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O caminho da restauração


Minha vida tem sido dedicada, entre outras coisas, a promover um ministério pastoral saudável. Através do Mapi (Movimento de Apoio para Pastores e Líderes) e outras instituições, com o apoio de muitos homens e mulheres chamados pelo Senhor com o mesmo propósito, temos contribuído para oferecer à liderança evangélica brasileira ferramentas espirituais capazes não apenas de edificar a vida de outros pastores e pastoras como, também, promover sua restauração pessoal e ministerial, quando necessário. Isso inclui formas preventivas para evitar uma queda ou crise grande.

Junto com isso, desenvolvemos estratégias para ajudar alguém que está precisando de um processo profundo de restauração. Em meu envolvimento com pastores, sempre ouço colegas – homens e mulheres – relatando que eles ou seus cônjuges tiveram profundas quedas morais, seja em adultério, seja em homossexualismo. Há também problemas de ordem pessoal, emocional, financeira, motivacional. Isso também acontece com certa frequência com líderes na igreja local e membros da igreja. Tais problemas se tornaram tão suficientemente comuns que precisamos trilhar o caminho das pedras para saber como ajudá-los na restauração.

Uma queda não deve, necessariamente, ser o fim da linha para o ministério pastoral. A falha de um companheiro de caminhada é uma falha nossa, já que somos do mesmo corpo.

Tal processo não se limita, é claro, a problemas de natureza moral. Com adaptações, ele se aplica a líderes que caem no esgotamento, passam por crises emocionais e dramas conjugais, mesmo sem haver nenhuma infidelidade. A Igreja de Jesus Cristo deve ser um oásis, um lugar de refúgio, um contexto maravilhoso de restauração. Ela é uma comunidade terapêutica. Ao mesmo tempo, teremos que trabalhar bastante em cima deste ideal, já que essa mesma igreja exige que seus líderes sejam modelos e infalíveis. Isso complica a situação de quem se encontra em conflitos e busca ajuda. Na maioria das vezes, porém, o processo de restauração não é bem entendido.

O ponto de partida, claro, é o arrependimento, sem o qual a restauração não tem chance. O caminho da restauração é comprido e requer alta dose de motivação e perseverança. Sem isso, a seriedade da proposta não terá chance. A chave será se a pessoa realmente experimentou a tristeza segundo Deus ou apenas tristeza segundo o mundo, conforme II Coríntios 7. Isso é fundamental.

Se houver um verdadeiro quebrantamento e arrependimento, então haverá profunda motivação para caminhar na restauração. Paulo descreve isso quando diz: “Vejam o que esta tristeza segundo Deus produziu em vocês: que dedicação, que desculpas, que indignação, que temor, que saudade, que preocupação, que desejo de ver a justiça feita! Em tudo vocês se mostraram inocentes a esse respeito”. Se não houver verdadeiro arrependimento e quebrantamento, o caminho da restauração precisa passar pela disciplina da igreja até que isso aconteça.

Vínculo espiritual

Outro aspecto essencial para a reabilitação do pastor que falha é o apoio forte da liderança espiritual. É preciso se estabelecer um vínculo a nível emocional com a pessoa em crise, um encontro verdadeiro e profundo entre as pessoas. Ficar firme na Palavra não adiantará muito sem um amor que constrói a confiança no facilitador, para depois lhe dar a autoridade espiritual de intervir na vida do caído.

Sem a delegação da autoridade de mexer na vida, nas emoções, nos pecados, nos valores, nenhuma pregação, confronto ou exortação surtem efeitos. Se a liderança ou um conselheiro tratar o assunto a nível meramente cognitivo, sem se conectar às instâncias emocionais, haverá um absoluto desencontro. Porém, uma vez realizado o vínculo (encontro, confiança, delegação de autoridade espiritual), o dogma teológico passa a ter efeito.

Confissão e pedido de perdão é outra etapa imprescindível. Tais atitudes têm que ser genuínas e profundas, com limpeza e honestidade, como fruto de um mover do Espírito. O ministro do Evangelho precisa reconhecer a diferença entre graça barata (que trata o pecado de forma leve ou superficial) e aquela que o trata de forma séria e profunda. O círculo da confissão precisa ser o círculo da transgressão – logo, o líder que transgrediu deve caminhar em marcha à ré no processo de confissão.

Ao mesmo tempo, o caminho do conserto passa pelo reconhecimento das brechas que se abriram na vida do líder. A queda foi simples, repentina, resultado de uma debilidade ou tentação momentânea, ou resultado de algo mais sistêmico, uma doença emocional e espiritual? Cinco passagens bíblicas falam diretamente da ação de Satanás ao se envolver na vida dos crentes – aliás, seis, se incluirmos a tentação de Jesus, relatada nos evangelhos.

