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O que podemos fazer para ajudar a prevenir o suicídio?


O Brasil é o oitavo país a registrar mais mortes por conta de suicídios. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, são 32 pessoas mortas por dias, uma taxa superior às vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Ainda de acordo com a OMS, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

Para isso é preciso quebrar os tabus, falando sobre o assunto, conscientizando e estimulando a prevenção. Manter a questão como um mal silencioso nada ajuda na reversão desse triste cenário.

Auxiliando na conscientização sobre o suicídio, convidamos o pastor Wilson Porte Jr., autor de “Depressão e Graça”, a esclarecer alguns pontos sobre o assunto:

Os casos de suicídio entre jovens universitários parecem estar cada vez mais comuns. Quais fatores favorecem isso hoje?

Não é tão fácil determinar fatores envolvidos nos casos de depressão e de suicídio de universitários ou quaisquer outros grupos. Há muitos fatores envolvidos. O que podemos considerar inicialmente é o alto nível de pressão tanto interna quanto externa. A pressão que os alunos que estão para prestar vestibular e os universitários sofrem sobre resultados e expectativas é muito grande. Não se trata apenas da pressão dos professores ou dos pais, mas da pressão que o próprio estudante impõe sobre si mesmo.

A falta de absolutos é, sem dúvida, outro fator predominante para o suicídio. Estudos baseados em cartas deixadas por suicidas sugerem que o que lhes falta é um refúgio, algo absoluto, algo que não se abstraia na hora da confusão mental. E como vivemos em um tempo em que pseudos eruditos relativizam tudo, nos momentos de crise existencial ou de enfermidade mental é possível que pela ausência de absolutos e um refúgio seguro, tais jovens acreditem que o melhor a fazer é tirar a própria vida.


Todas as pessoas que sofrem com depressão correm o risco de cometer suicídio? Qual é a relação entre os dois?

Sim, todas correm este risco. Depressão é algo sério. Independentemente se iniciada por questões genéticas ou patológicas, ou se iniciada por pecados ou opressão demoníaca, a depressão sempre deve ser levada a sério, pois pode levar a picos de alucinação nos quais muitos se matam. Quando uma pessoa está em depressão, se ela não busca tratamento, a doença pode gerar algo grave em sua mente, fazendo com que ela não tenha controle sobre suas decisões. É neste ponto que muitos matam a outros ou tiram a própria vida. Vide a popularmente chamada “depressão pós-parto”, na qual uma mulher é capaz de tirar a vida do próprio filho recém-nascido em um estado claro de enfermidade mental.

Existe algum sintoma, algum sinal que pode nos ajudar a reconhecer que um amigo precisa de ajuda nessa área?

Sim, não é difícil percebermos os sinais. O grande problema é nossa indisposição de ouvir ou olhar para o próximo. Em nossa sociedade estamos tão voltados para dentro de nós mesmos, tão alienados dentro de nossos smartphones, que chegamos a ser incapaz de perceber o mundo de sofrimento do outro.

Dois fatores são importantes para que identifiquemos e ajudemos o que sofre. O primeiro é darmos atenção às pessoas, ouvindo sem já ficar pensando no que responder, sentando com elas e dando importância à dor do outro. O segundo fator é conhecermos as Escrituras e sabermos como o próprio Deus tratou e aconselhou pessoas em grande sofrimento. É sobre isso que meu livro “Depressão e Graça” trata.


O que podemos fazer para dar suporte a quem sofre com pensamentos suicidas?

Apresentando a esta pessoa o refúgio que somente em Deus produzirá paz. Textos bíblicos que apresentem o Senhor como refúgio, castelo forte, fonte de esperança, e como alguém poderoso para abrir um caminho onde não parece ser possível haver saída. Além disso, é importante que, em amor, incentivemos esta pessoa a procurar um médico, a fazer exames, a tomar os medicamentos prescritos e a cumprir tudo o que lhe foi aconselhado biblicamente.

O que não podemos fazer é nos distanciarmos. Algumas ideias para evitar isso podem ser convidar esta pessoa para um passeio, para uma caminhada, para correr numa praça, para cozinhar com você algum prato do qual ela goste, incentivá-la a fazer boas e saudáveis refeições, compartilhar com a pessoa como você mesmo tem encontrado esperança e força em Deus para vencer suas próprias tribulações.

Ainda há muitos cristãos que não veem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico com bons olhos. Qual deve ser o papel e o valor desse auxílio médico para o cristão?

Se uma pessoa está em depressão porque cometeu algum erro do qual não se arrepende, é óbvio que não devemos enviar esta pessoa a um psicólogo ou psiquiatra. Se um casal está com problemas por causa de pecados no relacionamento, é óbvio que não os encaminharemos para estes mesmos profissionais. Alguém maduro na fé é capaz de ajudar estas pessoas a compreender o conselho de Deus para os problemas que estão vivendo.

Agora, se a profunda angústia, sofrimento ou depressão que uma pessoa vive não tem relação com pecados ou opressões malignas, se a depressão vivida por alguém é fruto de questões endógenas, de uma enfermidade mental, esta pessoa deve procurar um médico. O médico só deve ser procurado quando a depressão tiver causas físicas e não espirituais. O problema é que, na maioria das vezes, uma área afeta a outra.

Algumas pessoas que começam a sofrer com os sintomas da depressão por causa de uma culpa escondida e não confessada, que acaba gerando problemas físicos como alergias, desarranjos intestinais, dores de cabeça ou da coluna, e até mesmo cânceres. Ou seja, se algo espiritual pode gerar problemas físicos, me parece óbvio que na hora do tratamento as duas partes devem ser tratadas: a espiritual por alguém que conhece a Deus e Sua Palavra, e a física por alguém que conhece o corpo humano e como tratá-lo. Creio que é aqui que estes profissionais entram. E creio que a ajuda deles é de grande valor para “regular” o corpo do depressivo a fim de que compreenda o conselho de Deus que tratará desta área em sua alma.

Fonte:
Ultimato Jovem - Wilson Porte Jr.

Wilson Porte Jr. é pastor na Igreja Batista Liberdade, em Araraquara-SP, bacharel e mestre em teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e CPAJ (Univ. Mackenzie). É presidente da Comunhão Reformada Batista no Brasil e do Conselho do Seminário Martin Bucer, onde leciona nas áreas de teologia bíblica, grego e hebraico.

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