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Paradigmas da Reforma: três visões da Igreja

Publicado originalmente na Revista Ultimato edição 334 - Janeiro-Fevereiro

Por Alderi Souza de Matos

Dentro de poucos anos será comemorado o 5º centenário da Reforma Protestante. Isso significa que até 2017 muito irá se falar, escrever e debater sobre o significado e as implicações desse importante movimento do século 16, do qual muitas igrejas evangélicas se consideram herdeiras. Como se sabe, os diferentes reformadores abraçaram um conjunto de convicções e princípios comuns. Embora fundamentais, esses princípios não impediram que o movimento protestante se fracionasse em diversas correntes. No século 16, esses grupos foram quatro -- luteranos, reformados, anabatistas e anglicanos. Nos séculos seguintes, surgiram muitos outros, todos os quais, de alguma forma, desenvolveram ênfases que já estavam presentes nos quatro movimentos iniciais. Assim, os ramos pioneiros da Reforma representaram não somente diferentes confissões religiosas, mas também diferentes maneiras de entender a igreja e a vida cristã.

Tradição

Os reformadores se defrontaram com um dilema: eles queriam romper com certos elementos dogmáticos e comportamentais da igreja majoritária, mas ao mesmo tempo desejavam demonstrar um senso de continuidade com a longa história cristã anterior a eles. Em outras palavras, eles questionaram alguns aspectos do passado cristão, mas se esforçaram por manter outros. Isso aconteceu em diferentes graus nos movimentos iniciais da Reforma. Dois desses grupos foram especialmente escrupulosos no sentido de preservar tudo o que fosse possível da tradição cristã anterior: luteranos e anglicanos. Isso fica evidente em diversas áreas da vida da igreja, como o entendimento do ministério e do culto cristão.

Apesar de sua crítica contundente do catolicismo medieval, Lutero e seus seguidores preservaram o episcopado, um entendimento semicatólico da Ceia do Senhor, um forte destaque ao calendário eclesiástico e uma liturgia elaborada. Os anglicanos foram ainda mais enfáticos nesse esforço, dando imenso valor à sucessão apostólica, a hierarquia e a um culto aparatoso, fortemente marcado pelo ritual. Para um observador desavisado, uma cerimônia anglicana se parece bastante com sua equivalente católico-romana. Não obstante a influência inicial da tradição reformada ou calvinista, o anglicanismo abraçou consciente e intencionalmente uma síntese católico-protestante, apesar da presença de uma ala nitidamente evangélica nessa igreja (“Low Church”). Luteranos e anglicanos também procuraram manter o ideal da cristandade, ou seja, uma igreja única e hegemônica fortemente aliada ao Estado.

Experiência

Outro grupo inicial da Reforma Protestante tomou um rumo diametralmente oposto ao das igrejas retromencionadas -- os anabatistas, também conhecidos como “irmãos suíços”. Para esse segmento, o mais importante não eram os 1.500 anos de história e tradição anteriores, mas as origens mesmas do cristianismo, isto é, o Novo Testamento. Seu grande ideal foi voltar a viver como os cristãos da igreja primitiva. Com isso, seu movimento se caracterizou pela rejeição da pesada herança dogmática, litúrgica e institucional do catolicismo e do protestantismo magisterial. Para a mentalidade anabatista, o mais importante era o elemento experimental da fé cristã: o relacionamento com Deus, a necessidade de conversão, a separação do mundo e o exercício da fé.

Esses traços deram grande vitalidade espiritual aos “irmãos” e os capacitaram a enfrentar corajosamente as horríveis perseguições de que foram objeto em diversas regiões da Europa. Ao mesmo tempo, seu experiencialismo foi uma fonte de dificuldades que foram lamentadas pelos reformadores principais. Entre estas podem ser mencionadas o apelo a revelações diretas do Espírito Santo, o perigo de lideranças personalistas e o fanatismo gerado por convicções milenaristas. Com o tempo, esse grupo adquiriu maior sobriedade e equilíbrio, sob a direção de homens como o holandês Menno Simons, o originador dos menonitas.

Escritura

Uma terceira abordagem entre os grupos protestantes foi adotada pelos reformados ou calvinistas, que privilegiaram uma posição mediana entre o tradicionalismo dos luteranos e anglicanos e o experiencialismo dos anabatistas, ainda que abraçando certas preocupações desses movimentos. Historicamente, os reformados têm sido conhecidos por sua ênfase na Palavra de Deus, a revelação bíblica, como o fundamento primordial da igreja e da fé cristã. Eles entendem que nem a tradição nem a experiência devem ter a última palavra na vida e na espiritualidade cristã, mas devem estar sempre submissas à revelação objetiva de Deus nas Escrituras.

Como foi dito, o movimento reformado abraçou uma posição intermediária entre as outras duas alternativas, porém não as rejeitou por completo. À semelhança das tradições luterana e anglicana, o calvinismo tem um imenso respeito pela história cristã ao longo dos séculos, por muita coisa que os cristãos fizeram e falaram de positivo nos 1.500 anos anteriores à Reforma. São exemplos disso a sua apreciação pelos pais da igreja e pelas grandes formulações dos credos históricos, bem como pela riqueza e profundidade espiritual das liturgias antigas. De igual modo, a tradição reformada sempre valorizou os aspectos existenciais e práticos da vida cristã, como a vida devocional, a oração, a santificação e a obediência à lei de Deus. Tudo isso, no entanto, fica sempre subordinado à Palavra, que deve ter prioridade em tudo o que diz respeito à fé, ao culto e à vida.

Conclusão

Todas as igrejas protestantes que surgiram a partir do século 17 são herdeiras desses paradigmas do século 16, mesclando-os em diferentes proporções. No mundo contemporâneo, temos confissões que se destacam por sua reverência pelo passado, seu senso de continuidade histórica, sua valorização de formas institucionais e litúrgicas consagradas pela tradição. Outros grupos se caracterizam primariamente por sua espontaneidade, informalidade e intensidade espiritual, a partir de uma experiência direta do divino. Finalmente, há aqueles que, sem desprezar a tradição e a experiência, entendem que sua identidade deve ser moldada acima de tudo pelo compromisso com o que Deus revelou em sua Palavra -- o “sola Scriptura” dos reformadores do século 16. Que as igrejas filhas da Reforma reafirmem esse compromisso solene, para que possam ser fiéis ao evangelho de Cristo nos momentosos dias atuais.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br


Fonte: Revista Ultimato

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