Quando isso acontece, precisa ser combatido e destruído com armas espirituais, e não apenas humanas. Muitas vezes, custa caro descobrir que há áreas de nossa vida que não caminham debaixo do senhorio de Jesus Cristo: o orgulho, ou falta de submissão (Tiago 4.6-10 e I Coríntios 10.12); a ira, mencionada em Efésios 4.26; o medo e a ansiedade; a falta de perdão; e a ausência de um bom relacionamento conjugal e uma vida sexual sadia. Por último, jamais devemos duvidar de nossa identidade como filhos de Deus. Não podemos, como líderes, ignorar os propósitos de Satanás: roubar, matar e destruir, conforme João 10.10.

Por vezes, em nossa caminhada espiritual, confessamos nossos pecados e recebemos oração, no espírito de Tiago 5.16; porém, continuamos com os mesmos problemas. Nada é resolvido! Pode não ser exatamente um pecado, mas um erro ministerial ou um mal-entendido que precisa ser esclarecido.

O que leva o pastor a transgredir é, com muita frequência, uma doença espiritual ou emocional, algo arraigado em seu ser. Aqui, entra a necessidade da submissão à autoridade constituída por Deus. Quantos pastores erram e permanecem no erro simplesmente porque não se veem na obrigação de prestar contas de seus atos não apenas ao Senhor, mas a um irmão de fé ou líder?

Identificar um coordenador de restauração que seja experiente e que tenha discernimento e autoridade espiritual é algo que todo ministro do Evangelho deveria fazer. Humanamente falando, depois do esforço da própria pessoa em sua restauração, esse compartilhamento é a chave principal no processo. Sem a presença do outro no processo de restauração, há um grande risco de engano, inclusive a si mesmo.

Sinais do reino

Um pastor em crise, esgotado ou doente, é como quem padece de um câncer espiritual e emocional. Ele precisa de múltiplas estruturas de reabilitação, como em um tratamento multidisciplinar. Nesse contexto, sete formas de relacionamento são o que uma pessoa em recuperação precisa: 1) Com Deus; 2) Consigo mesmo; 3) Com sua família; 4) Com um grupo pastoral; 5) Com uma equipe de ministério; 6) Com um mentor ou líder pastoral; e 7) Com bons amigos. Um pastor ou líder que caminha seriamente com esses sete relacionamentos terá uma proteção preventiva bem grande contra a queda ¬ ou, na pior das hipóteses, uma rede de apoio visando à sua plena recuperação. Afinal, o cair é do homem, mas o levantar é de Deus.

Uma vez que alguém reconhece seu pecado, saindo da negação ou justificação à luz de 1 João 1.6, 8, 10, existem três grandes passos para acertar de novo: arrepender-se, confessar e pedir perdão e restituir – e isso inclui abandonar o pecado, conforme Paulo exorta em Romanos 6.11-12, e a definição, de antemão, de consequências que a pessoa vai aceitar, se cair de novo.

O caminho pode, muitas vezes, ser demorado; é preciso transformar crucificação em ressurreição. Onde o pecado abundou, o Senhor derrama sua graça superabundante. Não aquela graça barata, mas a real, que custou grande preço. Minha oração é possamos fornecer uma luz na escuridão de como caminhar na restauração de forma eficaz.

Grandes líderes, pastores ou missionários próximos a mim ou a outros de minha equipe caíram feio nos últimos dez anos. Mais ou menos a metade deles optaram pelo caminho da restauração – ainda que nem sempre, desde o início. Outros recusaram a disciplina da denominação ou igreja. Exemplos como os de Gordon MacDonald, nos Estados Unidos, e Darci Dusilek, aqui no Brasil, nos oferecem a esperança de saber que a restauração pode ser real e genuína, até abrindo portas para um novo ministério mais autêntico.

Tanto o mundo como a própria Igreja precisam de sinais do Reino que mostram que há esperança para qualquer pecador. Este caminho, quando levado a sério, acaba tendo esse resultado. As pessoas se desmoronam com a queda moral de um pastor, líder ou até cristão comum – mas, também, se firmam e se alegram em perceber que existe verdadeira restauração.

Como acostumamos dizer no Mapi, o erro que cometemos importa menos que o que fazemos depois para corrigi-lo. Quando alguém cai ou entra em crise profunda, precisa abraçar “o que vem depois”: o arrependimento, a confissão e a restituição. E a maior parte da restituição tem a ver com abraçar também o processo de restauração. A falha de um companheiro de caminhada é uma falha nossa, já que somos do mesmo corpo, o corpo de Cristo.

Dessa forma, poderemos entrar na glória de compartilhar a missão de Jesus Cristo, quando declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres, proclamar liberdade aos cativos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lucas 4.18-19).


Fonte:
Cristianismo Hoje - David Kornfield

David Kornfield é pastor, mestre em Antropologia e tem doutorado em Educação Comparativa. Missionário de Servindo Pastores e Líderes (Sepal), ele coordena o Movimento de Apoio para Pastores e Líderes, o Mapi

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