pouco antes de ele morrer, aos 87 anos, em agosto deste ano: “Eu acredito em Deus por uma necessidade. Se ele não existisse, a vida seria uma aventura amaldiçoada. Eu não conseguiria conviver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus ou a vida não tem sentido. Bastaria a morte para tirar qualquer sentido da existência” (“Folha”, agosto/2014).

Os dois fenômenos -- a “credulização” (a pregação da existência de um Deus pessoal e glorioso) e a “incredulização” (a pregação de que Deus não existe nem tem importância) -- coexistem e ambos fazem adeptos, desde os tempos mais remotos!


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